POR QUE O BRASIL NÃO CRESCE ECONOMICAMENTE?

Fernando Alcoforado*

O crescimento econômico de um país ou região é medido com base na fórmula seguinte:

PIB= C + I + G + X – M

Sendo PIB= Produto Interno Bruto

C= Consumo das famílias

I= Investimento privado e público na atividade produtiva (agricultura, indústria e serviços) e na infraestrutura econômica (energia, transporte e comunicações) e social (educação, saúde, habitação e saneamento básico)

G= Despesa do governo

X= Receita com exportação

M= Despesa com importação

De acordo com a fórmula acima, o PIB poderá crescer desde que ocorra o crescimento do consumo das famílias (C), do investimento (I), da despesa do governo (G) e da receita com exportação (X) e haja redução na despesa com importação (M).

A contração de 0,2% do PIB no 1º trimestre de 2019, o primeiro recuo desde 2016, demonstra, de um lado, a incompetência do governo Bolsonaro em não adotar as medidas exigidas para elevar o consumo das famílias (C) e incrementar o investimento público e privado (I). Uma das causas da contração do PIB do Brasil reside no fato de o consumo das famílias (C) que representa 66% do PIB ter crescido apenas 0,5% no 1º trimestre de 2019 em relação ao último trimestre de 2018, mas desacelera afetado negativamente pelo desemprego em massa que atinge a população brasileira.

Enquanto isto, o governo acumula déficits públicos crescentes devido à queda na arrecadação de impostos resultante da queda do PIB. Os investimentos, por sua vez, caem pelo 2º trimestre seguido devido à queda do consumo das famílias e do crescimento econômico. A alta do dólar, que encarece as importações de máquinas e equipamentos, e a construção civil, que já vinha enfrentando dificuldade para se recuperar, afetaram negativamente os investimentos, que desaceleraram. A incompetência do governo Bolsonaro em reativar a economia brasileira se explica pelo fato de seu ministro da economia, Paulo Guedes, ser um fundamentalista neoliberal, que não admite que o Estado atue como indutor do crescimento econômico e centrar seu esforço na reforma da Previdência Social como estratégia para superar a crise cujos resultados não acontecerão a curto prazo.  A crise atual exige soluções que produzam resultados imediatos.

A solução para elevar o consumo das famílias consiste em adotar medidas que contribuam para a superação do desemprego em massa da ordem de 14 milhões de trabalhadores. Uma das razões para a desaceleração do consumo vem do mercado de trabalho. À medida que a demanda de bens e serviços cresce menos, as empresas precisam de menos contratações. O país tem dificuldade para criar novas vagas, especialmente com carteira assinada. Os novos empregos que surgem ocorrem por meio do trabalho precário informal e do trabalho autônomo. Desde fevereiro de 2015, o trabalho com carteira assinada regride. O aumento da informalidade, ainda que represente alguma geração de emprego, também impede o aumento do consumo, já que o risco do trabalhador em ser demitido é maior. Se a renda sobe menos, o crédito também não alavanca o consumo mesmo com taxas de juros mais baixas. PIB menor significa, portanto, taxa de desemprego maior.

Para o sistema econômico brasileiro gerar os empregos necessários à população economicamente ativa é preciso que, como primeira medida, o governo Bolsonaro execute de imediato um amplo programa de investimentos em obras públicas de infraestrutura econômica (energia, transporte, comunicações) e social (educação, saúde, habitação, saneamento básico) com parceria público-privada para elevar os níveis de emprego e renda da população e, em consequência, promover a expansão do consumo das famílias resultante do aumento da massa salarial e a renda das empresas com os investimentos em infraestrutura. O governo federal deve tomar a iniciativa em investir em obras públicas de infraestrutura que demanda recursos da ordem de R$ 2,5 trilhões. Os investimentos em infraestrutura contribuiriam, também, para reativar o setor industrial e o setor de serviços. Como o governo federal se defronta com uma grande crise fiscal deve executar essas obras em conjunto com o setor privado com base na PPP (parceria público-privada).

Os recursos para os investimentos do governo federal deveriam ser viabilizados com a suspensão do pagamento da dívida pública (R$ 3,87 trilhões) por um determinado período ou com a renegociação do pagamento desta dívida (R$ 343 bilhões em 2018) com os credores visando a redução dos encargos com seu alongamento, haja vista que quase metade do orçamento do governo é destinado ao pagamento de juros e amortização da divida pública. Esta seria a solução para o incremento do investimento público na economia brasileira que contribuiriam para elevar o consumo das famílias, promover o crescimento do PIB a curto prazo e elevar a arrecadação de impostos e conseqüente superação da crise fiscal atual. Além do programa de obras públicas de infraestrutura, o governo Bolsonaro deveria elaborar um plano econômico de longo prazo que contribua para a retomada do desenvolvimento do Brasil que apresente para a população e para os setores produtivos uma perspectiva de superação da crise atual e de retomada do crescimento econômico.

Para fazer frente à contração atual do PIB, o governo Bolsonaro pretende incentivar o consumo com a liberação do FGTS para os trabalhadores que seria insuficiente para alavancar a economia brasileira. É preciso observar que uma expansão econômica totalmente baseada no consumo como aquela que ocorreu durante os governo FHC, Lula e Dilma Rousseff com baixo nível de investimentos, é uma medida que pode funcionar apenas no curto prazo.  Não foi por acaso que foi baixo o crescimento econômico considerado “voo de galinha” durante esses governos.  Para crescer no longe prazo, é necessário, entretanto, haver acumulação de capital, e a acumulação de capital requer investimentos, que, por sua vez, necessita de poupança pública e privada. A debilidade da economia brasileira não é uma grande surpresa. Mais um “voo de galinha” não seria uma exceção, mas sim a regra do modelo neoliberal adotado no Brasil desde 1990.

Crescimento econômico sustentado requer acumulação de capital, que por sua vez requer investimentos, sendo que investimentos requerem poupança.  A baixa taxa de poupança do Brasil não é um fenômeno recente, mas sim uma característica típica da economia brasileira há bastante tempo, fato este que vem contribuindo para aumentar a dependência do Brasil de capitais externos.  Enquanto países emergentes que decolaram em termos de desenvolvimento econômico apresentam taxas de poupança e de investimentos na faixa de 30 % e 40 % do PIB, como a Coreia do Sul, Taiwan e China, a taxa de poupança brasileira sempre esteve abaixo de 20%. Com taxas de investimento tão baixas como as do Brasil, o País está destituído dos fundamentos necessários para um progresso econômico sólido de longo prazo.

Intimamente relacionada à pequena acumulação de capital — em decorrência da baixa poupança — está a produtividade da economia brasileira.  Entre 17 países da América Latina, o Brasil ocupa o 15º lugar em produtividade e no plano mundial, o País está na 75ª posição entre 122 países.  O Brasil precisa de uma estratégia de desenvolvimento econômico de longo prazo, direcionada para o aumento da produtividade.  Porém, isto requer acumulação de capital e inovação — algo que é impossível de se obter sem altas taxas de poupança e investimentos.  Em todos os setores da economia em que os agentes econômicos necessariamente se pautam por um horizonte de tempo maior — como poupança e investimento, infraestrutura, inovação e educação —, há uma total paralisia.  O Brasil sofre com uma péssima infraestrutura, o fraco desempenho em inovação e o ineficaz sistema educacional.

Além das ações propostas visando o aumento do consumo e dos investimentos, o governo federal deveria traçar estratégias para fazer frente ao impacto sobre o País da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China elaborando um consistente programa de incremento das exportações de produtos brasileiros para os quais  a China aplica sobretaxa aos Estados Unidos como soja, carne bovina e algodão e delineando estratégias para lidar com o cenário de  previsível queda do crescimento econômico mundial resultante do conflito comercial. É importante incrementar as receitas de exportação para obter uma balança comercial superavitária e contribuir para o crescimento econômico do Brasil. As exportações brasileiras poderiam ser beneficiadas no médio prazo, já que a desvalorização do Real deixa os produtos brasileiros mais baratos em dólar. O dólar mais caro tem impacto negativo sobre a indústria, já que aumenta o preço das importações e dificulta, por exemplo, a compra de máquinas e equipamentos lá fora.

Pelo exposto, o que falta no Brasil para promover o crescimento econômico e superar o problema do desemprego é o planejamento governamental que inexiste no governo Bolsonaro graças à sua incompetência e, também, de sua equipe econômica.

*Fernando Alcoforado, 79, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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