Fernando Alcoforado *
De modo geral, os princípios que orientam as organizações públicas e privadas no processo de planejamento e gestão operacional são os seguintes: 1) procuram chegar a algum estado estável de equilíbrio adaptando a organização às mudanças ocorridas no ambiente externo; e, 2) acreditam que as decisões tomadas e as ações subsequentes conduzirão aos resultados desejados baseadas no princípio da relação entre causa e efeito. Os modelos de gestão convencionais consideram a administração como uma atividade de “feedback” negativo, isto é, estabelece uma estratégia e conduz a organização na direção desejada com a correção dos desvios entre o plano traçado e os resultados alcançados.
Numa época em que tudo muda rapidamente, pode-se afirmar que os princípios que regem esses modelos de gestão estão ultrapassados porque é impossível a conquista de um estado estável ou de equilíbrio nas organizações em um ambiente externo como o atual caracterizado pela instabilidade do sistema capitalista que faz com que as decisões tomadas por seus dirigentes em um determinado momento pode não levar ao resultado desejado porquanto será afetado inexoravelmente por mutações que venham a ocorrer interna e externamente à organização ao longo do tempo.
O grande desafio enfrentado pelas organizações na era contemporânea é representado pela necessidade de gerir seus sistemas em um ambiente de elevada complexidade e de mudanças muitas vezes caóticas. Para ser eficaz, o processo de planejamento e gestão precisa levar em conta, necessariamente, a instabilidade, a incerteza, com suas turbulências e seus riscos. No ambiente econômico contemporâneo, são bons exemplos de turbulência e instabilidade dos mercados a crise econômica mundial ocorrida em 2008 nos Estados Unidos que afetou globalmente todos os países.
Uma das grandes falhas do processo de planejamento de inúmeras organizações é o de minimizar as incertezas quando se sabe que a mudança é a única regra estável no atual momento e que o passado serve cada vez menos como base para projetar o futuro. No esforço de superar essas crises, as organizações adotam o “feedback” negativo tentando manter funcionando como antes o sistema operacional, quando o correto seria adotar o “feedback” positivo que implicaria na adoção de mudanças estruturais no sistema produtivo para fazer frente à desordem e evitar seu colapso.
As visões clássicas a respeito da desordem foram todas depreciativas, pois a ciência esteve sempre orientada para a descoberta de certezas. Todo conhecimento reduzia-se à ordem, e toda aleatoriedade seria apenas aparência, fruto de nossa ignorância, a ser necessariamente superada em algum momento futuro. O desenvolvimento da Teoria do Caos a partir da década de 1970 contribuiu para a formulação de um modelo muito diferente do que prevalecia até então que era basicamente determinista e linear. No modelo baseado na Teoria do Caos, o mundo é mais complexo e fundamentalmente não determinista e não linear.
O que a Teoria do Caos está fazendo, em essência, é demonstrar que tudo no Universo é composto tanto por ordem como por desordem, cabendo à ciência aceitar que a incerteza não tem como ser dirimida. No modelo baseado na Teoria do Caos, as organizações passam a ser vistas como sistemas sujeitos a oscilações que poderiam ser amortecidas, ou seja, que os sistemas seriam capazes de avançar em direção a um novo equilíbrio realizando profundas mudanças estruturais.
O modelo considerado é agora o de um sistema autorregulado, onde os desvios são identificados por sinalizações de feedback positivo e então compensados, corrigidos, atenuados ou neutralizados, sempre com a realização de profundas mudanças. Chegou-se a tal modelo acreditando-se que oscilações que se amplificassem com o tempo conduziriam o sistema ao colapso se o esforço fosse voltado para manter o sistema operando como antes, e que apenas os sistemas capazes de produzir mudanças profundas é que se manteriam estáveis e sobreviveriam ao longo do tempo.
Para enfrentar ambientes classificados como “instáveis” ou “turbulentos”, é preciso fazer com que as organizações se auto-organizem dinamicamente e, consequentemente, evitem sua decadência e morte. A auto-organização que está sendo adotada nas empresas modernas na era contemporânea contempla a adoção de uma forma inteligente e consistente de tomar decisões que possibilita aos decisores disporem das informações certas no tempo certo sobre a situação interna atual e os cenários futuros de evolução do ambiente externo à organização (economia local, nacional e mundial, concorrentes, tecnologia, mercado consumidor, etc.) que só podem ser viabilizadas desde que haja coleta, gerenciamento e distribuição de dados para transformá-los em insights (intuições). A auto-organização pode ser alcançada com a adoção do Business Intelligence (Inteligência Empresarial) no planejamento e gestão operacional.
Inteligência Empresarial ou Business Intelligence é um termo do Gartner Group que surgiu na década de 1990 que descreve as habilidades das corporações para ter acesso a dados e explorar informações e recursos financeiros analisando-as e desenvolvendo percepções e entendimentos a seu respeito, o que lhes permite incrementar e se tornar mais pautada em informações a tomada de decisão. A implantação de um Business Intelligence (BI) em uma empresa tem como intuito principal fornecer aos seus dirigentes informações gerenciais e operacionais, de forma rápida e consistente. Business Intelligence tem a ver, basicamente, com a forma com que os empreendedores lidam com dados.
Em um ambiente de elevada complexidade e de mudanças muitas vezes caóticas como o atual, o Business Intelligence permite às organizações possuírem um conjunto de informações confiáveis e consistentes que busquem apoiar o processo decisório na organização. O uso do Business Intelligence demonstra ser um dos sustentáculos da competitividade empresarial do novo milênio, trazendo com ele, mais dinamismo, flexibilidade e redução de custos, visando sempre a melhoria na qualidade do produto ou do serviço oferecido.
É importante ressaltar que um projeto de Business Intelligence não termina após sua implantação. BI é um conjunto de processos que tem por objetivo entregar a informação certa, para a pessoa certa, na hora certa que exige grande alinhamento entre três pilares de sustentação:
- Coleta de dados: tudo o que acontece no negócio é analisado para determinar aspectos-chave, como produtividade, aproveitamento de oportunidades, gargalos, reputação no mercado, etc.;
- Organização e análise: todos os dados captados em cada ação da empresa são organizados em um banco de dados e apresentados de forma visual, para facilitar a análise dos tomadores de decisão; e,
- Ação e monitoramento: os responsáveis tomam decisões com base nas informações analisadas, e monitoram seus resultados para ver se estão sendo bem-sucedidos.
Se há algo que uma empresa não deve ter é o problema em gerar dados e informações sobre seus próprios processos. O problema mesmo está em gerenciar todas as informações e organizá-las para que elas sejam fonte de esclarecimento e não de confusão ou frustração. Por meio do sistema de BI, todos os dados relevantes aparecem em dashboards (painéis de controle) que facilitam a tomada de decisões em todos os níveis organizacionais. As empresas que usam o Business Intelligence conseguem otimizar processos de maneira muito mais rápida e direta em comparação com as que não o utilizam. Os processos de uma empresa fazem grande diferença nos resultados, seja em termos de qualidade dos produtos, vendas e retenção de clientes, satisfação dos colaboradores, etc.
Como não existe empresa perfeita, é fundamental procurar onde estão os gargalos para impedir que se tornem problemas graves, que ameacem o futuro da organização. Por meio do BI, é possível encontrar todos esses pontos de ruptura no negócio da empresa e tomar medidas práticas para resolvê-los o quanto antes. O mesmo princípio citado com respeito ao reconhecimento de falhas se aplica à identificação de oportunidades. A inovação é o motor das empresas que resistem à prova do tempo, e isso só acontece quando os líderes são capazes de identificar oportunidades e persegui-las antes que outros o façam. Com os insights poderosos que o Business Intelligence oferece, fica mais fácil encontrar as oportunidades do mercado para se concentrar neles.
O forte alicerce na análise de dados como fonte de informações estratégicas permeia tanto o Business Intelligence quanto o Big Data. Em tecnologia da informação, o termo Big Data diz respeito a um grande conjunto de dados armazenados. Diz-se que o Big Data se baseia em 5 Vs: velocidade, volume, variedade, veracidade e valor. O Business Intelligence busca levar a informação certa, para as pessoas certas, no momento certo visando a tomada de decisões. Isso exige fazer as perguntas certas e analisar os dados com conhecimento de causa para entender a dinâmica do negócio. O Big Data, por outro lado, analisa uma enorme quantidade de informações para mostrar padrões e correlações, em muitos casos totalmente desconhecidos. Enquanto o Business Intelligence analisa os dados atuais e mostra as próximas ações a tomar, o Big Data abre um leque maior de possibilidades que podem se transformar em caminhos para a inovação.
O ideal é juntar as forças do Business Intelligence com as do Big Data para uma compreensão mais abrangente dos dados gerados, que vai resultar em decisões ainda melhores e mais inovadoras. Profissionais de vários setores de uma empresa devem ser encorajados a usar os dados como base de suas decisões. Mas, acima de tudo, é crucial lembrá-los de que isso não se resume a enxergar informações óbvias nos dashboards (painéis de controle). É preciso buscar a fundo as melhores soluções observando também os dados que não estão na superfície. Com todos os integrantes da empresa envolvidos, usando o Business Intelligence como forma de garimpo, e não apenas de consulta, a empresa terá uma estratégia de Business Intelligence que funciona.
O Business Intelligence deveria servir de modelo para a implantação do que pode ser denominado Inteligência nas Organizações Governamentais (Intelligence in Government Organizations) que ao lado do Big Data poderiam ser utilizados também no planejamento e gestão de organizações públicas e do próprio governo como um todo para fazer frente ao ambiente de elevada complexidade e de mudanças muitas vezes caóticas como o atual. Da mesma forma que as empresas privadas modernas, as organizações públicas não devem tomar decisões importantes baseadas apenas na intuição de seus líderes tendo como guia suas experiências passadas. Isto significa dizer que decisões de organizações governamentais inteligentes e consistentes poderão acontecer se os decisores dispuserem das informações certas no tempo certo que só podem ser viabilizadas desde que haja coleta, gerenciamento e distribuição de dados para transformá-los em insights (intuições). Para tanto, é preciso que os governos implantem sistemas de inteligência que, ao nível das organizações públicas, pode-se denominá-lo Inteligência nas Organizações Governamentais (Intelligence in Government Organizations) similar ao implantado nas empresas privadas, a Inteligência Empresarial (Business Intelligence), bem como o Big Data.
Na prática, o que se pretende é realizar a gestão do conhecimento como processo gerencial, para proporcionar à empresa privada e pública a competência sistêmica de adquirir, transformar, armazenar e disseminar conhecimento de maneira útil, personalizada, responsável e lucrativa para seus colaboradores e agentes de relacionamento. A gestão do conhecimento significa organizar e sistematizar, em todos os pontos de contato (nós de processos, elos de departamentos, interações com stakeholders, etc), a capacidade da organização de captar, gerar, criar, analisar, traduzir, transformar, modelar, armazenar, disseminar, implantar e gerenciar a informação, tanto interna como externamente. Cabe observar que stakeholder é uma pessoa ou um grupo, que legitima as ações de uma organização e que tem um papel direto ou indireto na gestão e resultados dessa mesma organização. Exemplo de stakeholder de uma empresa pode ser os seus funcionários, gestores, gerentes, proprietários, fornecedores, concorrentes, ONGs, clientes, o Estado, credores, sindicatos e diversas outras pessoas ou empresas que estejam relacionadas com uma determinada ação ou projeto. A informação interna e externa deve ser transformada efetivamente em conhecimento e distribuída tornando-se acessível aos interessados. A informação aplicada, o conhecimento, passa a ser um ativo da empresa, um ativo intangível de valor único, exponencialmente remunerado e de difícil imitação.
Gerenciar conhecimento é só uma parte deste processo. Ser capaz de identificar, monitorar, entender e absorver informações, dados, sensações, tendências e transformá-los em conhecimento é habilidade igualmente importante que se obtém com o uso do Business Intelligence e do Big Data. As empresas privadas e públicas são como pequenas sociedades que precisam garantir sua sobrevivência no meio em que vivem (e, às vezes, do próprio meio em que vivem) e, para isso, precisam conhecer seus pontos fortes e fracos e serem capazes de perceber as ameaças e oportunidades existentes, tanto intrínsecas de seu meio, como causadas pelos demais competidores, colaboradores e participantes. A Inteligência Competitiva com o uso do Business Intelligence e do Big Data, como processo gerencial, tem sido altamente requisitada atualmente pela alta gestão das companhias privadas como ferramenta capaz de antenar a empresa ao novo cenário competitivo. Podemos, portanto, dizer que Inteligência Competitiva é a antena da organização que atua como sensor capaz de atrair informações que serão (ou não) tratadas como conhecimento. Este é, portanto o caminho para administrar organizações privadas e públicas no capitalismo caótico contemporâneo.
BIBLIOGRAFIA
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PRIGOGINE, Ilya, STENGERS, Isabelle. O Fim das Certezas – Tempo, Caos e as Leis da Natureza .São Paulo: UNESP, 1996.
SHERMAN, Rick. Business Intelligence Guidebook. New York: Elsevier, 2015.
WIKIPEDIA. Inteligência empresarial. Disponível no website <https://pt.wikipedia.org/wiki/Inteligência_empresarial>.
*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).