Fernando Alcoforado*
Um sistema é um conjunto de partes interagentes e interdependentes que, conjuntamente, formam um todo unitário com determinado objetivo e efetuam determinada função. Os sistemas recebem recursos (informações, energia, material ou dinheiro) do ambiente e, após seu processamento, provém como produto a informação, a energia, matéria ou dinheiro para o ambiente. São exemplos de sistema o sistema solar, a biosfera, o sistema político, o sistema econômico, o sistema de injeção eletrônica, o sistema elétrico, o sistema digestivo, etc.
Cada um desses sistemas possui um conjunto de elementos relacionados entre si (chamados de componentes, subsistemas ou subunidades) que visa a consecução de determinados objetivos, tais como, manter os planetas girando em torno do sol no caso do sistema solar, manter a vida sobre a Terra no caso da biosfera, e matéria contidas em alimentos no caso do sistema digestivo, manter a estabilidade política no caso do sistema político, promover o desenvolvimento de uma nação no caso do sistema econômico, regular a mistura ótima de combustível e ar para o funcionamento do motor no caso do sistema de injeção eletrônica, atender a demanda de eletricidade de um país ou região no caso do sistema elétrico e incorporar, ao corpo de um animal, a energia.
A interação dos elementos do sistema é chamada de sinergia. A sinergia é o que possibilita um sistema funcionar adequadamente. Por outro lado a entropia (conceito da física) é a desordem ou ausência de sinergia. Um sistema para de funcionar adequadamente quando ocorre entropia interna. Os organismos (ou sistemas orgânicos) em que as alterações benéficas são absorvidas e aproveitadas sobrevivem, e os sistemas onde as qualidades maléficas ao todo resultam em dificuldade de sobrevivência, tendem a desaparecer caso não haja outra alteração de contrabalanço que neutralize aquela primeira mutação. Assim, a evolução permanece ininterrupta enquanto os sistemas se autorregulam. Um sistema realimentado é necessariamente um sistema dinâmico. Em um ciclo de retroação, uma saída é capaz de alterar a entrada que a gerou, e, consequentemente, a si própria.
Um sistema pode ser simples ou complexo. Um sistema simples é aquele que possui poucos componentes e a relação entre os componentes é direta. Sistemas simples costumam ser mecânicos, lineares e previsíveis. Produção de bolo é um exemplo de sistema simples. Já um sistema complexo possui muitos elementos que são altamente relacionados e interconectados. Sistemas complexos tendem a ser não-lineares, possuem algum dispositivo de retro-alimentação (feedback) e controle do retorno e, por isso, são cibernéticos. Exemplos de sistemas complexos incluem sistemas sociais (redes sociais), econômicos (redes de empresas, consumidores e governos), biológicos (colônias de animais) e físicos (clima).
Um sistema estável é aquele em que mudanças no ambiente resultam em pouca ou nenhuma mudança no sistema. Um sistema dinâmico, por sua vez, é o que sofre mudanças rápidas e constantes devido à mudança de seu ambiente. Um sistema pode ser aberto ou fechado, O sistema aberto apresenta intercâmbio com o ambiente. É um sistema inteiramente probabilístico e totalmente flexível, pois não é possível mapear todas as suas entradas e saídas. O melhor exemplo de sistemas abertos são as organizações em geral e as empresas em particular, todos os sistemas vivos e, principalmente, o homem. Já um sistema fechado é inteiramente programado e determinístico não possuindo qualquer interação com o ambiente. O melhor exemplo de sistemas fechados são as máquinas e os motores. Há uma separação muito nítida entre o sistema e o seu ambiente, isto é, as fronteiras do sistema são fechadas. Na realidade, não existe um sistema totalmente fechado (que seria hermético), nem totalmente aberto. Todo sistema tem algum grau de relacionamento e de dependência com o ambiente.
Os sistemas podem ser adaptáveis e não adaptáveis. Um sistema adaptável é aquele que responde ao ambiente mutável. Em outras palavras, é aquele que monitora o ambiente e promove modificações em resposta a mudanças do ambiente. O sistema não adaptável é aquele que não muda com o ambiente mutável. Um sistema é permanente quando existe ou existirá por um longo período de tempo. Um sistema temporário é aquele que existirá por um curto espaço de tempo.
As leis gerais de todo sistema são as seguintes: 1) Todo sistema é composto de subsistemas; 2) Quanto maior é a fragmentação de um sistema com vários subsistemas maior será a necessidade de coordenar as partes; e, 3) Todo sistema procura o equilíbrio (homeostase) e que se uma parte não está funcionando bem, outras terão que trabalhar mais para manter o equilíbrio para que o sistema consiga atingir seu objetivo. Um sistema complexo pode ser: 1) dinâmico, adaptativo e não linear; 2) caótico, imprevisível e sensível às condições iniciais; e, 3) aberto, auto-organizável e sensível ao feedback ou realimentação.
O sistema complexo, dinâmico, adaptativo e não linear é todo sistema que envolve elementos ou agentes, não necessariamente em grande número, que interagem entre si, formando uma ou mais estruturas que se originam das interações entre tais agentes. Um aspecto relevante é que este tipo de sistema está constantemente revisando e reorganizando seus blocos construtores à medida que ele ganha experiência. Gerações sucessivas de organismos modificarão e reorganizarão seus tecidos através do processo de evolução. O cérebro, por exemplo, continuará a se fortificar ou enfraquecer suas conexões entre seus neurônios na medida em que um indivíduo estabelece uma troca com o meio ambiente.
O sistema complexo caótico, imprevisível e sensível às condições iniciais se caracteriza pela incapacidade de prever seus estágios futuros porque uma pequena mudança nas condições iniciais do sistema pode ocasionar grandes implicações em seu comportamento futuro. Pode-se tomar como exemplo a meteorologia que é um sistema complexo em estado permanentemente caótico e o sistema capitalista mundial que é um sistema sujeito a crises cíclicas permanentes na sua evolução.
O sistema complexo aberto, auto-organizável e sensível ao feedback troca insumo ou energia com o ambiente e é suscetível às mudanças resultantes de feedback, adaptando-se ao novo ambiente e aprendendo por meio de sua experiência. Quanto mais complexo um sistema (seres vivos, sistema econômico, sistema político, por exemplo) maior é o número de feedbacks que apresenta desenvolvendo assim, propriedades completamente novas denominadas de emergência. Outra característica fundamental é a capacidade que o sistema tem de promover a seleção natural e auto-organização.
Quando um sistema é complexo, não linear, aberto com insumo constante, o número de componentes interativos e a quantidade de energia inserida no sistema causam o aparecimento de fractais ou “atratores estranhos”, os quais passam a conduzir o sistema. Um atrator estranho pode ser definido como o conjunto de comportamentos característicos para o qual evoluiu um sistema dinâmico independentemente do ponto de partida. Um atrator é estranho devido ao elevado grau de incerteza dos resultados do sistema.
Cabe observar que um sistema dinâmico pode evoluir para: 1) um atrator fixo como, por exemplo, uma bola girando em volta de uma cova que acaba por se fixar no seu fundo por ação da gravidade e do atrito; 2) um atrator periódico como, por exemplo, na oscilação de um pêndulo que não havendo nenhum atrito, a bola girará indefinidamente; e, 3) um atrator estranho quando o sistema flutua para sempre entre vários estados de um modo que não é aleatório, nem é fixo, nem oscilatório, mas sim uma flutuação contínua caótica. Os sistemas mais complexos possuem todos estes três tipos de atratores; condições iniciais diferentes levam não só a comportamentos diferentes, mas também a tipos de comportamento diferentes.
O sistema econômico, político e social do Brasil, que é complexo, pode ser enquadrado como caótico, imprevisível e sensível às condições iniciais porque apresenta como «atratores estranhos» no sistema econômico o modelo neoliberal responsável pela recessão e pelo desemprego em massa, no sistema politico a Constituição atual que contribui para a ausência de governabilidade e a corrupção sistêmica nos poderes da República e no sistema social a anarquia caracterizada pela desobediência civil generalizada responsável pelo aumento da criminalidade e a violência politica. A incapacidade dos governantes do Brasil de reverter os danos provocados pela crise econômica, política e social que tende a levar ao colapso o país é uma prova cabal desta afirmativa.
Para assegurar a governabilidade do sistema político brasileiro seria necessário fazer com que o sistema econômico neoliberal atual seja substituído por outro modelo econômico que faça com que o sistema econômco seja sensivel ao «feedback» e contrôle exercido pelo governo, haja uma nova Constituição para reordenar o sistema político a fim de o governo recuperar a governabilidade e combater a corrupção e o sistema social alcance a estabilidade necessária à conquista da paz social.
Pode-se afirmar que o Brasil vive na atualidade um momento decisivo de sua história em que o mundo anterior está terminando ao mesmo tempo em que o novo busca se afirmar. O Brasil terá que optar entre o caos sistêmico atual traduzido na recessão e no desemprego em massa e na violência entre os seres humanos com a manutenção do modelo neoliberal existente sujeito aos ditames do mercado ou a mudança que pode significar uma nova ordem econômica edificada racionalmente em que o governo interferiria através de «feedback» e contrôle sobre a atividade econômica visando seu desenvolvimento.
No momento atual, prevalece o mundo caótico em que os supremos interesses da população brasileira não são considerados e sim os do sistema financeiro e dos grandes grupos econômicos nacionais e internacionais. É preciso fazer com a nova ordem econômica, pol[itica e social a ser edificada no Brasil, baseada na cooperação entre o setor produtivo e a Sociedade Civil, sob a coordenação de um governo democrático, se sobreponha ao caos reinante. Este governo a ser implantado no Brasil promoveria o desenvolvimento econômico e social, exerceria a regulação econômica, coordenaria as ações voltadas para o ordenamento do meio ambiente do país e faria a mediação dos conflitos entre o setor produtivo e a Sociedade Civil.
*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).