Fernando Alcoforado*
A educação brasileira atravessa uma crise sem precedentes. Esta crise resulta, de um lado, da inexistência de um eficiente e eficaz sistema de educação e, de outro, da falta de políticas governamentais que contribuam para a superação dos problemas atuais da educação e para sua adequação às mudanças tecnológicas em curso que impactam sobre o mundo do trabalho e a sociedade em geral. O fato de o sistema de educação do Brasil ser ineficiente e ineficaz impede que ela opere como fator de desenvolvimento econômico e social e contribua para a ascensão social das camadas mais baixas da população. A inexistência de uma nova política de educação ajustada às mudanças tecnológicas em curso impede que o Brasil aumente a produtividade de seus trabalhadores e comprometa seu desenvolvimento econômico e social.
A ineficiência e ineficácia do sistema de educação atual são demonstradas pelo desempenho medíocre de estudantes brasileiros nos exames do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) que busca medir o conhecimento e a habilidade em leitura, matemática e ciências de estudantes com 15 anos de idade tanto de países industrializados membros da OCDE como de países parceiros e pelo insatisfatório desempenho das universidades brasileiras no ranking das universidades no mundo medido pelo THE (Times Higher Education) que avalia o desempenho dos estudantes universitários e a produção acadêmica nas áreas de engenharia e tecnologia, artes e humanidades, ciências da vida, saúde, física e ciências sociais e considera ainda pesquisa, transferência de conhecimento e perspectiva internacional, além do ambiente de ensino.
A catastrófica situação em que se encontra o sistema de educação no Brasil demonstrada pelo PISA e THE e as mudanças tecnológicas em curso que impactam sobre o mundo do trabalho e a sociedade em geral estão a exigir que se realize uma verdadeira revolução na educação no Brasil. O grande desafio de educação no Brasil é representado, não apenas pela deficiência do sistema atual, mas, sobretudo, pelas rápidas mudanças que estão ocorrendo no mundo do trabalho graças ao avanço tecnológico, devido, sobretudo, ao impacto da inteligência artificial que é a inteligência similar à humana exibida por mecanismos ou software. Especialistas acreditam que a inteligência das máquinas se equiparará à de humanos até 2050, graças a uma nova era na sua capacidade de aprendizado. Isso significa dizer que estamos criando máquinas que podem ensinar a si mesmas e também a se comunicar simulando a fala humana.
Tudo leva a crer que os robôs deverão ser utilizados largamente na atividade produtiva em geral que faz com que seja um imperativo preparar os seres humanos para lidar com estas máquinas inteligentes no mercado de trabalho. Considerando que um dos objetivos de um sistema de educação de um país é o de planejar a preparação e a reciclagem das pessoas para o mercado de trabalho, compete aos planejadores dos sistemas de educação do Brasil identificar o papel dos seres humanos no mundo do trabalho em um futuro com máquinas inteligentes para realizar uma ampla revolução no ensino em todos os níveis contemplando a qualificação dos professores e a estruturação das unidades de ensino para prepararem seus alunos para um mundo do trabalho em que as pessoas terão que lidar com máquinas inteligentes. Os programas de ensino das unidades educacionais em todos os níveis devem ser profundamente reestruturados para atingirem esses objetivos.
Para implantar um novo sistema de educação voltado para a preparação dos seres humanos para o mercado de trabalho, se torna imprescindível, portanto, que se comece a identificar as competências humanas necessárias para o trabalho do século XXI e adequar o sistema educacional do Brasil que está obsoleto para formar cidadãos mais capacitados para uma realidade diferente da era industrial que está chegando ao fim e ainda prevalece no momento.
O sistema de educação tem por objetivo preparar as pessoas, não apenas para o mercado de trabalho, mas também para a vida. É preciso que a educação contemporânea proporcione as condições para que os estudantes adquiram os conhecimentos necessários para poder pensar e construir um mundo melhor. É preciso fazer com que os estudantes saibam sobre o que acontece nos campos da economia, da ciência e da tecnologia, do meio ambiente e das relações internacionais, entre outras. Há enorme desinformação que atinge a esmagadora maioria dos estudantes do Brasil fazendo com que eles não tenham condições de interpretar corretamente a realidade em que vive e, muito menos, em transformá-la. O sistema de educação atual contribui enormemente para a alienação dos seres humanos porque a educação não é pensada como cultivo do espírito, como condição para o avanço da humanidade. Este é que deveria ser o verdadeiro sentido da educação.
Para preparar o sistema de educação para a vida, deveriam ser adotadas as diretrizes propostas por Edgar Morin em sua obra Os Sete Saberes Necessários à Educação no Futuro que indica a necessidade de haver um esforço transdisciplinar que seja capaz de rejuntar ciências e humanidades e romper com a oposição entre natureza e cultura que, segundo ele, trata-se de um desafio para todos aqueles que estão empenhados em repensar os rumos das instituições educacionais e não quiserem sucumbir na inércia da fragmentação e da excessiva disciplinarização características da era contemporânea. Morin defende a tese de que precisamos reaprender a rejuntar a parte e o todo, o texto e o contexto, o global e o planetário, e enfrentar os paradoxos que o desenvolvimento técnico e econômico trouxe consigo.
Para realizar uma revolução no sistema de educação do Brasil, é preciso preparar o professor para cumprir um novo papel. O papel do professor é decisivo para que, através da educação, seja criado um novo tipo de homem qualificado para o mundo do trabalho e consciente e bem preparado para transformar o mundo em que vivemos em seu benefício. O papel do professor deve ser o de gestor de processos ricos de aprendizagens significativas e não o de um simples repassador de informações na sala de aula. O professor deve atuar como mediador do processo de aprendizagem dos alunos utilizando tecnologias simples, como as que estão no celular, uma câmera para ilustrar, um programa gratuito para juntar as imagens e contar com elas histórias interessantes e os alunos serem autores, protagonistas do seu processo de aprender. Deveríamos nos inspirar nas políticas educacionais praticadas no Japão, Finlândia, Coreia do Sul e Suíça que são os países mais avançados em educação no mundo no sentido de reestruturar o sistema de educação do Brasil do ensino infantil ao ensino superior.
*Fernando Alcoforado, 78, detentor da Medalha do Mérito do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, Sócio Benemérito da AEPET- Associação dos Engenheiros da Petrobras, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).