Fernando Alcoforado*
Contra os fatos e a própria história, Bolsonaro e Ernesto Araújo, seu incompetente ministro do Exterior, insistem em afirmar que o nazismo é de esquerda. A verdadeira explicação para este posicionamento de Bolsonaro e seu ministro do Exterior reside no fato de eles, como extremistas de direita que sempre foram associados ao nazismo e ao fascismo, procurarem deliberadamente evitar serem classificados como nazistas ou fascistas cuja trajetória ao longo da história não tem sido das mais exemplares. É sabido por todos aqueles que conhecem a história do nazismo como movimento político de extrema direita que ele é sinônimo de ditadura, barbárie, genocídio, guerra, entre outros crimes contra a humanidade por ele praticado. O nazismo e o fascismo como movimento político de extrema direita são, historicamente, a antítese do socialismo e do comunismo como movimento de extrema esquerda como será demonstrado nos próximos parágrafos.
É preciso observar que Esquerda e Direita são uma forma comum de classificar posições políticas, ideológicas, ou partidos políticos. Esses termos surgiram com o advento da Revolução Francesa. Na França, durante o reinado de Luis XVI, os membros do Terceiro Estado que não faziam parte do clero (Primeiro Estado) nem da nobreza (Segundo Estado) se sentavam à esquerda do rei enquanto os do clero e da nobreza se sentavam à direita. Os mais radicais que normalmente eram contra as decisões do rei ficaram conhecidos como a esquerda enquanto os favoráveis às decisões eram os de direita. Uma diferença fundamental entre esquerda e direita é a de que a primeira é defensora intransigente da igualdade e a direita não. A esquerda acredita que a maior parte das desigualdades é social e, enquanto tal, eliminável e a direita acha que a maior parte delas é natural e, portanto, não eliminável.
O confronto entre a direita e a esquerda atingiu as culminâncias em todo o mundo com o advento da Revolução Russa em 1917, a constituição do bloco de países socialistas no leste europeu e a luta de libertação nacional que levou à descolonização ocorrida em vários países da periferia capitalista após a 2ª Guerra Mundial, a Revolução Chinesa em 1949, a Revolução Cubana em 1959 e a Guerra do Vietnam. Na União Soviética, nos países do leste europeu, na China, em Cuba e no Vietnam foram implantados sistemas socialistas com a estatização dos meios de produção e o exercício do poder político exclusivamente pelo Partido Comunista dando início à ditadura do proletariado com características totalitárias de poder.
O principal objetivo dos movimentos de esquerda era o de substituir o capitalismo pelo socialismo seja através de reformas ou de revoluções sociais visando acabar com a exploração do homem pelo homem que caracteriza a sociedade capitalista. Alguns movimentos de esquerda pugnaram pela construção do socialismo democrático ou social democracia e outros com a implantação de ditaduras de partido único. Diferentemente dos movimentos de esquerda, anticapitalistas, o nazismo e o fascismo implantados, respectivamente, ma Alemanha e na Itália, mantiveram o sistema capitalista e contaram com o apoiodas classes dominantes no avanço da barbárie que caracterizou a devastadora 2ª Guerra Mundial.
O avanço do comunismo, isto é, movimento político de esquerda, no final do século XIX e início do século XX fez com que desse nascimento ao fascismo, movimento de extrema direita, na Itália, para combatê-lo. O fascismo representou uma reação das forças conservadoras da Europa contra a ascensão dos trabalhadores ao poder em vários países após a vitória do socialismo na União Soviética em 1917 e se baseava em concepções fortemente nacionalistas e no exercício totalitário do poder, portanto contra o sistema democrático e liberal, e repressivo ante as ideias socialdemocratas, socialistas e comunistas. O fascismo é um movimento político que surgiu na Itália após a Primeira Guerra Mundial, na década de 1920, sob a liderança de Benito Mussolini. Além do regime de Mussolini na Itália, são considerados fascistas os da Alemanha de Adolf Hitler e da Espanha de Francisco Franco, entre outros, que se estabeleceram entre a 1ª e a 2ª Guerra Mundial, na década de 1930.
O fascismo implantado durante as décadas de 1920 e 1930 do século XX se baseava em um Estado forte, totalitário, que se afirmava encarnando o espírito do povo, no exercício do poder por um partido único cuja autoridade se impunha através da violência, da repressão e da propaganda política. O líder fascista é uma figura que está acima dos homens comuns. Mussolini era denominado como Il Duce, que deriva do latim Dux (General) e Hitler de Fuehrer (Condutor, Guia, Líder, Chefe). Ambos eram lideranças messiânicas e autoritárias, com um poder que era exercido de maneira unilateral sem consulta a quem quer que seja. Na Alemanha, o fascismo recebeu a denominação de nazismo. Este movimento teve também um forte componente racial, que promulgava a superioridade da raça ariana e procurava exterminar os judeus, os ciganos, os negros, os democratas e comunistas.
O fascismo se caracterizou também pelo nacionalismo agressivo, militarismo e imperialismo a serviço das classes dominantes, pelo culto do chefe, pelo anticomunismo e pela ditadura. Para colocar em prática os seus princípios, foram ignorados os direitos individuais dos cidadãos, o Parlamento foi transformado num simples orgão consultivo e foi criada a polícia política que esmagava toda a oposição ao regime. O fascismo serviu de modelo a diversas outras ditaduras que se implantaram na Europa no período entre as duas Guerras Mundiais, entre as quais as ditaduras de Franco na Espanha e de Salazar em Portugal, razão pela qual o fascismo passou a se enquadrar também como regime ditatorial totalitário de extrema direita.
Na era contemporânea, a crise econômica do sistema capitalista mundial que eclodiu em 2008 nos Estados Unidos levou a União Europeia à estagnação econômica com graves consequências políticas e sociais. Esta crise deu origem ao fortalecimento de partidos políticos de extrema direita em vários países. A ascensão dos partidos de extrema direita acontece em boa parte da Europa. Com inclinações nazifascistas ou nacionalistas, a maioria desses partidos defende o fim da União Europeia, o fim do Euro, o fortalecimento da unidade e identidade dos países, políticas mais radicais contra imigrantes, criticam o resgate financeiro de países em crise, são contra direitos de homossexuais, aborto, liberalismo e globalização, e combatem o que chamam de islamização.
Em 2017 aconteceram eleições presidenciais para países chave da União Europeia, como a França, a Alemanha e a Holanda. Nesses três países, os partidos de extrema direita foram derrotados, mas tiveram nítido crescimento em relação aos anos anteriores. Marine Le Pen, a candidata à presidência da França, ficou em segundo lugar. Ela faz parte de um movimento anti-União Europeia. Na Alemanha, o partido Alternativa para Alemanha tornou-se a terceira maior força política no parlamento alemão. E na Holanda, o Partido para a Liberdade ficou em segundo lugar no pleito. Além dos países chave, em outros países da União Europeia também observam-se fenômenos semelhantes. Polônia, Hungria e Itália, por exemplo, são países cujos governos são considerados de ultradireita; e na Grécia, o partido Aurora Dourada é avaliado por especialistas como neonazista.
O fascismo emerge nos Estados Unidos em busca de algum tipo de renovação nacionalista com Donald Trump. O fascismo surgiu nos Estados Unidos diante de uma crise econômica insuperável como a atual, de comprometimento do american way of life e de perda de sua hegemonia mundial para a China. Essa visão foi abraçada completamente pelo Partido Republicano que agora se define nessa linha. O renascimento do fascismo sob o comando de Donald Trump nos Estados Unidos resultou, fundamentalmente, de seu declinio econômico e da perda de sua hegemonia na cena mundial em um prazo temporal muito curto.
No Brasil, o nazi-fascismo está explícito no discurso de Bolsonaro que é baseado no culto da ordem, na violência do Estado, em práticas autoritárias de governo, no desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados e no anticomunismo. O nazi-fascismo representado por Bolsonaro está na opressão, no machismo, na homofobia, no racismo, no ódio aos pobres. A História nos diz que, uma vez no poder, os nazifascistas podem destruir os últimos vestígios de um governo democrático no Brasil com ataques ao parlamento e ao poder judiciário como já está acontecendo. No Brasil contemporâneo, Jair Bolsonaro adota o neoliberalismo diferentemente do estatismo de Mussolini e Hitler, fato este que não impede de qualificá-lo como nazifascista porque não existe uma única fórmula para o nazi-fascismo como alguns imaginam. Não necessariamente o nazi-fascismo é estatizante e nacionalista como ocorreu na Itália com Mussolini e na Alemanha com Hitler. O que caracteriza todo nazi-fascismo em todas as suas variantes é, fundamentalmente a ditadura, o racismo, o anticomunismo, a perseguição a minorias e a colocação do governo nazifascista a serviço das elites econômicas e financeiras. O autoritarismo e o totalitarismo são componentes de toda ditadura nazifascista.
*Fernando Alcoforado, 79, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, Sócio Benemérito da AEPET- Associação dos Engenheiros da Petrobras, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).