O BRASIL E A NAU DOS INSENSATOS

Fernando Alcoforado*

A “nau dos insensatos” é uma antiga alegoria muito usada na cultura ocidental em literatura e pinturas. Imbuída de um senso de autocrítica, ela descreve o mundo e seus habitantes humanos como uma nau cujos passageiros perturbados nem sabem nem se importam para onde estão indo. A nau dos insensatos é uma alegoria cada vez mais familiar no Brasil haja vista que a sociedade brasileira é como se fosse um barco indo a pique. E nós, passageiros que rumamos a lugar algum, estamos afundando com a nau dos insensatos chamada Brasil.

Esta imagem faz parte de uma alegoria medieval representada das mais distintas formas ao longo dos últimos quinhentos anos: A Nau dos insensatos. Não foram poucos os que trouxeram à luz todo o esplendor desta ideia. Destacaria Erasmo de Roterdã na literatura com o Elogio da Loucura, Michel Foucault com A História da Loucura na Idade Clássica e Federico Fellini no cinema com E la nave va, entre outros. Imagine a situação de um navio indo a pique sem que seus ocupantes percebam a catastrófica situação que lentamente se impõe como é o caso do Brasil que tende a evoluir politicamente para o agravamento dos conflitos políticos entre as forças de esquerda e de direita e economicamente para a inviabilidade na solução da crise econômica devido à incapacidade de conquistar a governabilidade por qualquer dos candidatos que vença as eleições presidenciais.

O Elogio da Loucura (Porto Alegre: L&PM Editores, 2013) de Erasmo de Rotterdam é uma sátira escrita em 1508 dirigindo críticas mordazes à vida numa sociedade medieval impregnada de uma cultura tradicional medíocre e hipócrita. As críticas são realizadas em defesa da personagem central, a Loucura. Nesta obra a Loucura é personificada na forma de uma deusa que conduz as ações humanas. Para o autor, Loucura é o estado natural do ser humano. Para Erasmo, a Loucura está por toda parte sendo infinito o número de loucos. Michel Foucault, em História da Loucura na Idade Clássica (São Paulo, Perspectiva, 1997), relembra que “heróis imaginários, modelos éticos ou tipos sociais, embarcam para uma grande viagem simbólica que lhes traz, senão a fortuna, pelo menos a figura de seus destinos ou suas verdades”. Em E la nave va — batizado como O Navio, em português — de Fellini, a alta classe artística e social italiana embarca em uma viagem de despedida da cantora de ópera Edmea Tetua. Lá, em meio ao caos instaurado pelo ego, pela morte e pela non-grata presença de refugiados sérvios no navio, afloram as facetas mais obscuras e egoístas do ser humano. Ao reproduzir com magistral destreza os aspectos mais perturbadores da individualidade sobre o meio, Fellini expõe a face mais lamentável da existência humana.

Pensar em uma alegoria concebida ainda no período medieval, anterior ao descobrimento da América, poderia nos levar a crer que estamos tratando da representação de uma sociedade completamente distante e diferente da nossa era. A má notícia é que grande parte dos elementos que compõem a Nau dos Insensatos ainda se notam em nossa própria realidade. Não é preciso ser expert em psicologia social para perceber que, nas eleições presidenciais do Brasil, o País está profundamente dividido com algumas pessoas se posicionando politicamente ao lado de Lula e do PT e outras em oposição radical ao lulismo e ao petismo. De modo geral, a escolha dos candidatos presidenciais no 1º e 2º turnos não é feita pelos eleitores com base na avaliação da capacidade dos candidatos de exercer o governo e de suas propostas de governo visando solucionar a crise econômica atual e promover o desenvolvimento do País.

A população brasileira está embarcando na mesma Nau que os personagens de Fellini em uma viagem rumo a lugar algum ou rumo ao fim, se quisermos ser pessimistas, enfrentando as mais terríveis tempestades, ventos fortes, intempéries naturais e acidentes de percurso. Em uma Nau como o Brasil que se caracteriza por ter seus passageiros (população brasileira) em conflito, profundamente dividida, os quais alguns deles justificam a ausência de uma postura altruísta, isto é, que se dedica aos outros que é solidário aos outros pelo simples fato de que os demais ocupantes do navio também não se importarem com eles. E assim, preocupados em destruir seus inimigos, as partes em conflito na Nau chamada Brasil olham com obstinação para frente sem se aperceber que a nau está afundando e a água já está tocando a cintura e que já não há mais nada a fazer a não ser todos se unirem para evitar o naufrágio da Nau chamada Brasil.

Esta é a situação do Brasil atual que estaria a exigir a constituição de um governo de união nacional para evitar que a Nau chamada Brasil naufrague e que seja capaz de unir o povo brasileiro em torno de um projeto comum de desenvolvimento. Lamentavelmente, nenhum dos dois candidatos tem condições de constituir um governo de união nacional para conquistar a paz social que é um estado de equilíbrio e entendimento entre os habitantes de um mesmo Estado nacional, onde o respeito entre eles é adquirido pela aceitação das diferenças e os conflitos são resolvidos através do diálogo, os direitos das pessoas são respeitados e suas vozes são ouvidas e todos estão em seu ponto mais alto de serenidade sem tensão social. Se não é possível constituir um governo de união nacional no Brasil, é preciso que os candidatos Jair Bolsonaro e Fernando Haddad assumam antes do segundo turno das eleições presidenciais o compromisso de construir a paz social qualquer que seja o resultado das eleições presidenciais.

A antítese da paz social é a guerra civil que é caracterizada por ser um conflito armado entre grupos organizados dentro de um mesmo Estado nacional. O principal objetivo entre os contendores das guerras civis é o de assumir o controle do aparelho de Estado nacional para adotar as políticas do governo em função de seus interesses. As guerras civis (também conhecidas por guerras internas) são conflitos de grande gravidade para a nação envolvida, seja no âmbito politico, econômico ou social que podem resultar na instauração de uma ditadura pelas forças vencedoras do conflito. Estes conflitos são responsáveis pela morte de um elevado número de civis, pois são caracterizados pela participação ativa do povo nos combates. As principais vítimas são as crianças, as mulheres e os idosos, que mesmo sem lutar nos conflitos, são os mais atingidos pelos atentados. Os candidatos Fernando Haddad e Jair Bolsonaro têm o dever de assumir o compromisso de construir a paz social no Brasil após o segundo turno das eleições presidenciais. A construção da paz social é a condição sine qua non para que a crise econômica possa ser superada no Brasil e reduzir os níveis de desemprego que afeta 13 milhões de brasileiros. A condição para haver paz social é assegurar em um estado nacional efetiva governabilidade e governança para promover o progresso econômico e social que seja compartilhado por toda a população.  Só assim será possível fazer com que a Nau chamada Brasil se encaminhe a um porto seguro.

*Fernando Alcoforado, 78, detentor da Medalha do Mérito do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, Sócio Benemérito da AEPET- Associação dos Engenheiros da Petrobras, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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