Fernando Alcoforado*
O Maio de 1968 foi uma grande onda de protestos que teve início com manifestações estudantis para pedir reformas no setor educacional da França. Os universitários se uniram aos operários e promoveram a maior greve geral da Europa, com a participação de cerca de 10 milhões de pessoas. O começo de tudo foi uma série de conflitos entre estudantes e autoridades da Universidade de Paris, em Nanterre, cidade próxima à capital francesa. No dia 2 de maio de 1968, a administração da Universidade ameaçou expulsar vários estudantes acusados de liderar o movimento contra a instituição. As medidas provocaram a reação imediata dos alunos de uma das mais renomadas universidades do mundo, a Sorbonne, em Paris.
Os estudantes se reuniram no dia seguinte para protestar, saindo em passeata sob o comando do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit. A polícia reprimiu os estudantes com violência e durante vários dias as ruas de Paris viraram cenário de batalhas campais. A reação brutal do governo só ampliou a importância das manifestações. O Partido Comunista Francês (PCF) anunciou seu apoio aos universitários e uma influente federação de sindicatos, a CGT, convocou uma greve geral para o dia 13 de maio. No auge do movimento, quase dois terços da força de trabalho do país cruzaram os braços. As pessoas aderiram à greve, até sua proclamação oficial em 13 de maio. Foi quando toda a França parou. Houve um conjunto de protestos, manifestações e conflitos em que os estudantes pediam reformas no setor educacional, as mulheres exigiam mais igualdade e os trabalhadores pediam salários maiores. A conquista da revolução sexual, o aumento dos direitos trabalhistas e o fim da guerra do Vietnã faziam parte do conjunto das reivindicações. O movimento cresceu tanto que desestabilizou o governo do então presidente da França, general Charles De Gaulle, que, enfraquecido politicamente, renunciou um ano depois.
O movimento estudantil, que, teve início na Universidade de Nanterre em 1968 se alastrou rapidamente por toda Paris, alcançando a Sorbonne, todo o Quartier Latin, e, em poucas semanas, as principais províncias francesas. Este movimento irrompeu no centro de uma Europa capitalista altamente industrializada, após a 2ª Guerra Mundial, no apogeu de um crescimento econômico capitalista de quase trinta anos ininterruptos (os anos gloriosos). Este movimento não se reduziu à agitação de estudantes universitários que se constituíram na força que anunciava a rebelião em curso. A efervescência estudantil era antes a manifestação mais evidente ou o barômetro sensível de um descontentamento geral e de uma crise maior que já se anunciava no seio da sociedade francesa, cujas origens mais profundas pertencem ao processo de desenvolvimento econômico inaugurado em finais do século XVIII com a 1ª Revolução Industrial.
Não apenas a ordem econômica capitalista estava em jogo, mas a própria ordem social e com ela a alienação a que toda a população francesa estava submetida — a falta de significado de uma sociedade capitalista burocratizada, onde a maioria dos cidadãos levava uma existência trivial, medíocre, repetitiva, repressiva e reprimida. Toda ordem social estava sendo questionada, o estilo de vida, o quotidiano estava sob suspeita. Uma árdua luta foi travada contra os patrões e o Estado. “Ni Dieu, Ni Mâitre!” (“Nem Deus, Nem Senhor!”), exclamavam os anarquistas, relembrando o lema de Auguste Blanqui, de finais do século XIX. “À Bas l’État Policier!” (“Abaixo o Estado Policial!”), gritavam outros rebeldes, selvagemente reprimidos pela força policial — a violência organizada e concentrada nas mãos do Estado, detentor do monopólio das armas. Este é o relato de Concessa Vaz, Professora (aposentada) na UFMG, que foi ativa participante dos acontecimentos que eclodiram em Paris, em artigo sob o título Maio de 1968 e o sentimento do inacabado publicado no website <https://outraspalavras.net/destaques/maio-de-1968-e-o-sentimento-do-inacabado/>. O relato de Concessa Vaz é confirmado por Vincent Cespedes em sua obra Mai 68- La philosophie est dans la rue, publicada pela Larousse em 2008.
Para entender o que aconteceu em maio de 1968 em Paris, é preciso considerar que o período pós-1945, isto é, após a 2ª Guerra Mundial, se caracteriza por um forte crescimento econômico, impulsionado pelas necessidades de reconstrução de uma Europa devastada e de uma França, em particular, atingida por duas grandes guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945) e por uma grande crise econômica (1929), que resultou em falências, desemprego em massa e uma severa depressão mundial. Foi assim que teve início os chamados “anos dourados” de crescimento econômico sem precedentes do capitalismo e cujo fator alavancador foram os ganhos de produtividade assentados no modelo taylorista-fordista de produção baseado nos “Princípios de Administração Científica“ formulados pelo engenheiro mecânico Frederic Taylor visando a organização das empresas e a racionalização da produção industrial para torná-la mais eficiente e, também, na “linha de montagem” idealizada por Henry Ford na indústria automobilística. Ford incorporou os princípios tayloristas de divisão do trabalho já estabelecidos e elevou ao máximo a produtividade com a intensificação acelerada do trabalho, induzida e viabilizada pela tecnologia da linha de montagem.
O modelo taylorista-fordista se estendeu rapidamente para outros setores muito além da indústria automobilística com a produção em massa e em larga escala, de modo a reduzir os custos unitários de produção. O fordismo, como veio a ser denominado, foi, assim, um dos motores do capitalismo que permitiu o pleno emprego e um aumento do nível de vida dos trabalhadores, via redução dos preços das mercadorias necessárias à sua sobrevivência e reprodução. Foi este o sistema de produção que veio a reger todo o crescimento econômico capitalista com sua linha de montagem fordista e os princípios de organização do trabalho taylorista do pós-guerra até o final da década de 1980 quando foi substituído pelo sistema Toyota de produção flexível. Com uma estrutura centralizada de produção, baseada no controle do tempo e dos movimentos do trabalhador na linha de montagem, as fábricas taylorista-fordista absorviam uma massa gigantesca de operários especializados que exerciam tarefas precisas, repetitivas, montando peças padronizadas, repetindo os mesmos gestos e se submetendo à cadência infernal da linha de montagem, embrutecidos e alienados.
É preciso observar que a produção em massa deu origem ao consumo em massa e transformou a sociedade, por sua vez, em um mundo de robôs, com modos de vida codificados e com rotinas rigidamente demarcadas com a uniformização da vida quotidiana. O mesmo princípio hierárquico da produção taylorista-fordista se refletia em universidades igualmente centralizadas, cujos reitores, tais como marionetes, deviam atender, prioritariamente, às necessidades tecnológicas do capitalismo francês, às exigências do sistema produtivo então implantado e disseminado. Concessa Vaz afirma em seu artigo acima citado que, não por acaso, os enfurecidos estudantes de Nanterre bradavam, já antes de Maio de 68 que não queriam ser “des chiens de garde de la bourgeoisie” (“cães de guarda da burguesia”). Concessa Vaz afirma, também, que o governo francês, por sua vez, estava nas mãos do general Charles De Gaulle que comandava a França com similar austeridade, sem consultas e governando por decreto, além de exercer um enorme controle político através das mídias de então: a televisão e o rádio. Os limites de seu governo se expressavam claramente no “slogan” já trivial nas manifestações de maio: “Adieu, De Gaulle, dix ans, ça suffit” (“Adeus, De Gaulle, dez anos, basta!”).
Em meados da década de 1960, o sistema de produção taylorista- fordista começou a perder eficácia. A produtividade desacelerou, os capitalistas tentaram compensar a queda reduzindo os salários reais, degradando ainda mais as condições de trabalho, promovendo o desemprego parcial e, funestamente, acelerando as já infernais cadências da linha de montagem. Os operários, em particular a massa de especializados, revoltaram-se contra o peso da crise que começo a recair sobre seus ombros, e o desequilíbrio instalou-se. Concessa Vaz, testemunha da rebelião de maio de 1968 na França, afirma no artigo acima citado que os operários decidiram juntar-se aos estudantes grevistas e recusaram-se ao jogo de “perdre sa vie à la gagner” (“perder a vida para ganhá-la”). Tal recusa apareceu também sob a forma de absenteísmo no trabalho, a recusa do trabalho, ou sob a forma de sabotagem. Mas foram provavelmente as condições salariais dos trabalhadores especializados, a maioria absoluta dos trabalhadores fordistas, que levaram os trabalhadores à revolta e a se juntarem aos estudantes. Esta adesão ficou definitivamente gravada nas bandeirolas que tremulavam por toda parte com os dizeres: “étudiants, professeurs, ouvriers” (“estudantes, professores, operários”). Foi esta junção histórica entre o trabalho intelectual e o trabalho manual que fez do Maio de 1968 na França um evento particular e diferenciado em relação ao que ocorria no resto do mundo.
No dia 25 de maio de 1968, dia seguinte da noite mais violenta de motins da primavera com 200 feridos, dois mortos e dez milhões de trabalhadores em greve foram realizadas negociações entre o governo, patronato, sindicato de trabalhadores e estudantes. Trinta horas mais tarde, o Primeiro Ministro Pompidou anunciou o resultado das negociações contemplando aumento de salários, redução do tempo de trabalho, avanços no direito sindical, redução dos encargos tributários sobre os salários, entre outras concessões. Os dirigentes dos trabalhadores da CGT anunciaram a vitória. Em todo o país, os acordos celebrados foram considerados, entretanto, atos de traição. De fato, os acordos celebrados não estavam à altura da gigantesca mobilização de maio de 1968. Falou-se, também, que uma situação pré-revolucionária foi abortada e traída pelos comunistas do PCF. Maio de 1968 representou, portanto, uma derrota das forças que desejavam realizar mudanças profundas na sociedade francesa (CESPEDES, Vincent. Mai 68- La philosophie est dans la rue. Paris: Larousse, 2008).
Um novo maio de 1968 poderá acontecer em todo o mundo porque as condições que imperavam em maio de 1968 se agravaram ainda mais ao longo do tempo. Estamos hoje diante de um mundo em que os seres humanos estão totalmente alienados que não se dão conta do que está acontecendo. Aceitam sem discutir a vida lamentável que foi planificada para eles. O sistema de produção atual coloniza todos os setores da vida. As pessoas se resignaram a esta vida porque pensa que não pode haver outro modelo de organização da sociedade. E é ai mesmo que se encontra a força da dominação presente: criar a ilusão de que esse sistema que colonizou toda a face da Terra representa o melhor que a humanidade já construiu em termos de organização social. Sonhar com outro mundo se tornou um crime criticado unanimemente pelos meios de comunicação e os poderes públicos. Na democracia parlamentar, não existe oposição ao “status quo”, pois os partidos políticos dominantes estão de acordo sobre o essencial que é a conservação da atual sociedade capitalista. Não existem partidos políticos susceptíveis de chegar ao poder que duvidem do dogma do mercado. O sistema representativo e parlamentar limita o poder dos cidadãos pelo simples direito ao voto, ou seja, a nada. As cadeiras do Parlamento estão ocupadas pela imensa maioria da classe econômica dominante, seja ela de direita ou da pretendida esquerda social democrática. A alienação das pessoas é a principal arma utilizada pelos detentores dos meios de produção e do poder político para evitar a conscientização da população mundial sobre a servidão econômica e política em que se acha submetida e dela resulte a rebelião contra os desumanos sistemas econômicos e políticos em vigor.
*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).