CENÁRIOS DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NO BRASIL

Fernando Alcoforado*

A pesquisa Data Folha das eleições presidenciais no Brasil publicada no website <http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2018/06/1971537-sem-lula-bolsonaro-so-e-superado-por-brancos-e-nulos.shtml> informa que o ex-presidente Lula (PT) mantém o índice mais alto de intenção de voto para a disputa da Presidência da República entre os pré-candidatos com nomes colocados para a disputa. Com 30% no único cenário em que seu nome é testado, Lula fica à frente de Jair Bolsonaro, que tem 17%, e de Marina Silva, que tem 10%. Com Lula fora da corrida presidencial e Haddad como candidato do PT, Bolsonaro (19%) lidera, e Marina (15%) surge em patamar próximo. Com Lula fora da corrida presidencial e Haddad como candidato do PT, a disputa por região do Brasil mostra o pré-candidato Bolsonaro em vantagem no Centro-Oeste, na região Sul e na região Sudeste. No Nordeste e no Norte do Brasil, Marina Silva lidera.

A pesquisa Data Folha informa que entre os eleitores de Lula no cenário em que seu nome é testado, 17% preferem Marina e 13% optam por Ciro quando Lula é substituído por Haddad. Parte substancial (40%) das intenções de voto no ex-presidente opta pelo voto em branco ou nulo na sua ausência da eleição. Em outro cenário testado, sem candidaturas do PT, Bolsonaro tem 19%, e Marina aparece com 15%. Na intenção de voto espontânea, quando os nomes dos potenciais candidatos não são apresentados aos eleitores, 12% citam Bolsonaro como nome já escolhido para a eleição presidencial, no mesmo patamar dos que mencionam Lula (10%). A rejeição aos presidenciáveis também foi alvo de consulta na pesquisa Data Folha, e dois ex-presidentes lideram a lista: 39% declaram que não votariam de jeito nenhum em Fernando Collor, que é seguido por Lula rejeitado por 36%. Na sequência aparece Bolsonaro, em quem 32% não votariam, e depois Alckmin (27%), Marina (24%), Ciro (23%), Maia (20%), Meirelles (17%), Haddad (16%), Fidelix (16%), Alencar (13%), Wagner (12%), Dias (12%), Rebelo (11%), Manuela (11%), Boulos (11%), Rocha (11%), Rabello de Castro (11%), Goulart Filho (10%), Amoêdo (10%) e Afif (10%).

Nas simulações de segundo turno realizadas pelo Datafolha, o ex-presidente Lula se manteve à frente nas situações nas quais seu nome foi apresentado aos eleitores. No embate entre Lula e Bolsonaro, 49% preferem o ex-presidente, e 32%, o deputado federal. Sem Lula, Marina venceria Alckmin, Ciro e Bolsonaro, tendo este último como o adversário mais competitivo neste momento. Se o 2º turno fosse disputado entre Marina e Bolsonaro, a ex-senadora do Acre teria 42% das intenções de voto, ante 32% de Bolsonaro. O peso do apoio de Lula a um candidato na disputa pela Presidência ficou estável desde abril: 30% votariam com certeza em um nome apoiado pelo petista, e 17% talvez votaria. A fatia dos que não votariam é de 51%. 62% apontam que seguiriam sua indicação para outra candidatura à Presidência.

Considerando que Lula não será candidato, Bolsonaro e Marina Silva reúnem as melhores condições para chegar ao 2º turno das eleições presidenciais. Sem Lula nas eleições, o segundo turno colocará frente à frente Bolsonaro e Marina Silva como os mais prováveis contendores. Os eleitores de Lula, Ciro Gomes, Alvaro Dias, Manuela D’Ávila, João Goulart Filho, Guilherme Boulos e Aldo Rebelo, votariam provavelmente por motivos ideológicos em Marina Silva devido a seus vínculos antigos com o PT e às forças políticas de esquerda dando-lhe a vitória no 2º turno contra Bolsonaro. Esta provável transferência de votos para Marina Silva explicaria o resultado das simulações de segundo turno realizadas pelo Datafolha que aponta a vitória de Marina Silva sobre Bolsonaro. Os eleitores de Geraldo Alckmin, Fernando Collor, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia, Flávio Rocha, João Amoêdo, Guilherme Afif Domingos, Levy Fidelix e Paulo Rabello de Castro votariam provavelmente em Jair Bolsonaro por razões ideológicas e porque ele não se constituiria em ameaça aos interesses das classes dominantes ao contrário de Marina Silva devido a seus vínculos antigos com o PT e às forças políticas de esquerda.

Afinal, o que pensa Marina Silva, pré-candidata da Rede? A ex-ministra já se disse contra as privatizações da Petrobras, da Eletrobras, do Banco do Brasil e da Caixa. Defende a manutenção do Programa Bolsa Família. Diz que o déficit na Previdência é inegável argumentando que o diálogo tem que ser feito com toda a sociedade e não apenas com a elite econômica, mas ainda não apresentou um modelo que defenderia se for eleita. É crítica da reforma trabalhista proposta pelo governo Temer considerando inadmissível ter trabalhadores que ficam em processo de espera, sendo convocados a qualquer momento pelo empregador. Para ela, o problema de segurança pública não se resolve “distribuindo armas para as pessoas” e defende políticas públicas para a população mais vulnerável. É contra a PEC aprovada pelo governo Temer e diz que as medidas são um “golpe” nas políticas públicas. Para ela, gastos devem ser controlados através de lei orçamentária e não com mudança na Constituição. Quanto à política econômica, diz que é “demagogia” dizer que vai reduzir a carga de impostos, mas promete combater o impacto sobre os mais pobres e promover uma divisão mais descentralizada dos recursos em benefício dos estados (VEJA. Eleições 2018: o que pensa Marina Silva, pré-candidata da Rede, Disponível no website < https://veja.abril.com.br/politica/eleicoes-2018-o-que-pensa-marina-silva-pre-candidata-da-rede/>). Constata-se que o programa de governo de Marina Silva é bastante tímido para enfrentar e superar os gigantescos problemas do Brasil, além de não apontar que romperia com o modelo econômico neoliberal que infelicita o Brasil.

Afinal o que pensa Jair Bolsonaro, pré-candidata do PSL? Pretende realizar um programa de privatizações, mas diz que só divulgará as estatais envolvidas em agosto, quando for lançado seu programa de governo e, sobre a Petrobras, disse que o tema “entrou no seu radar”, mas que ainda não tem uma definição e a respeito dos bancos públicos, disse “estudar” a possibilidade. Antes crítico do Bolsa Família, agora defende a manutenção do programa “com auditoria”. Diz ser contra a proposta de reforma da Previdência apresentada pelo governo, por ela ser “grande demais”. Bolsonaro afirmou que estuda a questão da reforma trabalhista cogitando propor mudanças graduais nas aposentadorias, priorizando o combate à “fábrica de marajás”.  Votou a favor da proposta da reforma trabalhista na Câmara dos Deputados. Em sabatinas e entrevistas, ele tem repetido o que diz ouvir de empresários: que os trabalhadores brasileiros podem ter que escolher entre ter “menos empregos e mais direitos” ou o oposto. Para combater a criminalidade, pretende promover o endurecimento de leis penais, fortalecer o policiamento e promover a revisão do Estatuto do Desarmamento. Como deputado, votou a favor da PEC que congelou por 20 anos os gastos públicos. Quanto à política econômica, o “guru” do candidato em economia, Paulo Guedes é a favor da manutenção do tripé macroeconômico (com regime de meta fiscal e de inflação, com câmbio flutuante) e defende a necessidade de uma simplificação tributária rumo a um imposto único federal (VEJA. Eleições 2018: o que pensa Jair Bolsonaro, pré-candidato do PSL. Disponível no website < https://veja.abril.com.br/brasil/eleicoes-2018-o-que-pensa-jair-bolsonaro-pre-candidato-do-psl/>). Constata-se que o programa de Bolsonaro é nitidamente neoliberal. Isto significa dizer que ele manteria o “status quo”.

Lamentavelmente, nenhum dos dois candidatos mais competitivos para vencer as eleições presidenciais no Brasil não apresenta efetiva solução para promover o desenvolvimento do Brasil que enfrenta uma recessão profunda jamais vista na história do Brasil. Para promover o crescimento econômico visando elevar os níveis de emprego e renda que resulte no bem-estar de sua população, bem como criar o ambiente propício aos investimentos na atividade produtiva, é preciso que o futuro Presidente da República solucione urgentemente o problema das contas públicas cronicamente deficitárias e combata a estagnação econômica que ameaça o futuro do País.

Qual é o problema das contas públicas do Brasil? Crescimento explosivo dos gastos do governo alimentado pela expansão desmesurada da dívida pública que atinge hoje R$ 3,6 trilhões  que obriga o governo a destinar mais de 50% do orçamento da União ao pagamento dos juros e amortização da dívida pública. Para reduzir o tamanho do gasto público é preciso reduzir o pagamento dos juros (R$ 695 bilhões) renegociando com os credores o alongamento do pagamento da dívida pública a fim de que o governo federal passe a dispor dos recursos necessários a seus investimentos. O verdadeiro ajuste fiscal que deveria ser adotado para solucionar o problema das contas públicas no momento contemplaria, de um lado, o aumento da arrecadação pública com a: 1) taxação das grandes fortunas com patrimônio superior a 1 bilhão de reais  que poderia render aproximadamente 100 bilhões de reais por ano; e, 2) aumento do imposto sobre os bancos cujos lucros têm sido estratosféricos e, de outro, diminuir os gastos do governo com a: 1) redução drástica do número de ministérios e órgãos públicos e dos dispêndios em todos os níveis do governo; e,  2) redução drástica da taxa de juros básica da economia (Selic) para diminuir o tamanho da dívida pública e os encargos com o pagamento dos juros e a amortização da dívida pública.

Para combater a recessão, é necessário que haja o aumento da atividade produtiva em geral que só se realizará com a indispensável queda das taxas de juros praticadas pelo sistema financeiro, da carga tributária e do custo da logística de energia e transporte do País. Para que isto se realize, é indispensável que: 1) o Banco Central atue sobre o sistema financeiro para reduzir drasticamente as taxas de juros por ele praticadas para elevar o consumo das famílias e o investimento privado; 2) o governo federal reduza a carga tributária diminuindo seus encargos com o pagamento dos juros da dívida pública renegociando com os credores o alongamento do seu pagamento; e, 3) o governo federal incentive o setor privado para investir na infraestrutura de energia, transporte e comunicações para reduzir o custo de sua logística.

Em uma situação excepcional como a atual há uma necessidade imperiosa de planejar o desenvolvimento nacional. O futuro governo brasileiro deveria elaborar um plano econômico que contribua para a retomada do desenvolvimento do Brasil que acene para a população e para os setores produtivos uma perspectiva de retomada do crescimento econômico. É a recessão econômica atual e a inexistência de um plano de desenvolvimento os fatores principais que levam à imobilidade do setor privado na realização de investimentos no Brasil levando-o a uma verdadeira paralisia. Adicionalmente, o governo brasileiro deveria adotar medidas para reduzir a vulnerabilidade externa do Brasil. O controle de capitais é a peça mais importante para uma estratégia de crescimento e desenvolvimento econômico sustentado, principalmente em economias marcadas pela instabilidade macroeconômica como a do Brasil. O controle de capitais deve ser realizado com a tributação sobre a entrada de capital estrangeiro. O controle de capitais permite selecionar os fluxos de capital confinando os capitais especulativos a volumes administráveis e isolando a economia, em algum grau, dos choques financeiros externos.

Infelizmente para o Brasil, os dois candidatos mais competitivos nas próximas eleições não propõem nenhuma das medidas acima descritas necessárias à superação dos problemas econômicos do País. Marina Silva quanto Jair Bolsonaro não seriam capazes de promover as mudanças estruturais necessárias ao desenvolvimento do Brasil. O futuro do Brasil está ameaçado seja com a vitória de Marina Silva e Jair Bolsonaro que não formulam nada nesta direção. Urge eleger um candidato que seja capaz de romper com o neoliberalismo e implementar um modelo nacional desenvolvimentista que privilegie os interesses nacionais e não os do capital internacional, sobretudo os do capital financeiro. Os candidatos Ciro Gomes, Alvaro Dias, Manuela D’Ávila, João Goulart Filho, Guilherme Boulos e Aldo Rebelo são aqueles que poderiam realizar as mudanças necessárias ao Brasil no momento atual. Pela pesquisa Data Folha, Ciro Gomes é o que reuniria mais condições de vencer as eleições depois de Marina Silva e Bolsonaro.

*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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