Fernando Alcoforado*
O filme “Ovo da Serpente” (1977), de Ingmar Bergman é a melhor reprodução cinematográfica do surgimento do nazismo na Alemanha. Este filme retratou com muita fidelidade os primeiros passos da sociedade alemã que, já dividida, desembocaria nas mãos do nazismo a partir de 1933. Bergman constrói com impecável riqueza de detalhes o mundo sangrento, paranoico e instável que era a Alemanha de 1923, ano em que se passa o seu filme, no período de 3 a 11 de Novembro, semana do Putsch de Munique. A luta pela sobrevivência e o medo acompanham as ações vacilantes de uma sociedade que se decompõe.
No filme “O Ovo da Serpente” já se podia ver, dez anos antes da subida dos nazistas ao poder, um fantasma rondando a Alemanha e pressupor que em meio à desordem, à crise econômica e ao vácuo político, uma semente de radicalismo e violência estava para surgir. Em “O Ovo da Serpente”, Bergman empreende uma obra dotada de forte senso crítico-social e de uma exposição memorável da história mostrando uma sociedade que vivia sob o medo e denuncia os “motivos pelos quais” o futuro tenebroso surgiria. Muitas vezes o ovo da serpente foi utilizado como metáfora para exprimir a constatação de um mal em processo de elaboração, em incubação. Nele, no ovo da serpente, no seu desenvolvimento, pode-se acompanhar a lenta e inexorável evolução do monstro que está se criando, o nazismo.
É bastante similar os fatos ocorridos na Alemanha antes da ascensão ao poder pelo nazismo, dos acontecimentos políticos da atualidade no Brasil. O avanço do fascismo no Brasil resulta do fato de a organização econômica, social e política se encontrar em completa desintegração, da incapacidade do governo brasileiro e das instituições políticas em geral de oferecer respostas eficazes para superação da crise econômica recessiva em que se debate a nação brasileira e debelar a corrupção desenfreada em todos os poderes da República e do medo de amplos setores da sociedade brasileira da volta do PT ao poder nas próximas eleições presidenciais. Na Alemanha surgiu uma figura obscura, Adolf Hitler, que alcançou o poder, implantou a ditadura nazista e levou o país à destruição com o desencadeamento da 2ª Guerra Mundial. No Brasil, surgiu uma figura obscura, Jair Bolsonaro, que pode alcançar o poder nas próximas eleições, pretende implantar uma ditadura fascista e, certamente levará o País à guerra civil.
Bolsonaro pretende implantar uma ditadura fascista no Brasil porque seu discurso é baseado no culto explícito da ordem, na violência de Estado, em práticas autoritárias de governo, no desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados e no anticomunismo. O perigo Bolsonaro está na opressão, no machismo, na homofobia, no racismo, no ódio aos pobres. A proposta de governo de Bolsonaro é tipicamente fascista. A ascensão de Bolsonaro ao poder já está contando com o apoio de elite conservadora do Brasil. A História nos diz que uma vez que essa aliança entre a elite conservadora e os fascistas é formada e tem sucesso em busca do poder, não há mais como pará-la. Isto ocorreu na Alemanha nazista e poderá se repetir no Brasil. A aliança entre a elite conservadora e os fascistas pode destruir os últimos vestígios de um governo democrático no Brasil.
Desde que trouxe o economista neoliberal Paulo Guedes para sua campanha, Bolsonaro tem mostrado entusiasmo com a ideia de vender todas as propriedades do Estado, defender a independência do Banco Central e buscar a aprovação das reformas apoiadas pelo setor bancário. Bolsonaro ganhou grande apoio da população no Brasil dizendo que na Presidência da República afrouxaria as restrições às armas de fogo e daria mais poder à polícia. As autoridades deveriam ter armas mais letais, de acordo com Bolsonaro, que defende que aqueles que matam criminosos devem receber medalhas e não irem a julgamento. O grande apelo que o Bolsonaro tem do público em geral está relacionado à sua oposição antipetista, sua raiva contra os políticos tradicionais e contra a corrupção. As pesquisas eleitorais mostram que ele é apoiado principalmente por homens da classe média e da alta burguesia.
Há o risco de as eleições presidenciais do Brasil levar ao poder Jair Bolsonaro de extrema direita ou Fernando Haddad de centro esquerda. Está bastante claro que as forças políticas de direita consideram inaceitável a ascensão de Haddad ao poder que significaria a volta do PT e seus aliados ao governo do Brasil e as forças políticas de esquerda, sobretudo as radicais, consideram inaceitável a direita no poder, especialmente se Bolsonaro vencer as eleições presidenciais. O país poderá ser convulsionado, nessas circunstâncias. Isto significa dizer que nem Bolsonaro nem Haddad adquirirão as condições de governabilidade. Bolsonaro poderá contar com o apoio das classes economicamente dominantes, mas não terá o decisivo apoio de amplos setores da sociedade civil. Haddad poderá contar com o apoio de amplos setores da sociedade civil, mas não contará com o apoio das classes economicamente dominantes. Enganam-se aqueles que pensam que a governabilidade possa ser alcançada apenas com o apoio da maioria do Parlamento.
Da mesma forma que as SA (milícias nazistas) de direita e grupos paramilitares comunistas de esquerda surgiram e se confrontaram com extrema violência na Alemanha durante a República de Weimar após a 1ª Guerra Mundial, o mesmo pode acontecer no Brasil após as eleições de 2018 com a vitória de Bolsonaro ou Haddad. A violência que venha a ser praticada pelos partidários de direita e de esquerda poderá criar um ambiente de convulsão social que ofereceria a justificativa necessária para que seja patrocinado um novo golpe de estado no Brasil visando a manutenção da ordem política e social.
Estão totalmente enganados aqueles que pensam que o Brasil pode ficar imune à ruptura político-institucional na atualidade ou no futuro. O confronto entre a extrema direita e a extrema esquerda na luta pelo poder acontece sempre em momentos de crise econômica profunda como a que ocorre no Brasil atualmente quando há entrechoques entre as classes sociais em presença em que algumas delas procuram manter seus privilégios e outras buscam um lugar ao sol. Os fatos da história demonstram que, quando a crise econômica se aprofunda, a crise de governabilidade se materializa com a paralisia do governo que poderá ocorrer no Brasil após as eleições de 2018 produzida em grande medida pela luta entre as forças políticas de direita e de esquerda da qual pode resultar uma guerra civil seguida da instauração de uma ditadura de direita. A maior possibilidade é a de que seja implantada uma ditadura de direita seja com a vitória de Bolsonaro para mantê-lo no poder e de Haddad após derrubá-lo do poder.
A única forma de evitar a escalada do fascismo e a implantação de uma ditadura de direita no Brasil é a formação de uma frente ampla antifascista apoiando o candidato mais capacitado a derrotar nas próximas eleições presidenciais as forças fascistas que apoiam Bolsonaro. As pesquisas eleitorais apontam que Ciro Gomes é o candidato que tem condições de derrotar Bolsonaro no 2º turno das eleições presidenciais. Está nas mãos dos eleitores de Geraldo Alckmin e Marina Silva transferirem seus votos para Ciro Gomes e/ou estes candidatos apoiarem Ciro Gomes para que ele derrote Fernando Haddad no 1º turno das eleições e reúna condições para enfrentar Jair Bolsonaro no 2º turno. Esta seria a solução que poderia impedir a vitória de Bolsonaro nas eleições presidenciais e a derrubada de Haddad após sua ascensão ao poder com a implantação de uma ditadura fascista no Brasil. Este cenário precisa ser evitado pela população brasileira defensora da democracia e contrária à ditadura fascista no Brasil.
*Fernando Alcoforado, 78, detentor da Medalha do Mérito do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).