Fernando Alcoforado*
Antes de conceituar as Cadeias Globais de Valor é importante definir o que é o “Supply Chain Management” (SCM), isto é, o Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos adotado por muitas empresas no mundo em suas atividades produtivas. Na essência, para uma cadeia de suprimentos alcançar seu nível máximo de eficácia e eficiência, o fluxo de materiais, o fluxo de dinheiro e o fluxo de informação por toda a cadeia produtiva devem ser gerenciados de maneira integrada, orientada para os objetivos de atendimento desejado e menor custo. O objetivo do SCM é, em síntese, sincronizar as necessidades do cliente com o fluxo de materiais dos fornecedores, com ênfase na importância da otimização do fluxo de produtos e informações relacionadas.
O gerenciamento do fluxo de materiais representa a origem de grande parte da teoria do SCM. Pode ser dito que todo o campo da logística está fundamentalmente envolvido com a eficiente e efetiva administração do fluxo de materiais através das cadeias de suprimentos. Busca-se assegurar que os materiais certos estejam na parte certa da cadeia de suprimentos no momento certo. Observando-se o fluxo de materiais (produtos e serviços) da fonte de materiais para o cliente final, nota-se que também existe um fluxo de materiais inverso, principalmente associado à devolução de produtos dos clientes para a empresa. A crescente importância da logística reversa nos últimos anos tem levado em conta, também, o gerenciamento desses fluxos.
O gerenciamento do fluxo de dinheiro faz parte também do SCM. O dinheiro flui do cliente final de volta pela cadeia de suprimentos. O momento desse fluxo é crítico para assegurar que as empresas da cadeia de suprimentos mantenham a habilidade de atender seus compromissos de gastos operacionais. O ciclo do capital de giro é um modelo bem conhecido no campo da administração financeira e oferece uma representação útil dos fluxos financeiros numa cadeia de suprimentos. Um indicador de desempenho usado é o tempo do ciclo “cash-to-cash”. Isso é definido somando-se o número de dias de estoque de matérias primas e insumos em valor mantido ao número de dias de contas a receber menos o número de dias de contas a pagar. O resultado é um indicador do número de dias do capital de giro que está “imobilizado” na cadeia de suprimentos.
O gerenciamento do fluxo de informações faz parte, também, do SCM. O gerenciamento do fluxo de informações na cadeia de suprimento é bidirecional. Pode-se dizer que o gerenciamento do fluxo de informações é a mais crítica das atividades de uma empresa. Isto porque o fluxo ou a movimentação de materiais e dinheiro geralmente é disparado por um movimento de informação associado. O efetivo gerenciamento do fluxo de materiais e dinheiro é atribuído ao efetivo gerenciamento do fluxo de informações relacionado. Portanto, não é surpresa que os últimos anos tenham sido de alto interesse das grandes empresas em gerir a área de informações. O mau gerenciamento da informação na cadeia de suprimentos leva à necessidade de altos níveis de estoques de materiais e insumos. A boa informação efetivamente contribui para evitar altos níveis de estoques de materiais e insumos.
A gestão da cadeia de suprimentos que, no passado, estava restrito a uma empresa em sua relação com fornecedores e clientes se tornou mais complexa evoluindo para cadeias de suprimentos com a participação de várias empresas refletindo a mudança de orientações gerenciais de internas e funcionais para externas e de processos nos últimos anos. Outras tecnologias, em particular o intercâmbio eletrônico de dados (EDI- Eletronic Data Interchange) e a internet, permitiram que parceiros da cadeia de suprimentos usassem dados comuns. Isso agiliza a cadeia de suprimentos, pois as empresas podem operar baseadas na demanda real em vez de ficarem dependentes de pedidos que são transmitidos de um passo para outro numa cadeia estendida.
A Cadeia Global de Valor (CGV) representa uma evolução do “Supply Chain Management” (SCM), isto é, do Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos, que passou a ser adotado na internacionalização da produção. A Cadeia Global de Valor (CGV) significa, também, a expressão operacional da globalização produtiva. Para entender este conceito, basta pensar no processo de produção do i-Phone. Ele tem o design e a marca originários dos Estados Unidos, mas seus componentes são produzidos em várias indústrias espalhadas em países como Alemanha, Japão, Coreia do Sul, China, etc. Basicamente é um produto que é feito separadamente em várias partes do mundo. É um produto made in the world.
- A Cadeia Global de Valor
O padrão de comércio internacional transformou-se notavelmente nos últimos anos. As empresas hoje distribuem suas operações pelo mundo – desde o projeto dos produtos até a fabricação das peças, sua montagem e comercialização. É a chamada Cadeia Global de Valor (CGV), que começou a ser notada na década de 1960, mas que só ganhou corpo nos últimos 25 anos. A aceleração e abrangência desse modelo de produção é atualmente tema central em qualquer debate sobre comércio global. O melhor medidor da Cadeia Global de Valor é o número de produtos intermediários que participam do comércio internacional. Hoje ele está em torno de 40%. Era 20% vinte anos atrás. E a previsão é que alcance 60% nos próximos anos. Será cada vez mais comum um país utilizar os insumos de outro para transformá-lo e reexportá-lo como produto final. No futuro, dificilmente alguém encontrará um produto que foi feito 100% em um único país.
É preciso observar que as CGVs ainda não são inteiramente “globais”. A natureza da operação é ainda regional e está concentrada geograficamente em três núcleos: América do Norte, Europa e Leste Asiático. As primeiras duas regiões são principalmente centros consumidores, e a terceira constitui uma fonte de suprimentos. A região asiática tem experimentado transformações, uma vez que a China segue movimentando sua economia para um crescimento orientado para o mercado interno. Os custos de transporte, comunicação e qualidade da infraestrutura têm contribuído para criar esse formato. O padrão de comércio internacional transformou-se notavelmente nos últimos 25 anos. As empresas hoje distribuem suas operações pelo mundo – desde o projeto dos produtos até a fabricação das peças, sua montagem e comercialização. Isso tem contribuído para a formação de cadeias internacionais de produção, que têm alterado o processo produtivo e os modelos comerciais no mundo. Com efeito, o surgimento das CGVs desencadeou um forte aumento do fluxo comercial de bens intermediários, que atualmente representam mais da metade dos bens importados pelas economias que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e quase três quartos das importações dos países como, por exemplo, o Brasil e a China.
A análise das práticas mais modernas de gerenciamento das CGVs demonstra que elas estão cada vez mais caminhando para a manutenção de baixos níveis de estoques, em um esforço para cortar custos, como parte das chamadas “estratégias de produção enxuta”. Constata-se, também, que quanto maior a distância entre os países participantes, menores são as chances de que surja uma cadeia produtiva global. Outra conclusão que se extrai desta análise é a de que um país localizado distante das regiões onde se situa o núcleo das operações das CGVs (América do Norte, Europa e Leste Asiático) só terá condições de participar de uma cadeia produtiva internacional se compensar os elevados custos de transporte na forma de economias nos custos de produção. Ressalte-se que os custos de transporte dependem do volume, nível de “conteinerização” da carga, grau de concorrência entre as empresas de transporte e qualidade da infraestrutura relacionada ao transporte, entre outros aspectos. Diferenças na eficiência dos portos, por exemplo, tornam as taxas de frete das exportações da América Latina e Caribe para os Estados Unidos cerca de 30% mais altas do que aquelas praticadas pela Europa. Cabe ressaltar que parte significativa da América Latina e da África continua fora da estrutura das CGVs.
- Vantagens e desvantagens para o Brasil participar das Cadeias Globais de Valor
Uma questão central que se coloca para os países do mundo é saber quais são as vantagens e desvantagens, riscos e oportunidades de participar de CGVs. A principal vantagem de participar de CGVs consiste em inserir o país no comércio internacional e incrementar o PIB (Produto Interno Bruto) do país. No entanto, ocorre a desvantagem de assumir os riscos comerciais das operações das CGVs que podem na ocorrência de crises afetar a economia interna do país, além de se submeterem à liderança das CGVs exercida por empresas multinacionais. Há o risco de os membros da OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico) administrarem o comércio internacional com as CGVs para fazer do mundo um lugar “seguro” para a operação das empresas multinacionais e que os países capitalistas centrais utilizem as CGVs para garantir suas vantagens no mercado mundial. As desvantagens de um país periférico do sistema capitalista mundial como o Brasil participar de grandes CGVs são, portanto, maiores do que as vantagens de sua participação.
A estratégia mais adequada para um país como o Brasil seria a de desenvolver suas próprias CGVs regionais. Esse poderia ser o caso, por exemplo, entre os países da América Latina e Caribe onde já existem algumas cadeias de valor regionais. Esta estratégia se justifica, também, pelo fato de as CGVs serem, na maioria dos casos, regionais que ocorre principalmente em razão dos custos de transporte, que aumentam com a distância, e dos acordos comerciais, os quais são firmados geralmente entre países vizinhos. Alguns países da América Latina e da África permaneceram na periferia das CGVs porque estão distantes dos principais grupos de CGV e não necessariamente possuem acordos comerciais com as regiões “hub” (pontos centrais) das CGVs. O governo brasileiro deveria promover a participação nas CGVs regionais na América Latina e Caribe por meio de políticas industrial e de desenvolvimento científico e tecnológico, investindo em infraestrutura e concedendo incentivos para as empresas do país. Políticas de educação e de capacitação profissional podem ajudar a criar vantagens comparativas com uma base “doméstica”, sobretudo no setor de serviços – atividade em que o capital humano e as habilidades são essenciais para a competitividade. As políticas governamentais podem ser especialmente úteis e necessárias para a superação de dificuldades como o acesso ao financiamento e às informações sobre potenciais sócios, que afetam a participação das empresas nas cadeias globais de valor.
A China é um bom exemplo de um país que atua em praticamente todos os setores da economia neste modelo de cadeia de valor e está conseguindo se posicionar bem nesse processo. Antes, a China era vista como uma nação cujo atrativo principal era a mão de obra barata. Com o crescimento econômico da China, a mão de obra encareceu. A China quer manter o fluxo de investimento em outros setores de sua economia que possam trazer mais renda e mais crescimento econômico para o país. Já o México, que faz parte da NAFTA e tem integração forte com os Estados Unidos, se encontra em um nível básico na CGV porque as empresas mexicanas funcionam como “maquiladoras” no processo produtivo. Os Estados Unidos enviam um produto praticamente pronto para o México que, por sua vez, agrega muito pouco valor a esse produto antes de enviá-lo de volta.
O Brasil, por exemplo, tem uma baixa integração às cadeias globais de valor. O Brasil é muito forte em produção de commodites agrícolas e minerais, que não passam de insumos para outros países, que coloca o País em um nível básico das CGVs. Apesar de haver um processo de desindustrialização do País, o Brasil tem uma base industrial robusta e diversificada que possibilitaria fazer parte de uma cadeia global de valor ou mesmo controlar uma. O setor aeronáutico, por exemplo, tem na Embraer uma empresa altamente competitiva. Ela se insere em uma área que traz inovação, qualificação, tecnologia, mão de obra altamente qualificada, integração com áreas de pesquisa, fornecedores locais e internacionais, utiliza insumos importados e consegue fazer a integração de todo esse processo. O lamentável é que a Embraer está em processo de absorção pela Boeing o que torna inviável esta alternativa. Como este exemplo, existem outras empresas internacionalizadas no Brasil e que são líderes mundiais em seus setores, como a Marcopolo, que produz ônibus, a Weg, que fabrica motores elétricos, a Ambev, no setor de bebidas. A questão é como fazer com que empresas de sucesso como essas atuem como base para a constituição de CGVs. Um fato é evidente: a inserção de um país em uma CGV deve estar inserida em uma estratégia de desenvolvimento e na elaboração de uma política industrial integrada com políticas públicas que o Brasil carece por adotar o modelo econômico neoliberal.
*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).