Fernando Alcoforado*
A República de Weimar foi o período da história alemã compreendido entre os anos de 1919 e 1933, entre o fim da 1ª Guerra Mundial e a ascensão do partido nazista ao poder. A existência da República de Weimar pode ser dividida em três fases: uma fase de instabilidade política e econômica, entre 1919 e 1923; uma fase de recuperação e estabilização, entre 1923 e 1929; e uma nova fase de crise, decorrente da quebra da Bolsa de Nova Iorque e com a ascensão do nazismo, entre 1929 e 1933.
A Nova República corresponde no Brasil ao período compreendido entre os anos de 1985 com o fim da ditadura militar até o momento presente. A existência da Nova República pode ser dividida em três fases: uma fase de instabilidade econômica caracterizada por baixo crescimento econômico e taxas elevadas de inflação entre 1985 e 1994 que foram superadas com a implantação do Plano Real de estabilização da economia; uma fase de recuperação e estabilização econômica, entre 1994 e 2014 com a adoção do modelo econômico neoliberal de abertura da economia; e uma nova fase de crise a partir de 2014 caracterizada por queda vertiginosa no crescimento econômico e aumento da inflação e do desemprego, decorrente do esgotamento do modelo econômico neoliberal.
Na Alemanha, a 1ª fase da República de Weimar (1919-1923) envolveu discussões políticas sobre a aceitação ou não do Tratado de Versalhes em 1919 que impôs pesadas penalidades ao país resultantes da 1ª Guerra Mundial. Formou-se um governo provisório com os líderes do Partido Social Democrata Alemão (SPD) e do Partido Social Democrata Alemão Independente (USPD). Em janeiro de 1919, realizaram-se eleições para a Assembleia Constituinte quando foi promulgada a Constituição em julho de 1919 que transformou a Alemanha em uma República Parlamentarista de cunho liberal, sendo formada pelo Reichstag (Parlamento) e pelo Reichsrat (assembleia dos representantes dos estados, de caráter consultivo). Na chefia da República estava o Presidente e também o Chanceler (primeiro-ministro).
Paralelamente a esse arranjo institucional, ocorreu a Revolução Alemã de 1918-1919. Com o objetivo de formar uma República Socialista baseada em sovietes, como o que havia ocorrido na Rússia em 1917, soldados e trabalhadores alemães tentaram tomar o poder em Berlim, organizando-se em conselhos. A Liga Espartaquista, uma dissidência do Partido Comunista Alemão (KPD), liderava as ações, tendo como principais nomes os comunistas Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Apesar da força popular, eles não conseguiram conter a reação do Governo Provisório, comandado pelo SPD, que convocou o exército para derrotar a revolução. O esmagamento das forças revolucionárias se deu na Renânia, na Baviera e, principalmente, em Berlim. Vários líderes foram presos e executados, inclusive Luxemburgo e Liebknecht.
A economia alemã neste período caracterizou-se pela hiperinflação e grande número de desempregados. A hiperinflação beneficiava apenas alguns grupos econômicos, como grandes indústrias, mas afetava diretamente as condições de vida dos assalariados. Ainda no aspecto político, esta primeira fase foi extremamente conturbada, com uma série de tentativas de golpe de Estado pelas forças ligadas ao antigo regime comandado pelo Kaiser Guilherme II. Os operários organizaram ainda várias greves entre 1921 e 1922, exigindo a nacionalização das minas e bancos, além de melhorias nas condições de trabalho. A insatisfação com a situação econômica levou também no surgimento do Partido Nazista. Baseado em um ideário nacionalista, antiliberal, anticomunista, formando grupos paramilitares, culpando os judeus ligados ao capital financeiro pelos problemas econômicos alemães e liderados por Adolf Hitler, os nazistas tentaram dar um golpe de estado em Munique, na Baviera, em 1923, mas não obtiveram sucesso.
No Brasil, na 1ª fase da Nova República (1985-1994) houve a eleição de Tancredo Neves de forma indireta pelo Colégio Eleitoral (Congresso Nacional) em 1984 que faleceu antes de assumir o governo abrindo caminho para o Vice-Presidente José Sarney. Em 1987 e 1988, realizou-se a Assembleia Constituinte cuja Constituição foi promulgada em setembro de 1988 que transformou o Brasil em uma República Presidencialista de cunho liberal. No Brasil, não houve tentativas de revolução nem de golpes de estado nesta fase como ocorreu na Alemanha, mas a economia brasileira caracterizou-se pela estagnação Em 1990, foi eleito pela via direta Fernando Collor de Melo como presidente da República que deu início à implantação do modelo econômico neoliberal, foi mal sucedido na adoção de dois planos econômicos de estabilização da economia para combater a inflação e foi deposto por impeachment devido à corrupção. Collor de Melo foi substituído por Itamar Franco, seu Vice-Presidente que, com o Plano Real estabilizou a economia brasileira mantendo a inflação sob controle e deu continuidade à implantação do modelo econômico neoliberal de abertura da economia.
Na Alemanha, na 2ª fase da República de Weimar (1923 e 1929), o país vivenciou um período de estabilidade política e econômica. Com a aproximação junto aos grupos capitalistas estadunidenses, que passaram a investir diretamente na Alemanha, a estabilidade econômica alcançada melhorou os salários dos trabalhadores, além de diminuir as taxas de desemprego. Porém, como estes investimentos atrelavam a economia alemã à bolsa de Nova Iorque, a crise de 1929 atingiu em cheio a Alemanha. O atrelamento da economia alemã à dos Estados Unidos foi determinante para sofrer o impacto do “crack” da Bolsa de Nova Iorque. Idêntico efeito, sofreu o Brasil em 1929 cuja economia foi à bancarrota porque dependia da exportação do café para o mercado mundial.
No Brasil, na 2ª fase da Nova República (1994 e 2014), o País vivenciou um período de estabilidade política e econômica nos governos Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff (1º mandato presidencial). Durante esta fase, foi adotado o modelo econômico neoliberal de abertura da economia ao capital internacional e de liberalização das importações, de privatizações e desnacionalização de empresas estatais e de controle da inflação. O resultado desta política econômica foi desastrosa para o Brasil porque, apesar do êxito no controle da inflação, o País alcançou níveis baixíssimos de crescimento econômico, sofreu processo de desindustrialização e desnacionalização do País, além de ter aumentado a vulnerabilidade do Brasil em relação ao exterior graças à sua dependência econômica e tecnológica. O esgotamento do modelo econômico neoliberal contribuiu para a eclosão da crise recessiva em 2014 e está levando o Brasil à depressão econômica com a quebradeira de empresas, a crise fiscal do governo e o desemprego em massa.
Na Alemanha, na 3ª fase da República de Weimar (1929-1933), a crise de 1929 levou a economia alemã à bancarrota com hiperinflação resultando em um grande número de desempregados, que chegou a 5 milhões de trabalhadores. Esta situação levou ao descrédito antigos grupos políticos, como os socialdemocratas, abrindo o caminho nas eleições de 1932 para a ascensão dos nazistas. Nas ruas os conflitos entre nazistas e comunistas eram constantes. Com o apoio de capitalistas industriais, que se opunham aos comunistas, os nazistas se aproveitaram da crise política no Reichstag e fizeram Hitler o Chanceler da Alemanha, em 1933. Com o incêndio do Reichstag sendo apontado como ação dos comunistas, Hitler pôs na ilegalidade o KPD e depois o SPD. A morte do presidente Hindenburg, em 1934, tornou Hitler o chefe único do Estado, o Führer, iniciando desta forma a organização do Terceiro Reich. Em 30 de janeiro de 1933, Hitler assumia o poder na Alemanha, dando fim à República de Weimar – o experimento democrático alemão entre 1919 e 1933. As conseqüências da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha foram nefastas para o povo alemão e para a humanidade como são do conhecimento de todos os estudiosos de história.
No Brasil, na 3ª fase da Nova República (2014-2019), a crise de 2014 levou a economia brasileira à bancarrota resultando em gigantesca crise fiscal, quebradeira de empresas e grande número de desempregados, que alcançou 14 milhões de trabalhadores e 28 milhões de trabalhadores subutilizados. À crise econômica somou-se à incapacidade dos governantes e dos poderes constituídos da nação em combater a corrupção que se tornou endêmica no Brasil. Esta situação levou ao descrédito antigos partidos políticos, como o PSDB e PT, e velhas lideranças políticas como FHC e Lula, abrindo o caminho nas eleições de 2018 para o surgimento de novos partidos, como o PSL e o Novo, e novas lideranças como Bolsonaro. Tudo isto abriu caminho para o surgimento do candidato, Jair Bolsonaro, com uma visão messiânica e proposta tipicamente neofascista que se apresentou como “salvador da pátria” e foi eleito presidente da República em 2018. Após sua eleição, Bolsonaro tem procurado colocar em prática seu projeto neofascista de governo na economia e nas áreas de educação, meio ambiente, combate ao crime, entre outras, além de incitar a população com o ato programado para o dia 26 de maio próximo visando o fechamento do Congresso Nacional acusado de ser contra a “nova política” e do Supremo Tribunal Federal de ser conivente com os corruptos. Apesar dos defeitos do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, os verdadeiros democratas precisam se convencer de que é preferível tê-los como instituições garantidoras da democracia à ditadura que virá se Bolsonaro tiver sucesso no seu propósito como teve Hitler na Alemanha.
*Fernando Alcoforado, 79, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).