Fernando Alcoforado*
Em toda a passagem de ano, deveríamos fazer uma profunda reflexão sobre a trajetória da Humanidade ao longo da história no sentido de buscar os melhores caminhos que nos conduzam à paz e à solidariedade entre todos os homens e mulheres em nosso planeta. Todos nós deveríamos incorporar em nossas mentes de que estamos vivendo momentos históricos decisivos para a Humanidade em que poderosíssimas forças econômicas, sociais e ambientais podem nos conduzir a um quadro catastrófico de conflitos entre os seres humanos e de revolta da Natureza contra aqueles que a agridem, isto é, os seres humanos.
Na história da Humanidade, os conflitos entre os seres humanos têm sido uma constante. A violência tem crescido ao longo do tempo. O fim da Guerra Fria, por exemplo, não contribuiu para a resolução pacífica dos conflitos entre as nações e povos que continuam a provocar milhões de mortos e de mutilados por todo o mundo e a impedir que muitas pessoas vivam em condições mínimas de dignidade. Mesmo em situações aparentemente pacíficas, a violência é, sob muitas formas, uma realidade quotidiana que destrói vidas e condena à sobrevivência em condições iníquas uma multidão de seres humanos.
Não será o desemprego, o analfabetismo, a insegurança, as desigualdades crescentes, a exploração do homem pelo homem e os futuros ameaçados manifestações de violência com as quais constantemente nos confrontamos? Não confundamos não violência com passividade, covardia ou desistência de lutar pela justiça. Afirmação de si, agressividade e conflito têm sido marcas do comportamento humano ao longo da sua história. A guerra não pode continuar sendo uma constante na história da Humanidade.
A Humanidade dispõe hoje de recursos materiais e espirituais que lhe permitem prescindir da violência como forma de garantir a sobrevivência e é possível, a partir de um processo lento e difícil, inaugurar uma nova era civilizacional de humanização, de enriquecimento pessoal e comunitário, através do confronto e da compreensão do outro, do diferente. Hoje, é possível pensar a evolução da humanidade fora dos quadros da violência.
Existe um provérbio que virou senso comum de que “se queres a paz prepara a guerra” o que é falso porque incentiva a proliferação da guerra com a corrida armamentista. “Assim como é preciso aprender a matar para praticar a violência, assim se deve estar preparado para morrer para praticar a não violência”, dizia Gandhi. Ora, ter este princípio como horizonte de vida pressupõe um profundo e persistente trabalho interior porque a não violência não recusa o conflito, mas procura transformá-lo em fonte de crescimento e de amadurecimento da consciência e da solidariedade humana, consciente dos limites e precariedade desse mesmo processo.
Não satisfeito com os conflitos entre os seres humanos ao longo da história, a Humanidade passou a praticar a violência contra a Natureza, colocando em risco a sua própria existência diante da catástrofe ambiental que se antevê em nosso planeta. Os governantes pouco fazem para preservar o berço que sustenta a Humanidade, isto é, o planeta Terra. Desenvolveu-se uma cultura de colocar os interesses da Humanidade acima da Natureza, porque a sobrevivência é-lhes mais forte do que a preservação da Terra.
Esquecem que a Terra é berço e é estrada, condição sine qua non para a sobrevivência da Humanidade. É preciso desenvolver a conscientização social como forma mais eficaz de levar o Ser Humano a saber de si e do Todo numa correlação fraternal de conhecimentos que não deixa a Terra em segundo ou terceiro planos, e sim, em plano de igualdade.
No “último discurso” de Charles Chaplin pronunciado no filme O Grande Ditador, ele vive uma brilhante sátira a Adolf Hitler. O climax clássico deste filme é o célebre discurso final, um libelo ao triunfo da razão sobre o militarismo. Ele afirmou, entre outras coisas, em um contexto diferente do atual, porém válido hoje na atualidade, que todos nós desejamos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar-nos uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A Terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem … levantou no mundo as muralhas do ódio … e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas sentimo-nos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Os nossos conhecimentos fizeram-nos céticos, a nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis!” A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia … da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano.
Lutemos agora para libertar o mundo, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Ainda com muita esperança de que a Humanidade se reconciliará consigo mesma e com a Natureza, apresentamos nosso desejo de que todos os nossos queridos amigos e queridas amigas façam uma profunda reflexão sobre os gigantescos problemas que nos afligem e se engajem na luta por um mundo melhor do que os homens e as mulheres construíram até hoje.
*Fernando Alcoforado, 79, detentor da Medalha do Mérito do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).