Fernando Alcoforado*
São consideradas intelectuais pessoas que se dedicam às letras, às artes, à filosofia e às ciências em geral. Quando se diz que determinada pessoa é intelectual, significa dizer que ela é culta, que produz obras literárias e artísticas, bem como estuda e faz reflexões sobre ideias filosóficas e científicas, que abrangem os mais variados temas relevantes para a sociedade. Um intelectual é, em síntese, uma pessoa que desempenha uma atividade de natureza mental relacionada com o intelecto e a inteligência visando a produção de obras literárias e artísticas em geral e de pensamentos filosóficos e científicos em geral. Ao longo da história da humanidade, sempre houve intelectuais que produziram suas obras para satisfazerem seu próprio ego ou os interesses de mecenas que lhes pagavam pela sua execução, sobretudo no campo das artes plásticas. Houve intelectuais que produziram suas obras para descrever ou retratar o mundo em que viviam através de, por exemplo, romances, pinturas, esculturas, música, obras teatrais e filmes, mas houve, também, intelectuais que produziram suas obras para transformar o mundo em que viviam. Houve, também, intelectuais conservadores que, como pensadores, produziram suas obras voltadas para a manutenção do status quo e outros pensadores revolucionários que traziam luz ao oferecer respostas aos problemas da sociedade visando promover o progresso da humanidade como ocorreu do século XIV ao século XVI com o advento do Renascimento Cultural, do século XVI ao século XVIII com a Revolução Científica e no século XVIII com o Iluminismo.
Dá-se o nome de Renascimento Cultural ao movimento de renovação intelectual ocorrido na Europa entre meados do século XIV e o fim do século XVI. No inicio do século XIV, inúmeros fatores conjugados e articulados criaram as condições para o início do Renascimento Cultural. A revolução comercial, a urbanização e o aperfeiçoamento da imprensa geraram o Renascimento Cultural. No plano econômico, a revolução comercial reativou o intercâmbio cultural entre Ocidente e Oriente, configurando-se como principal fator do Renascimento Cultural. Com o processo de urbanização foram geradas as condições para o surgimento de uma nova cultura com as cidades atuando como polo irradiador do Renascimento Cultural. A ascensão social e econômica da burguesia foi, também, fundamental para propiciar apoio e financiamento ao desenvolvimento da nova cultura. No plano intelectual, foi importante o aperfeiçoamento da imprensa, invenção atribuída a Gutenberg no século XVI, isto é, no final do Renascimento Cultural, que contribuiu para disseminar o conhecimento pela sociedade.
A nova cultura gerada pelo Renascimento Cultural apareceu em primeiro lugar na Itália. Ali estavam presentes de forma mais nítida as condições gerais para o início do Renascimento Cultural. As cidades italianas monopolizavam o comércio de especiarias com o Oriente, estimulando um efervescente intercâmbio cultural através dos contatos com as civilizações bizantina e sarracena. Veneza, Pisa, Gênova, Florença e Roma eram cidades que dominavam o comércio no Mediterrâneo. Nessas cidades, havia uma burguesia dinâmica incentivadora das transformações culturais. Além disso, na Itália a cultura clássica foi mais bem conservada do que no restante da Europa ocidental. Assim, no século XIV, a Itália foi a região onde se iniciou o Renascimento Cultural.
Não se deve considerar o Renascimento Cultural limitado às Artes e às Ciências, mas sim como uma mudança nas formas de sentir, pensar e agir em relação aos padrões de pensamento e comportamento vigentes na Idade Média. Todas essas transformações trouxeram mudanças no modo de pensar de muitas pessoas, principalmente as mais ricas que residiam nas grandes cidades. Nesse contexto, foram desenvolvidos movimentos de caráter intelectual, artístico e científico, que apresentaram como características principais o Humanismo e o Renascimento Cultural do século XIV ao século XVI e a Revolução Científica do século XVI ao século XVIII.
O humanismo foi um movimento de intelectuais surgido na Itália no século XIV que era interpretado comumente como sinônimo de antropocentrismo ou valorização do ser humano. Para os humanistas o homem era a medida de todas as coisas e estava no centro do Universo. Assim, consideravam o homem não só como uma criatura obra de Deus, mas, dotado de razão, e autor de grandes realizações. Inspirados pelo humanismo, artistas italianos como Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio, Giordano Bruno e Michelangelo, entre outros, foram protagonistas de um movimento cultural conhecido como Renascimento Cultural. Outros intelectuais grandes filósofos do Renascimento Cultural como Francesco Petrarca, Giovanni Boccaccio, Nicolau de Cusa, Lorenzo Valla, Marsilio Ficino, Pietro Pomponazzi, Paolo Ricci, Pico della Mirandola, Desiderius Erasmus (Erasmo de Roterdã), Copernicus, Thomas More, Francisco de Vitória, Niccolo Machiavelli, Ulrico Zuínglio, Juan Luis Vives e William Tyndale, entre outros, foram, também, protagonistas do Renascimento Cultural.
Outros grandes protagonistas do Renascimento Cultural foram: 1) Michel de Montaigne que analisou as instituições, as opiniões e os costumes da época; 2) André Vesálio que é considerado o “pai da anatomia moderna”; 3) Sandro Botticelli que foi um célebre pintor italiano da Escola Florentina que produziu afrescos para a Capela Sistina; 4) Miguel de Cervantes que foi romancista, dramaturgo e poeta espanhol que com Don Quixote de la Mancha, uma sátira aos romances de cavalaria, tornou-se o precursor do realismo na Espanha; 5) William Shakespeare que foi um poeta e dramaturgo inglês, tido como o maior escritor do idioma inglês e o mais influente dramaturgo do mundo; 6) Erasmo de Rotterdã que foi um teólogo e um humanista neerlandês (atual Holanda) que, em seu tempo, foi um dos maiores críticos do dogma católico romano e da imoralidade do clero não deixando de atacar também o movimento protestante de Lutero, além de ter sido autor de Elogio da Loucura; 7) Michelangelo Buonarroti que foi um pintor, escultor, poeta e arquiteto italiano, considerado um dos maiores criadores da história da arte do ocidente, foi considerado o maior artista de seu tempo; 8) Leonardo da Vinci, descrito como o arquétipo do homem do Renascimento, considerado um dos maiores pintores de todos os tempos, que se destacou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico; e, 9) Nicolau Maquiavel que foi um historiador, poeta, diplomata e músico italiano, é reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna.
O Humanismo e o Renascimento Cultural também influenciaram grandes intelectuais cientistas e pesquisadores da época que deram início à chamada Revolução Científica. Este movimento surgiu questionando o conhecimento retrógrado dominante imposto pela Igreja Católica durante a Idade Média considerada a Idade das Trevas. Os cientistas, valorizando a razão, apresentavam uma atitude crítica que os fazia observar os fenômenos naturais, realizar experiências, formular hipóteses e buscar sua comprovação. Vários cientistas foram grandes artífices da Revolução Científica como Galileu Galilei, Johannes Kepler, Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton, entre outros. Graças aos intelectuais cientistas batalhadores do progresso da humanidade, a Revolução Científica mudou o mundo para sempre, desenvolvendo uma nova mentalidade, crítica, racional e ativa diante da passividade e do tradicionalismo remanescentes da Idade Média. A partir desse momento, as transformações no mundo começariam a se acelerar e as estruturas econômicas, políticas e sociais a sofrerem forte abalo.
No século XVII surgiu a obra de René Descartes que influenciou grande parte dos pensadores dos séculos seguintes. Immanuel Kant classificou os pensadores em duas escolas: racionalistas e empiristas. O racionalismo é a doutrina que deposita total e exclusiva confiança na razão humana como instrumento capaz de conhecer a verdade. O empirismo defende que todas as nossas ideias são provenientes de nossas percepções sensoriais (visão, audição, tato,paladar, olfato). Os três racionalistas principais foram René Descartes, Baruch Spinoza e Gottfried Leibniz. Francis Bacon e Thomas Hobbes foram precursores do empirismo. Depois deles vieram os empiristas John Locke, George Berkeley e David Hume.
O Humanismo, o Renascimento Cultural e a Revolução Científica antecederam, para alguns autores, o Iluminismo. O Iluminismo foi uma corrente de pensamento que nasceu na Europa do século XVIII. Os filósofos iluministas defendiam o predomínio da razão sobre a fé e acreditavam que o progresso e a felicidade seriam o caminho traçado para a humanidade. Os filósofos iluministas defendiam a liberdade de expressão dos cidadãos, a liberdade religiosa, acreditavam que todos são iguais perante a lei e que todos têm o direito de defesa contra o abuso das autoridades.
Os quatro principais precursores do Iluminismo foram Descartes, Bacon, Locke e Newton. René Descartes foi considerado o pai do racionalismo moderno e sua principal obra foi o Discurso do Método. Nessa obra, adotou a dúvida sistemática como meio para encontrar a verdade. Segundo Descartes, deveríamos duvidar de tudo, ou seja, a dúvida seria a premissa das coisas. Para esse iluminista, a dúvida acabaria através da comprovação científica. O segundo pensador, também precursor do Iluminismo, foi o inglês Francis Bacon, considerado o revolucionário do método científico, e que foi o responsável por ter criado a experimentação científica, na qual a verdade científica deve ser comprovada pela experiência e pela prática. O inglês John Locke foi considerado o terceiro crítico veemente da teoria política do poder divino dos reis. Locke formulou a teoria política de que o governante deveria respeitar os direitos naturais e não ultrapassar os limites dos representantes que o escolheram. Foi também um dos fundadores da monarquia parlamentar. O quarto precursor do pensamento iluminista foi Isaac Newton. Para esse pensador iluminista, os fenômenos naturais são regidos por leis naturais. Ele formulou a lei da gravidade e é considerado o pai da Física Moderna.
Os quatro pensadores iluministas descritos acima foram de fundamental importância para a mudança de mentalidade da sociedade europeia. A partir das ideias iluministas, pensadores franceses como Rousseau, Montesquieu, Voltaire, Diderot e D’Alembert, aprofundaram e divulgaram a corrente de pensamento iluminista pelo mundo, influenciando diretamente a Revolução Francesa, marco de ruptura com a sociedade do Antigo Regime, o Absolutismo monárquico. A principal característica das ideias iluministas era a explicação racional para todas as questões que envolviam a sociedade.
Em suas teorias, alguns pensadores intelectuais iluministas, como filósofos e juristas, preocuparam-se com as questões políticas, sociais e religiosas, enquanto outros, como os economistas, procuraram uma maneira de aumentar a riqueza das nações. De modo geral, esses pensadores defendiam a liberdade, a justiça, a igualdade social e Estados nacionais com divisão de poderes e governos representativos. Acreditavam que esses elementos eram essenciais para haver uma sociedade mais equilibrada e para a felicidade do homem. Os principais pensadores iluministas no campo do liberalismo social foram Voltaire, Montesquieu e Rousseau. E no campo do liberalismo econômico: Quesnay e Smith.
O Iluminismo era visto pelos intelectuais como um movimento que iluminava a capacidade humana de criticar e almejar um mundo melhor. As raízes do Iluminismo estão no Renascimento Cultural e na Revolução Científica. Pode-se afirmar que o Iluminismo foi, até certo ponto, uma continuação do Renascimento Cultural e da Revolução Científica. O Iluminismo repercutiu em todo o mundo. Antes mesmo de influenciar a Revolução Francesa, que estava por vir, teve influência sobre a Revolução Americana, que resultou na formação dos Estados Unidos. Os intelectuais iluministas sonhavam com um mundo perfeito, regido pelos princípios da razão, sem guerras e sem injustiças sociais, onde todos pudessem expressar livremente seu pensamento.
As ideias do Iluminismo tinham por base o racionalismo, isto é, a primazia da razão humana como fonte do conhecimento. No século XVIII, vários intelectuais começaram a se mobilizar em torno da defesa de ideias que pautavam a renovação de práticas e instituições vigentes em toda Europa. Levantando questões filosóficas que pensavam a condição e a felicidade do homem, o movimento iluminista atacou sistematicamente tudo o que era considerado contrário à busca da felicidade, da justiça e da igualdade social. O iluminismo foi um movimento global, filosófico, político, social, econômico e cultural, que defendia o uso da razão como o melhor caminho para se alcançar a liberdade, a autonomia e a emancipação política. O Iluminismo foi a grande Revolução Intelectual da história da humanidade. O século XVIII conheceu várias revoluções: a Revolução Industrial, a Revolução Francesa e a Revolução Intelectual promovidas pelos intelectuais iluministas.
O Iluminismo se caracterizou pela intensa produtividade de intelectuais (artistas, homens de ciência e filósofos), e colaborou decisivamente para mudar as formas de pensar, sentir e agir da humanidade. As elites intelectuais, cada vez mais, acreditavam na razão, definida como a capacidade de compreender o mundo através do raciocínio sistemático. Essa nova forma de pensar, baseada no conhecimento indutivo e dedutivo e na utilização da experiência controlada, deveria iluminar as ações humanas e substituir as explicações religiosas do mundo. Com o iluminismo passa-se a ter uma visão otimista do mundo que não teria como interromper seu progresso na medida em que o homem contava com o pleno uso de sua racionalidade. Os direitos naturais, o respeito à diversidade de ideias e a justiça social deveriam promover a melhoria da condição humana. Oferecendo essas ideias, o Iluminismo motivou as revoluções burguesas na França e em todo o mundo no século XVIII que trouxeram o fim do Absolutismo monárquico e a instalação de doutrinas de caráter liberal que predominam até hoje no mundo.
As teses políticas do Iluminismo fracassaram desde a Revolução Americana (1776) e a Revolução Francesa (1789) porque suas promessas de conquista da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da felicidade humana não se realizaram. Este fracasso abriu caminho para o advento da ideologia marxista em todo o mundo que se propunha a dar um passo à frente em relação ao Iluminismo buscando o fim da exploração do homem pelo homem com a eliminação das desigualdades econômicas entre as classes sociais e, no futuro, sua completa abolição com a implantação do socialismo e do comunismo. Os fatos da história demonstram que as teses iluministas que nortearam as revoluções burguesas no século XVIII e as teses marxistas com base nas quais foram realizadas as revoluções socialistas no século XX fracassaram porque não cumpriram suas promessas históricas de conquista da felicidade humana.
Vivemos na atualidade desde o século XX, uma única catástrofe, como afirmava Walter Benjamin, ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão, associado à Escola de Frankfurt, de que o inferno não é aquilo que chegará, mas sim é essa vida aqui e agora (THIELEN, Helmut. Além da modernidade para a globalização de uma esperança conscientizada. Petrópolis: Vozes, 1998). Estamos vivendo uma era cuja principal característica é o aprofundamento da barbárie: 2 guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945) com 187 milhões de mortes; a Guerra Fria com pelo menos 200 guerras localizadas e 20 milhões de mortes, de 1945 a 1989 e a proliferação de conflitos em todos os quadrantes da Terra entre as grandes potências na luta pelo domínio global e a escalada do terrorismo na era contemporânea.
Além dos conflitos entre as grandes potências e da escalada do terrorismo, vivemos na era atual outra barbárie que é a guerra permanente contra a natureza que contribui para sua destruição, o aquecimento global e a consequente mudança climática catastrófica no planeta que pode ameaçar a própria sobrevivência da humanidade. Graeme Maxton afirma que a humanidade está se movendo para trás porque está destruindo mais do que construindo. Em cada ano, a economia mundial cresce aproximadamente US$ 1,5 trilhão. Mas, em cada ano, a humanidade devasta o planeta a um custo de US$ 4,5 trilhões. A humanidade está gerando perdas maiores do que a riqueza que cria. Maxton afirma que a humanidade experimentou rápido crescimento econômico, mas criou também um mundo instável. Segundo Maxton, em muitos países, pela primeira vez em séculos, nos defrontamos com a queda na expectativa de vida e com a perspectiva do declínio da produção de alimentos e da oferta de água, bem como a exaustão dos recursos naturais do planeta (MAXTON, Graeme. The End of progress – How modern economics has failed us (O Fim do progresso- Como a economia moderna tem falhado). John Wiley & Sons, 2011).
Vivemos, também, uma era de barbárie em que a desigualdade social chegou a níveis alarmantes e o desemprego tecnológico ameaça os trabalhadores em todo o mundo. Thomas Piketty demonstrou em sua obra Capital in the twenty-first century (Capital no século XXI) que houve crescimento contínuo da desigualdade de riqueza desde a década de 1970, contrária à tendência dos 60 anos anteriores e muito mais acentuada e socialmente relevante do que a desigualdade de renda. De 1970 a 2010, o 1% mais rico (classes dominantes) detinha metade de toda a riqueza mundial, enquanto o 50% mais pobres (classes populares) ficava com meros 5%. O número de bilionários, segundo Piketty, aumentou de 1.011 com uma riqueza total de 3,6 trilhões em 1970 para 1.826 com um valor agregado de 7,05 trilhões em 2010. Em 2010, esse grupo possuía praticamente o mesmo que a metade mais pobre da humanidade. Cinco anos depois, açambarca mais do que o triplo (PIKETTY, Thomas. Capital in the twenty-first century. Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2014). Além disso, Martin Ford afirma que há uma ameaça de aprofundamento do desemprego em massa em escala global haja vista que 47% dos atuais empregos estão sob alto risco de automação nos próximos anos e décadas e outros 19% sob risco médio (FORD, Martin. Rise of the robots. New York: Basic Books, 2015).
A barbárie que se registra hoje em todo o mundo é o produto da crise da modernidade e do eclipse da Razão, no bojo da crise terminal do capitalismo que se avizinha, quando morre o mito do Progresso. Ressalte-se que modernidade é o conjunto de transformações que se inicia a partir do século XVI e que estende até o século XVIII, envolvendo aspectos culturais (o Humanismo, o Renascimento Cultural e a Revolução Científica), políticos (o surgimento dos Estados Nacionais Absolutistas) e econômicos (o Capitalismo Comercial). A modernidade tem como características a crença na compreensão da totalidade, a concepção da história como emancipação, o homem como dominador da natureza e o pensamento segundo as categorias de unidade e totalidade. Com efeito, tanto para Descartes quando para Bacon, nada deveria opor o exercício da racionalidade à realização da felicidade humana, posto que no próprio sentido da organização racional do saber já estaria incluído o objetivo do bem-estar humano em todos os aspectos.
O projeto da modernidade baseado na Razão fracassou porque a história da modernidade mostrou a incompatibilidade entre as duas partes do projeto iluminista: a autonomia da Razão e a conquista da felicidade. Hoje, alguns afirmam que a Razão se torna desnecessária. A tentativa de destruição da Razão é bastante recente. Foi assim que surgiu o projeto da pós-modernidade em antítese ao projeto da modernidade, como característica da sociedade pós- industrial, marcado pela crise da razão, a perda de confiança no progresso técnico- científico, a descrença nas metanarrativas e de todo discurso totalizante. Tais transformações se observam a partir da década de 1950 e predominantemente a partir da década de 1990 com o advento do capitalismo neoliberal. O filósofo francês Jean-François Lyotard definiu o projeto pós-moderno como “a incredulidade em relação às metanarrativas”. Um exemplo de metanarrativa é a filosofia iluminista, que acreditava que a razão e seus produtos – o progresso científico e a tecnologia – levariam o homem à felicidade, emancipando a humanidade dos dogmas, mitos e superstições dos povos primitivos (LYOTARD. Jean-François. A condição pós-moderna. São Paulo: José Olympio, 2002).
No projeto pós-moderno, a verdade absoluta ruiu porque existem muitas verdades e não é possível impor um só discurso. O projeto pós-moderno se aproxima do pensamento de Friedrich Nietzsche que afirma que “a única verdade que existe é a de que não existe verdade”. Hoje vivemos em um mundo onde se impõe quase sem contestação, ideologicamente, o projeto pós-moderno e, economicamente, a religião do capitalismo de mercado. O grande valor que se impõe é o dinheiro. A máxima adotada em todos os quadrantes da Terra é: “cada um por si e Deus por ninguém”. Se a humanidade perder de vista o projeto de autonomia individual e coletiva, se abandonar sua capacidade crítica de resistência e deixar de lutar pela emancipação (intelectual, espiritual e afetiva) do ser humano, ficará à mercê da dominação exercida pelo capitalismo neoliberal que vem assumindo a fisionomia de um verdadeiro totalitarismo. Vivemos na atualidade o declínio do mito do Progresso e a emergência do totalitarismo moderno. Este é o quadro lamentável em que vive o mundo. Os intelectuais comprometidos com o progresso da humanidade precisam resgatar o projeto da modernidade nos seus fundamentos.
Trata-se de um imenso desafio para os intelectuais contemporâneos amantes do progresso estabelecer novos paradigmas e novos valores de comportamento racional a serem formulados para a sociedade humana na era atual visando derrotar a nefasta influência política e ideológica da Pós-Modernidade que, do ponto de vista político, sustenta ideologicamente o capitalismo neoliberal e a globalização contemporânea. Os pensadores contemporâneos precisam se mobilizar urgentemente na reinvenção do projeto iluminista como fizeram os pensadores do século XVIII que enfrentaram o despotismo das monarquias europeias visando a construção de um mundo novo que leve ao fim o calvário sofrido pela humanidade.
Da mesma forma que no século XVIII, quando vários intelectuais começaram a se mobilizar em torno da defesa de ideias que pautavam a renovação de práticas e instituições vigentes na época, os intelectuais contemporâneos precisam reinventar o Iluminismo para atacar sistematicamente tudo o que é considerado contrário à busca da felicidade, da justiça e da igualdade social. O Iluminismo do século XXI deve manter sua fé na ciência que precisa ser controlada socialmente para que ela não se converta numa força cega a serviço da guerra e da dominação econômica. O Iluminismo do século XXI deve assumir como sua bandeira mais valiosa a doutrina dos direitos humanos, sem ignorar que na maior parte dos países do mundo só profundas reformas econômicas, sociais e políticas podem assegurar sua fruição efetiva. Deve combater o poder ilegítimo. Deve lutar sem quartel pela liberdade e contra a opressão de qualquer espécie. Deve edificar uma nova ordem mundial que seja capaz de acabar com asa guerras e o terrorismo e proporcionar o bem estar social para todos os seres humanos. Deve elaborar um contrato social planetário que possibilite o desenvolvimento econômico e social e o uso racional dos recursos da natureza em benefício de toda a humanidade.
*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).