A ESCALADA DO FASCISMO NO BRASIL

Fernando Alcoforado*

Em sua escalada, o fascismo no Brasil deve passar por quatro estágios. No primeiro estágio já cumprido, os fascistas se reuniram a partir da grande mobilização social de junho de 2013 para lutar pela construção de uma nova ordem política, econômica e social em substituição à falida ordem política, econômica e social atual. Os adeptos do fascismo consideram que a causa dos males atuais do Brasil está relacionada com a corrupção e o uso do Estado por partidos de tendência comunista.  Os fascistas buscam a purificação da sociedade brasileira das influências tóxicas de partidos e lideranças políticas, sobretudo aquelas ligadas ao PT e seus aliados, os quais seriam culpados pela situação lamentável em que vive a nação brasileira.   Da mesma forma que o fascismo antigo na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini, a razão é rejeitada em favor da emoção passional. Em um segundo estágio ainda em andamento, os movimentos fascistas estão criando raízes. O sucesso do fascismo resulta da fraqueza do estado liberal que, incapaz de solucionar os problemas do País, condena a nação à desordem, declínio econômico e moral e à falta de consenso político como ocorre atualmente no Brasil.

O avanço do fascismo no Brasil resulta do fato de a organização econômica, social e política se encontrar em completa desintegração. A incapacidade do governo brasileiro e das instituições políticas em geral de oferecer respostas eficazes para superação da crise econômica recessiva em que se debate a nação brasileira e debelar a corrupção desenfreada em todos os poderes da República na atualidade está contribuindo para o avanço do fascismo como solução para os problemas do Brasil. O sociólogo alemão Ralf Dahrendorf, que acompanhou os terríveis anos nazistas de Berlim, escreveu em 1985 um livro chamado A Lei e a Ordem (Editora Instituto Liberal, 1997), quando afirmou que a anarquia, definida como ausência generalizada de respeito às normas sociais, costuma anteceder os regimes totalitários. Não há como dissociar esta situação descrita por Dahrendorf do grave momento atual do Brasil onde a impunidade é crescente e os valores básicos da civilização estão completamente enfraquecidos.

No terceiro estágio de escalada do fascismo no Brasil, é realizada aliança entre a elite conservadora e os fascistas quando começa a transição para um governo abertamente fascista. No Brasil, esta aliança já está se consumando com o apoio da elite conservadora ao candidato Bolsonaro à Presidência da República que tem uma proposta de governo tipicamente fascista.  O seu discurso é baseado no culto explícito da ordem, na violência de Estado, em práticas autoritárias de governo, no desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados e no anticomunismo. O perigo Bolsonaro está na opressão, no machismo, na homofobia, no racismo, no ódio aos pobres. A História nos diz que uma vez que essa aliança entre a elite conservadora e os fascistas é formada e tem sucesso em busca do poder, não há mais como pará-la. A aliança entre a elite conservadora e os fascistas pode destruir os últimos vestígios de um governo democrático no Brasil.

Geraldo Alckmin é o candidato preferido da elite conservadora para se tornar presidente da República nas eleições de outubro porque ele promete manter o modelo econômico neoliberal, privatizar ativos do Estado, cortar gastos e equilibrar o orçamento do governo. Sua equipe econômica é altamente respeitada e ele tem apoio político suficiente para aprovar reformas no Congresso. No entanto, ele está em quarto ou quinto lugar nas pesquisas e é improvável que passe do primeiro turno das eleições, em 7 de outubro. Sobra para os banqueiros Jair Bolsonaro como a opção mais viável contra os partidos de esquerda. Os presidentes e executivos dos principais bancos do Brasil dizem estar confortáveis com a escolha do principal conselheiro de Bolsonaro, Paulo Guedes, um defensor do Estado pequeno, da livre iniciativa e da reforma da Previdência Social.

Desde que trouxe Guedes para sua campanha, Bolsonaro tem mostrado entusiasmo com a ideia de vender todas as propriedades do Estado, defender a independência do Banco Central e buscar a aprovação das reformas apoiadas pelo setor bancário. Bolsonaro ganhou grande apoio no Brasil dizendo que na Presidência da República afrouxaria as restrições às armas de fogo e daria mais poder à polícia. As autoridades deveriam ter armas mais letais, de acordo com Bolsonaro, que defende que aqueles que matam criminosos devem receber medalhas e não irem a julgamento. O grande apelo que o Bolsonaro tem junto ao público em geral está relacionado à raiva contra os políticos tradicionais e contra a corrupção. As pesquisas mostram que ele é apoiado principalmente por homens da classe média e alta.

No estágio quatro de escalada do fascismo no Brasil, a elite conservadora e os fascistas assumiriam o controle completo do país com a vitória de Bolsonaro nas eleições de outubro. Da mesma forma que Hitler e Mussolini, Bolsonaro poderá ascender ao poder no Brasil pelo voto popular com o apoio da elite conservadora e de amplos segmentos da população.  Ao assumir o poder, Hitler e Mussolini se mantiveram nos limites da legalidade, mas permitiram ilegalidades fora dela. Ambos foram capazes de obter o apoio estratégico da elite conservadora e de amplos segmentos da população temerosos das forças de esquerda. A elite conservadora pensava que Hitler e Mussolini seriam capazes de manter sob seu controle os mais exaltados extremistas de direita ao seu redor.  As velhas oligarquias alemãs e italianas pensaram que seria possível usar Hitler e Mussolini para controlar os radicais vermelhos, transformá-los em figuras decorativas e o antigo establishment governaria na sombra, como sempre havia feito. Não contaram com a possibilidade de o dono da popularidade (Hitler e Mussolini) resolver assumir o controle do poder por conta própria. Os poucos jornais independentes que restavam foram amordaçados por uma série de restrições à imprensa. O caminho estava livre para a ditadura nazista na Alemanha e fascista na Itália.

A história tem comprovado que, do confronto entre as forças de esquerda e de direita sempre resulta em ditaduras de direita ou de esquerda. Na Rússia czarista em 1917, na China em 1949 e em Cuba em 1959, este confronto resultou na implantação de ditaduras de esquerda. Deste confronto entre as forças de esquerda e de direita na Itália e na Alemanha, após a 1ª Guerra Mundial, resultaram as ditaduras de direita fascista e nazista. Na Espanha em 1936 resultou a ditadura franquista de direita e no Chile em 1973 resultou a ditadura de direita de Pinochet. No Brasil, após a denominada Intentona Comunista em 1935, Getúlio Vargas deu um autogolpe em 1937 com a implantação da ditadura do Estado Novo de direita e o governo João Goulart foi derrubado em 1964 que resultou na ditadura militar de direita que teve duração de 21 anos. A escalada do fascismo já é um fato concreto, disseminado, enraizado e poderá se tornar irreversível no Brasil no momento atual. A única forma de evitar a escalada do fascismo e a implantação de uma ditadura de direita no Brasil é a formação de uma frente ampla antifascista com o apoio ao candidato mais capacitado a derrotar nas próximas eleições presidenciais e parlamentares as forças fascistas que apoiam Bolsonaro.

*Fernando Alcoforado, 78, detentor da Medalha do Mérito do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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