OS INTERESSES DE CLASSE EM JOGO NAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DO BRASIL

Fernando Alcoforado*

Uma classe social é um grupo de pessoas que têm status social  similar segundo critérios diversos. No Brasil, temos como classes sociais a elite econômica e financeira, classe média e classe social baixa. A elite econômica e financeira é um grupo privilegiado, minoritário, composto por aqueles que possuem poder económico e/ou domínio social. Ela é composta pela elite tradicional, pela elite empresarial e dos grandes escritórios, pela elite dos novos ricos e pela elite rural. A elite tradicional é composta pelos descendentes da aristocracia do passado que tem ainda hoje um denso papel social e intelectual na construção de padrões conservadores e um papel econômico e politico extremamente discreto no Brasil. A elite tradicional se distingue pela linguagem e postura muito diferente dos novos ricos. A elite tradicional foi pouca afetada pela crise econômica e financeira que eclodiu no Brasil em 2014 e é reativa a mudanças políticas, econômicas e sociais. A elite tradicional eleitoralmente opta por um candidato de direita esclarecida como Geraldo Alckmin, candidato que tem o perfil do politico conservador previsível e estável que agrada à elite tradicional que pode evoluir para um candidato de extrema direita como Bolsonaro se sentir ameaçada por candidatos de esquerda ou centro esquerda.

A elite empresarial e dos grandes escritórios é composta por advogados e executivos com curso fora do Brasil, com carreiras ascendentes, antenados e conectados com o exterior, atuam na gestão empresarial, de recursos humanos, de marketing, de departamentos jurídicos, do mercado financeiro de grandes empresas, agencias de publicidade e de relações publicas, de relacionamentos “business”, parte da mídia  de negócios, associações empresariais, executivos de grandes empresas especialmente multinacionais anglo-americanas e europeias, professores de escolas caras e modernas de administração de empresas, a grande comunidade de profissionais de saúde que tem como clientela a classe mais abonada, o pessoal do mundo da moda e dos eventos, o espaço “fashion”. Totalmente globalizados, para eles o Brasil é apenas uma plataforma de investimentos, não tem qualquer raiz, respeito ou admiração pelo País, sonham em morar em Nova York, Paris ou Londres. A elite empresarial e dos grandes escritórios  foi pouca afetada pela crise econômica e financeira que eclodiu no Brasil em 2014 e é reativa a mudanças políticas, econômicas e sociais. Eleitoralmente é de centro direita com tendência a votar em Geraldo Alckmin, mas que pode evoluir para um candidato de extrema direita como Bolsonaro.

A elite dos novos ricos são os novos empresários bem sucedidos que usam símbolos de riqueza como casas modernas, lanchas, aviões, grandes carros importados, relógios e canetas de grife. A elite dos novos ricos foi pouca afetada pela crise econômica e financeira que eclodiu no Brasil em 2014 e é reativa a mudanças políticas, econômicas e sociais. Eleitoralmente tem simpatia por candidato de extrema direita como Bolsonaro pelo fator segurança, uma preocupação desse grupo, que considera o crime como algo a combater simplesmente e somente, sem conexão com outros fatores. A elite rural, do interior do País, é uma grande classe de empreendedores agrícolas que se enriqueceu e tem grande força econômica e eleitoral. Eleitoralmente é de centro direita. Numa eleição presidencial a tendência é votar em um candidato conservador como Geraldo Alckmin, mas que pode evoluir para um candidato de extrema direita como Bolsonaro. A elite rural é composta por empreendedores agrícolas que se enriqueceram e têm grandes recursos financeiros. Eleitoralmente é de centro direita com tendência a votar em Geraldo Alckmin, mas que pode evoluir para um candidato de extrema direita como Bolsonaro.

A classe média é possuidora de um poder aquisitivo e de um padrão de vida e de consumo razoáveis, de forma a não apenas suprir suas necessidades de sobrevivência como também a permitir formas variadas de lazer e cultura, embora sem chegar aos padrões de consumo considerados exagerados da elite econômica e financeira. A classe média aspira ascender na escala socioeconômica e tem medo de descê-la. É composta por indivíduos que vêm lutando com todas as suas forças para conseguir obter uma posição socioeconômica melhor. 53% da população do Brasil é integrante da chamada classe média. Ela é constituída pela elite intelectual, elite das corporações e classe média baixa.  A elite intelectual diz respeito a um grupo de tamanho considerável ligado ao mundo acadêmico, às universidades, às artes, à literatura, parte da mídia, à ciência e pesquisa pura e às empresas estatais. Tem geralmente viés de esquerda, visão pessimista dos rumos do País e de superação de suas fissuras sociais. Esse grupo ficou órfão com a queda do Governo do PT e está em busca de novos nomes e projetos. A elite intelectual é contra a politica econômica atual e o modelo neoliberal de governo e anseia por grandes reformas politicas e sociais. Os candidatos da elite intelectual são Ciro Gomes, Marina Silva ou Fernando Haddad.

A elite das corporações vinculada à classe média diz respeito aos integrantes da Policia Federal, da Receita Federal, do MPF, do Poder Judiciário Federal, do Tribunal de Contas da União, da Advocacia Geral da União e da Defensoria Publica devido ao empoderamento nascido da “cruzada moralista contra a corrupção” e de sua aliança politica com a grande mídia que se consideram representantes puros do Estado. Eleitoralmente, a elite das corporações tende a votar em Bolsonaro por sua proposta de combate à corrupção, uma preocupação desse grupo, que considera este crime como algo a combater simplesmente e somente, sem conexão com outros fatores. A classe média baixa diz respeito a um grupo da classe média de indivíduos que não tem ainda o status requerido para que possam ser classificados como classe média. A classe média baixa foi profundamente afetada pela crise econômica e financeira que eclodiu no Brasil em 2014 e é favorável às mudanças políticas, econômicas e sociais. A classe média baixa tende a votar em Fernando Haddad na expectativa de que ele adote políticas sociais petistas que a beneficiem.

A classe social baixa se convencionou tratar como a que menos possui poder aquisitivo, bem como a que possui um padrão de vida e de consumo baixo em relação às demais classes sociais. A classe social baixa, constituída pelo proletariado urbano e rural, foi profundamente afetada pela crise econômica e financeira que eclodiu no Brasil em 2014 e é favorável às mudanças políticas, econômicas e sociais. A classe social baixa é contra a politica econômica atual do governo e anseia por grandes reformas politicas e sociais. Os candidatos da classe social baixa são Fernando Haddad e Ciro Gomes.

Percebe-se que são contraditórios os interesses da elite econômica e financeira com os da elite intelectual integrante da classe média e os da classe média baixa. As elites tradicional, empresarial e dos grandes escritórios, a dos novos ricos, a rural e a das corporações integrante da classe média são reativas às mudanças econômicas, políticas e sociais porque seriam por elas prejudicadas as quais tendem a apoiar o candidato de extrema direita Bolsonaro, enquanto, a classe média (elite intelectual e classe média baixa) e a classe social baixa, favoráveis às mudanças políticas, econômicas e sociais,   deverão optar por Ciro Gomes ou Fernando Haddad.  Em síntese, o povo brasileiro terá que optar entre manter o status quo, com a vitória dos candidatos Alckmin ou Bolsonaro,  que beneficiaria, sobretudo a elite econômica e financeira, ou pela mudança política, econômica e social que beneficiaria a classe média e a classe social baixa com a vitória dos candidatos Ciro Gomes ou Fernando Haddad.

Jair Bolsonaro, que é de extrema direita, é o candidato preferido da elite econômica e financeira e das corporações para se tornar presidente da República porque ele promete manter o modelo econômico neoliberal, privatizar patrimônios do Estado, cortar gastos governamentais e equilibrar o orçamento do governo seguindo a orientação já adotada catastroficamente pelo governo Michel Temer. Bolsonaro é o candidato preferido de setores da classe média no Brasil pelo propósito de combater a corrupção e afrouxar as restrições às armas de fogo e dar mais poder à polícia no combate ao crime. O grande apelo que o Bolsonaro oferece ao público em geral está relacionado à sua raiva contra os políticos tradicionais e contra a corrupção. No entanto, Bolsonaro não apresenta nenhum plano econômico que contribua para a superação da crise econômica que infelicita a grande maioria da população.

Ciro Gomes, que é de centro-esquerda, já tem um conjunto de propostas com as quais, conforme diz, o Brasil celebrará um “projeto nacional de desenvolvimento”. Para Ciro Gomes, o projeto de desenvolvimento que defende tem como objetivo superar a miséria. Para alcançá-lo, a tática é industrializar o país. Ele se propõe a desenvolver o complexo industrial da saúde para tirar o país da dependência internacional de medicamentos, equipamentos, próteses, tecnologia na área de diagnósticos – muitos dos quais, segundo ele, com patente vencida. E por último, desenvolver o complexo industrial da defesa. Ciro Gomes afirma que vai reduzir a taxa de juros constantemente até um patamar global e que vai propor projeto de mudança no sistema tributário com a adoção dos impostos sobre as grandes fortunas. Ciro Gomes propõe estratégia que contribua para a redução da dívida pública que é o principal problema econômico enfrentado pelo Brasil. Uma das primeiras medidas, segundo ele, seria a revogação da lei de FHC que revogou a tributação sobre lucros e dividendos.

Fernando Haddad, que é de centro esquerda, tem como foco ampliar o crédito para a produção e o consumo visando reduzir o número de desempregados. Entre as propostas que Haddad e a cúpula do PT defendem para enfrentar a crise estão a criação de um Fundo de Desenvolvimento e Emprego, reajuste de 20% nos valores do Bolsa Família e aumento real do salário mínimo, além da correção da tabela do Imposto de Renda, com teto de isenção superior ao atual. Em síntese, Haddad tentaria reativar a economia brasileira e aumentar a oferta de empregos com investimento público com o uso das reservas internacionais e a ampliação do crédito para a produção e o consumo. No entanto, Fernando Haddad não apresenta nenhum plano econômico que contribua para a superação da crise econômica que infelicita a grande maioria da população.

Estes são, portanto, os interesses de classe em jogo nas próximas eleições presidenciais. Eu espero que meus amigos leitores deste artigo reflitam profundamente e façam a escolha que melhor atenda aos interesses da sociedade brasileira como um todo e não apenas de uma classe social. O futuro do Brasil e das futuras gerações estão em jogo.

*Fernando Alcoforado, 78, detentor da Medalha do Mérito do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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