OS CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA E A DEFESA DA SOBERANIA NACIONAL

Fernando Alcoforado*

Para uma nação ser soberana, ela precisaria reunir 4 características: 1) ser um país uno e indivisível, isto é, não existir dois Estados em seu território nacional; 2) não haver outro poder no país com quem tenha de partilhar a autoridade do Estado; 3) ser um país independente econômica, financeira e tecnologicamente; e, 4) ser um país independente no sistema internacional, isto é, que não dependa de nenhum poder supranacional e só se considera vinculado pelas normas de direito internacional resultantes de tratados livremente celebrados ou de costumes voluntária e expressamente aceitos.

O Brasil não é uma nação soberana porque, apesar de atender as características 1 e 2 acima descritas, não apresenta as características 3 e 4. O Brasil não é um país soberano porque não é um país independente econômica, financeira e tecnologicamente em relação ao exterior (característica 3), isto é, o Brasil depende de capitais e tecnologia de empresas multinacionais que operam na economia brasileira, de capitais do sistema financeiro internacional e de países importadores com a venda de bens e serviços brasileiros. O Brasil não é um país soberano porque não é um país independente no sistema internacional (característica 4) no qual atua de forma subalterna em relação às grandes potências na cena internacional.

Para alcançar a condição de nação soberana, o Brasil precisaria, inicialmente, se tornar um país independente econômica, financeira e tecnologicamente (característica 3) para, em seguida, se tornar, também, um país independente no sistema internacional (característica 4). Para se tornar independente econômica e financeiramente, o Brasil precisaria romper com a dependência do investimento estrangeiro direto e não demandar o financiamento de organismos internacionais para completar a poupança interna para investimento. Para se tornar independente tecnologicamente, o Brasil precisaria romper com a dependência não só de capitais, mas também de tecnologia estrangeira. No Brasil, a Petrobras na tecnologia de exploração do petróleo, sobretudo em águas profundas, e a Embraer na tecnologia aeronáutica são poucos exemplos de independência do Brasil no campo tecnológico.

A conquista da independência no sistema internacional depende da capacidade de o Brasil se tornar independente econômica, financeira e tecnologicamente e, também, de sua política de defesa. Algumas questões relacionadas com a política de defesa da integridade nacional de ameaças externas como, por exemplo, a aplicação de sanções pela ONU contra o Brasil no caso de violação dos direitos dos povos indígenas residentes no País que, sob o pretexto de razões humanitárias, poderia haver intervenção militar da ONU ou de qualquer dos membros do Conselho de Segurança para se apossarem das riquezas minerais e da biodiversidade existentes na Amazônia no Brasil como já aconteceu no Iraque e na Líbia quando as potências ocidentais se apossaram dos campos de petróleo.

Outra questão relacionada com a defesa da integridade nacional diz respeito à reestruturação da indústria bélica brasileira para acabar com a dependência do Brasil em relação ao exterior, o fortalecimento da Marinha para atuar no controle e policiamento de áreas marítimas para evitar a concentração de forças inimigas no mar territorial brasileiro, evitar a ocupação da região Amazônica, que é detentora de abundantes recursos minerais, vastos recursos hídricos e imenso potencial de biodiversidade, por potências estrangeiras, proteger as plataformas petrolíferas onde se localiza o Pré-sal (na faixa de Santos a Vitória) situadas nas águas sob jurisdição brasileira e as linhas de comunicação, bem como estar presente nas grandes bacias fluviais do rio Amazonas ao Norte e dos rios Paraguai e Paraná ao Sul.

Outra questão relacionada com a defesa da integridade nacional diz respeito ao desenvolvimento do potencial de mobilização militar e nacional com o objetivo de assegurar a capacidade dissuasória e operacional das Forças Armadas, fomentar a cooperação militar dos países da América do Sul, a integração das bases industriais de defesa, o monitoramento e controle das fronteiras terrestres e das águas jurisdicionais brasileiras, ressaltando a capacidade de responder prontamente à qualquer ameaça ou agressão através da mobilidade estratégica.  A defesa da integridade nacional diz respeito também à efetiva utilização do potencial de recursos naturais existentes no País, o fortalecimento do mercado interno brasileiro com a adoção de eficazes políticas de distribuição de renda e de substituição de importações visando promover o crescimento do parque industrial brasileiro e, consequentemente, promover o desenvolvimento da economia brasileira.

Nenhum dos candidatos à Presidência da República apresenta proposta relacionada com a defesa da integridade do Brasil em face das ameaças externas. O candidato que reuniria maiores condições para tornar o Brasil independente econômica, financeira e tecnologicamente (característica 3) seria Ciro Gomes porque apresenta uma proposta capaz de promover a reativação da economia brasileira ao considerar o Estado como indutor do crescimento econômico e implantar o Plano Nacional de Desenvolvimento, com foco no combate à desindustrialização do País. É positiva a proposta de Ciro Gomes de estabelecer um limite para pagamento de dívida pública interna por parte do Estado e estabelecer um teto para todas as despesas para possibilitar a disponibilidade de recursos públicos para investimento, bem como sua proposta de usar US$ 200 bilhões das reservas internacionais do Brasil para pagar 9% da dívida interna do País.

É positiva a proposta de Ciro Gomes contrária à privatização da Eletrobras e a adoção de uma política para o setor petróleo que prevê a aplicação dos percentuais anteriores à lei de partilha para a exploração do petróleo e gás nas áreas do pré-sal, a expropriação de todos os campos de petróleo leiloados para empresas estrangeiras no governo Temer e a limitação do lucro da Petrobras em 3%, além de mudar a forma de gestão da empresa. É absolutamente correta sua proposta de suspensão do acordo entre Embraer e Boeing que levaria à desnacionalização definitiva da Embraer e colocaria em xeque a política de autonomia produtiva e tecnológica na área de Defesa do Brasil, prejudicaria a indústria brasileira que seria afetada com a redução das compras internas de peças e componentes que serão realizadas em grande parte nos Estados Unidos pela Boeing e perderia o controle na gestão da empresa como um todo que seria assumida pela Boeing.

Fernando Haddad apresenta, também, iniciativas positivas visando a reativação da economia brasileira especialmente aquelas voltadas para a elevação dos investimentos públicos contemplando a retomada de obras paralisadas, dos investimentos da Petrobras e do programa Minha Casa Minha Vida. É positiva a iniciativa de Haddad constituir fundo de investimentos composto por 10% das reservas internacionais e contribuição de bancos públicos e debêntures para financiamento de projetos de infraestrutura.  Diferentemente de Ciro Gomes, Fernando Haddad não apresenta propostas concretas para romper com o modelo neoliberal que levou a economia brasileira ao desastre atual e não apresenta propostas que contribuam para sustar o processo de desnacionalização e desindustrialização da economia brasileira. É correta, entretanto, sua iniciativa de fortalecimento da Petrobras com a manutenção do regime de partilha na área do Pré-sal e da política de conteúdo local.

O fato grave e certamente o ponto fraco da proposta de Fernando Haddad no que concerne à política fiscal reside no fato de não propor nenhuma iniciativa no sentido de sustar o crescimento vertiginoso da dívida pública que, sem seu equacionamento, não haverá solução para a crise fiscal do Estado no Brasil. É positiva, entretanto, a proposta de Fernando Haddad contrária à venda de ativos da Petrobras, a não privatização da Petrobras e de eventuais vendas de ativos da Eletrobras e Petrobras. É absolutamente correta sua proposta de revisão do acordo entre Embraer e Boeing que levaria à desnacionalização definitiva da Embraer e colocaria em xeque a política de autonomia produtiva e tecnológica na área de Defesa do Brasil, prejudicaria a indústria brasileira que seria afetada com a redução das compras internas de peças e componentes que serão realizadas em grande parte nos Estados Unidos pela Boeing e perderia o controle na gestão da empresa como um todo que seria assumida pela Boeing.

Constata-se, portanto, que Ciro Gomes tanto quanto Fernando Haddad na Presidência da República contribuiriam para a conquista da independência econômica, financeira e tecnológica do Brasil, especialmente Ciro Gomes que diferentemente de Fernando Haddad, propõe um Plano Nacional de Desenvolvimento de curto, médio e longo prazo.. Quanto aos candidatos Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin, eles são defensores do neoliberalismo que, além de não proporem nenhum plano econômico que contribua para solucionar a crise econômica do País e o desemprego que infelicita a população brasileira, deixando os rumos da economia a cargo das forças do mercado, preconizam o Estado Mínimo e a privatização das empresas estatais, entre as quais a Petrobras. Por sua vez, Marina Silva não propõe um Plano Nacional de Desenvolvimento em que o governo seja indutor do processo de desenvolvimento. Sua proposta econômica é tipicamente neoliberal ao admitir que os preços, juros e câmbio sejam ditados pelas forças do mercado. É positiva, entretanto, a proposta de Marina Silva de não privatizar a Petrobras, Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil e de adotar uma política energética que incorpora as energias renováveis.

*Fernando Alcoforado, 78, detentor da Medalha do Mérito do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, Sócio Benemérito da AEPET- Associação dos Engenheiros da Petrobras, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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