COPA DO MUNDO, ALIENAÇÃO DO POVO E CRISE NO BRASIL ATUAL

Fernando Alcoforado*

1970 foi um dos anos mais tensos da história do Brasil e da própria ditadura militar. Em 1969, as guerrilhas urbanas eclodiram pelo país e o sequestro de um embaixador norte-americano revelou ao mundo o que até então os militares negavam veementemente, a existência de tortura no País. O ano da Copa do Mundo começou com outro sequestro, a do cônsul do Japão. Iniciava-se uma sangrenta caça aos guerrilheiros que se opunham ao regime militar. A finalidade era caçar a todos que se opunham à ditadura militar, guerrilheiros ou não, e eliminá-los, numa condenação à revelia a uma pena de morte pré-determinada.

Em 1970, a seleção brasileira conquistou o tricampeonato de futebol mundial, no México. A seleção brasileira de futebol de 1970 foi considerada por muitos a maior de todos os tempos. Esta conquista foi considerada um feito heroico em um espetáculo transmitido pela primeira vez para o povo brasileiro através da televisão. Com forte cobertura na mídia de então, a vitória da seleção brasileira em 1970 foi usada como instrumento de propaganda da ditadura militar. Nunca o futebol seria tão bem explorado como propaganda de um governo no Brasil como foi em 1970. A taça Jules Rimet foi erguida pelo próprio presidente Emílio Garrastazu Médici.

Momentos antes do início do campeonato, João Saldanha, técnico que classificara a seleção para a Copa do Mundo, foi afastado por motivos políticos, sendo substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo. Durante a Copa do Mundo, o Brasil entrou em campo, eliminando todos os adversários, numa atuação antológica de um elenco fabuloso com a presença de Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gérson, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo entre outros. Enquanto o povo delirava com os gols, a economia atingia o auge do que se chamou “Milagre Econômico”, mostrando um país próspero e feliz. Nas celas os presos eram torturados, mortos e desaparecidos. Nas rádios o hino da Copa do Mundo ecoava para os noventa milhões de brasileiros: “Pra frente Brasil”.

Como nas Copas do Mundo de 1958, 1962, 1966, 1970, 1974, 1978, 1982, 1986, 1990,  1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014, os brasileiros compraram bandeiras e camisas verde e amarela para exibirem seu “amor à pátria” e paralisaram suas atividades durante os jogos para verem vinte e dois homens correrem atrás de uma bola. Quem não conhece o Brasil, acha que existe um patriotismo verdadeiro aqui, mas infelizmente não é o que ocorre. O “patriotismo” é apenas sazonal no Brasil, só ocorrendo em época de jogos da seleção de futebol e de Copa do Mundo. O mesmo se repete durante a Copa do Mundo da Rússia. O futebol se transformou em um circo para o povo brasileiro ao fazer com que muita gente alienada considere a Copa do Mundo como o que há de mais importante em suas vidas. Os imperadores romanos adotavam a política do pão e circo (panem et circenses para manter o povo fiel à ordem estabelecida pelo Império Romano e conquistar o seu apoio. Diferentemente dos imperadores romanos, os governantes brasileiros não ofereciam o pão, mas principalmente o circo representado pela Copa da Mundo como instrumento político para manter o povo brasileiro fiel à ordem estabelecida e conquistar o seu apoio.

Quanto ao verdadeiro patriotismo, antítese do falso patriotismo sazonal brasileiro, é importante observar que é um sentimento que significa amar a pátria como se ama um pai, uma mãe ou aos próprios filhos, amar o seu povo como se fossem irmãos, sentir e saber partilhar a dor e o sofrimento do seu povo, sofrer com a violação e ultraje da terra-mãe, assumir e demonstrar o seu sentimento patriótico perante qualquer circunstância, viver o seu dia-a-dia como um filho da sua terra, mesmo a quilômetros de distância, denunciar em alto e bom som, onde quer que esteja, aqueles que oprimem e fazem sofrer os irmãos da pátria, não compactuar com criminosos nacionais ou estrangeiros que utilizam a pátria-mãe para os seus negócios ilícitos e apenas para proveito próprio, não compactuar com aqueles que incrementam o ódio e o divisionismo entre os irmãos de pátria, seja ele com que motivação for, não compactuar com criminosos que usam meios violentos para chegarem a liderança do país e não compactuar com criminosos que fazem o uso de armas que deviam ser utilizadas para a defesa do povo e não para oprimir o próprio povo.

Segundo Charles de Gaulle, patriotismo é quando o amor por seu próprio povo vem primeiro e nacionalismo é quando o ódio pelos demais povos vem primeiro. Pelo exposto, ser patriota é muito mais do que ser nacionalista. Os termos Nacionalismo e Patriotismo não são sinônimos, embora sejam hoje muito frequentemente usados como tal.  São termos que têm histórias diferentes. Patriotismo tem uma história bastante mais antiga.  Patriotismo é uma palavra que tem origem no grego patris. Para os gregos antigos, a palavra estava associada à identificação com e à devoção a uma língua, tradições e história, ética, lei, e religião comuns. Patriotismo surgiu muito antes da noção de Estado-nação. Mesmo no século XVIII, na Europa Ocidental, patriotismo era entendido como a responsabilidade individual perante os outros cidadãos, uma devoção à humanidade e a uma ética de igualdade e caridade perante os mais desfavorecidos e os que faziam parte da comunidade, independentemente do seu perfil cultural ou étnico. Isto é, Patriotismo não estava ligado a uma etnia, a uma localização geográfica, ou a uma organização política autônoma.

É no século XIX que surge o conceito de Nacionalismo e de nação como entidade política, com direito a um Estado (o Estado-Nação). A Nação surge como algo a proteger; daí necessitar de um Estado próprio; daí vários nacionalismos terem conduzido a inúmeros conflitos internacionais ao longo da história, muitos deles devastadores como a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Neste sentido, o conceito de Nacionalismo está em profunda contradição com o conceito de Internacionalismo, ou cooperação e ligação fraterna entre comunidades de nações que  comungarem a mesma humanidade. Essa contradição não existe, entretanto, entre Patriotismo e Internacionalismo porque o indivíduo pode ser ao mesmo tempo patriota e internacionalista.

Pelo exposto, após a apresentação dos conceitos de patriotismo, pode-se concluir que são falsas as manifestações de patriotismo pelo povo brasileiro durante a Copa do Mundo. É importante observar que os conceitos de nacionalismo e internacionalismo foram apresentados neste texto para diferenciá-los do conceito do verdadeiro patriotismo. O lamentável é que o “circo” da Copa do Mundo no Brasil está armado com boa parte do povo alienado pensando que está agindo patrioticamente torcendo pelo sucesso da Seleção Brasileira enquanto os problemas econômicos do País se agravam a cada dia que se passa.

Enquanto isto, o Brasil, como organização econômica, social e política, está em desintegração. Os sinais de desintegração são evidentes em todas as partes do País. A incapacidade do governo brasileiro e das instituições políticas em geral de oferecer respostas eficazes para superação da crise política, econômica e social em que se debate a nação brasileira e debelar a corrupção desenfreada em todos os poderes da República na atualidade tende a contribuir para o aumento da violência política no Brasil. Sem a solução desses problemas, o País poderá ficar convulsionado como aconteceu na década de 1960 do século XX quando setores da extrema-direita arquitetaram o golpe de estado que derrubou o presidente João Goulart.

O caos já se instalou no Brasil. O sociólogo alemão Ralf Dahrendorf, que acompanhou os terríveis anos nazistas de Berlim, escreveu em 1985 um livro chamado A Lei e a Ordem (Editora Instituto Liberal, 1997), que a anarquia, definida como ausência generalizada de respeito às normas sociais, costuma anteceder aos regimes totalitários. No estado de anarquia, as normas reguladoras do comportamento das pessoas perdem sua validade. As violações de normas simplesmente não são mais punidas. Neste contexto, todas as sanções parecem ter desaparecido. O “contrato social”, entendido aqui como normas aceitas e mantidas através de sanções impostas pelas autoridades competentes, é rasgado, restando o vácuo em seu lugar. Tudo passa a ser visto como permitido, já que nada mais parece ser punido.

Não há como dissociar esta situação descrita por Dahrendorf do grave momento atual do Brasil onde a impunidade é crescente e os valores básicos da civilização estão completamente enfraquecidos. Políticos cometem crimes à luz do dia, nada acontece, e os próprios eleitores ainda votam neles novamente em consequência de sua alienação. Condenados de “colarinho branco”, por exemplo, vão à prisão, mas logo depois são libertados pela Corte Suprema. A crença de que as leis não funcionam mais é generalizada no Brasil. O Brasil já está vivenciando, infelizmente, a anarquia descrita por Ralf Dahrendorf.

*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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