A VERDADE SOBRE O “ROMBO” DAS CONTAS PÚBLICAS DO BRASIL E A REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Fernando Alcoforado*

A reforma da Previdência vem sendo colocada pelo governo Bolsonaro como a solução para o déficit das contas públicas que está estimado em R$ 139 bilhões no orçamento de 2019. Trata-se de um engodo que se vende para a população brasileira, porque este déficit e aqueles que aconteceram em 2015, 2016, 2017 e 2018 resultaram, fundamentalmente, da crise recessiva que levou à queda do crescimento econômico do Brasil desde 2014 e contribuiu para a redução da arrecadação de impostos, dos encargos excessivos do governo federal com o pagamento da sempre crescente dívida pública e, também a gigantesca dívida de grandes empresas para com a Previdência Social.

O crescimento econômico do Brasil foi negativo de 2014 a 2018 (-3,8% em média) que fez com que houvesse redução na arrecadação de impostos do governo. O governo federal paga anualmente R$ 1,5 trilhão aos banqueiros e usurários donos dos títulos da dívida pública que daria pra resolver todos os problemas do Brasil. A dívida estimada das empresas devedoras da Previdência Social em todo Brasil, soma um valor de R$ 426 bilhões que representaria a solução para o déficit da Previdência. Tudo isto contribuiu para o déficit das contas públicas no Brasil.

Para resolver problema do déficit nas contas públicas, motivo este alegado pelo governo Bolsonaro para realizar a reforma da Previdência, o governo federal deveria adotar como estratégia fundamental a reativação da economia brasileira que, além de fazer frente ao problema do desemprego de 13 milhões de trabalhadores, contribuiria para elevar a arrecadação de impostos com um amplo programa de obras públicas de infraestrutura (energia, transporte, habitação, saneamento básico, etc) e, em consequência, promover a expansão do consumo das famílias resultante do aumento do emprego e da massa salarial e a renda das empresas com os investimentos em obras públicas. Além do programa de obras públicas, o governo brasileiro deveria desenvolver um amplo programa de exportações, sobretudo do agronegócio e do setor mineral e promover a redução drástica das taxas de juros bancárias para incentivar o consumo das famílias e o investimento pelas empresas, a redução dos custos da administração pública com o congelamento dos altos salários do setor público, o corte de mordomias e de órgãos da administração pública.

Além da adoção da estratégia de reativação da economia brasileira para elevar a arrecadação de impostos e de redução dos custos da administração pública, o governo federal deveria promover auditoria da dívida pública seguida de redução dos encargos com o pagamento de juros e amortização da dívida pública a ser renegociada com os credores da dívida pública.  O Orçamento Federal para 2019 corresponde a R$ 3,262 trilhões. Dentre as despesas, sobressai o gasto financeiro com a chamada dívida pública, que consumirá quase 44% de todo o orçamento, ou seja, R$ 1,425 trilhão. O gasto com a dívida compreende o gasto com amortizações da dívida de R$ 1,046 trilhão e o gasto com juros e encargos da dívida de R$ 379 bilhões, somando R$ 1,425 trilhão. O gasto com servidores públicos – ativos e aposentados – consumirá R$ 350,4 bilhões. As despesas com a Previdência Social (INSS) estão previstas para R$ 625 bilhões, bem menos da metade do que será gasto com a dívida pública. O valor destinado a investimentos é insignificante para um país como o Brasil  de apenas R$ 36 bilhões. Portanto, o rombo das contas públicas está claramente localizado nos gastos financeiros com a chamada dívida pública – que nunca foi auditada, como manda a Constituição e não nas despesas com a Previdência.

Além da adoção da estratégia de reativação da economia brasileira para elevar a arrecadação de impostos, de redução dos custos da administração pública e de redução dos encargos com o pagamento de juros e amortização da dívida pública a ser renegociada com os credores da dívida pública, o governo federal deveria ir atrás dos grandes devedores da Previdência Social cuja dívida totaliza R$ 426 bilhões cujo valor representaria a solução do déficit da Previdência. Cabe observar que, entre os 400 maiores devedores da Previdência Social estão Bradesco (R$ 465,2 milhões), Itaú (R$ 88,8 milhões), Caixa Econômica (R$549,5 milhões), Banco do Brasil (208,2 milhões), Santander (R$ 80,8 milhões), Banco Rural (R$ 124,8 milhões), CBTU (R$ 131,6 milhões) Friboi (R$ 1,8 bilhão), Jornal do Brasil (274,9 milhões), Lojas Americanas (R$166 milhões), Oi (R$ 126,5 milhões), Usina Santa Rita (R$ 205,5 milhões), Usina Santa Helena (R$ 159, 8 milhões), Usina Santa Maria (R$ 76,7 milhões), Vasp (R$ 1,5 bilhão), antiga Parmalat (R$ 25 bilhões).  Estes são apenas alguns dos casos de grandes devedores da Previdência Social.

Além do engodo representado pela reforma da Previdência Social como solução para o déficit das contas públicas, o governo Bolsonaro apresenta uma proposta draconiana contra a população brasileira que venha a se aposentar no futuro. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da equipe econômica do governo Bolsonaro retoma medidas da primeira proposta do governo Michel Temer, como equiparar a idade de aposentadoria entre homens e mulheres em 65 anos. O governo quer fixar o tempo de contribuição de 40 anos para quem quiser receber o valor integral do benefício. Mas a grande novidade do texto é a criação de um sistema de capitalização. Neste sistema, o fundo da Previdência é extinto. As contribuições vão para uma conta individual e são aplicadas em investimentos. O valor é definido na contratação do plano, e o benefício que será recebido varia de acordo com a rentabilidade. Hoje, o modelo da Previdência se baseia no sistema de repartição: há contribuição de trabalhadores, das empresas e do Estado. Ou seja, um fundo financeiro que cresce quando o emprego cresce.

Com a reforma da Previdência do governo Bolsonaro, haveria, portanto, a fixação da idade mínima de 65 anos para homens e mulheres. Idosos carentes receberiam menos do que um salário mínimo. O benefício integral do regime do INSS só seria obtido com 40 anos de contribuição. Foi proposto pagar menos de um salário mínimo a um idoso carente. Além de cruel, é uma ideia pouco inteligente porque quem ganha salário mínimo utiliza este recursos rapidamente em benefício da economia. O problema da Previdência não é quem recebe um mínimo. Esse benefício social deve ser preservado. Privilégios é que devem ser combatidos. O rombo fiscal é responsabilidade das altas aposentadorias do funcionalismo público, inclusive dos militares, e também de benefícios de maior valor do regime do INSS a profissionais liberais que conseguem se aposentar a partir dos 50 e poucos anos. É justo fixar uma idade mínima, mas é preciso preservar os mais pobres. Se aprovada, a reforma da Previdência de Bolsonaro aumentará as desigualdades sociais no Brasil.

A reforma da Previdência do governo Bolsonaro tem apenas a previsão legal da capitalização que teria caráter obrigatório. O custo social dessa mudança é o seguinte: só os trabalhadores que conseguirem poupar uma parte do seu salário poderão fazer uma reserva para sua fase de aposentadoria. Com os baixos salários que temos hoje no Brasil e com quatro em cada dez trabalhadores no país no mercado informal, pouquíssimos brasileiros poderão ter uma aposentadoria no futuro. E o Estado brasileiro resolveu abandonar essa parcela da população porque, simplesmente, o regime de repartição com a contribuição do trabalhador, da empresa e do governo acabaria. Este modelo do governo Bolsonaro, inspirado na reforma da Previdência do Chile da década de 1980 durante a ditadura Pinochet, será um desastre para o povo brasileiro.

A reforma da Previdência não vai resolver o problema do déficit público como demonstramos, muito pelo contrário, porque o sistema de capitalização vai reduzir as receitas da Previdência Social e provocar um déficit no regime geral, de repartição, que vai continuar existindo porque há aposentados que pertencem a esse regime. O grande beneficiário na reforma da Previdência Social é o sistema financeiro. A reforma da Previdência Social reduz a proteção ao trabalhador, a garantia de renda no futuro e transfere recursos públicos para os bancos privados. Essa proposta não oferece nenhum ganho para a sociedade. Quem ganha com esta proposta são os bancos. Um país civilizado não pode abrir mão de um sistema de proteção social. O governo não pode entregar para o capital especulativo a responsabilidade de lidar com a aposentadoria dos trabalhadores. Quem tem filhos, netos e bisnetos precisa lutar para impedir que a reforma da Previdência Social do governo Bolsonaro seja aprovada pelo Congresso Nacional e exigir que seja adotada uma política econômica que reative o crescimento econômico, faça auditoria da dívida pública com a redução dos encargos com o seu pagamento e exigir o pagamento da dívida pelos grandes devedores da Previdência Social.

*Fernando Alcoforado, 79, detentor da Medalha do Mérito do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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