A FORMAÇÃO REQUERIDA PARA O ENGENHEIRO NO SÉCULO XXI

Fernando Alcoforado*

AbstractThis article was written with the aim of pointing out the changes required in the training of the engineer in the 21st century.Ouvir

ResumoEste artigo foi elaborado com o objetivo de apontar as mudanças requeridas na formação do engenheiro no século XXI.

KeywordsProposals for changes in the teaching of Engineering; The training required for the engineer in the 21st century.

Palavras chavePropostas de mudanças no ensino da Engenharia; A formação requerida para o engenheiro no século XXI.

  1. Introdução

Este artigo foi elaborado com o objetivo de apontar as mudanças requeridas na formação do engenheiro no século XXI.  Um dos objetivos do sistema de educação é o de planejar a preparação e a reciclagem das pessoas para o mercado de trabalho. Compete aos planejadores dos sistemas de educação identificar o papel dos engenheiros em um futuro com máquinas inteligentes para realizar uma ampla revolução no ensino da engenharia contemplando a qualificação dos professores e a estruturação das unidades de ensino para prepararem seus alunos para um mundo do trabalho em que os engenheiros terão que lidar com máquinas inteligentes. Os programas de ensino de Engenharia devem ser profundamente reestruturados para atingirem esses objetivos.

Neste artigo são apresentados os pressupostos metodológicos do ensino de engenharia no século XXI. De início, questiona o ensino clássico da engenharia que tem sido desenvolvido em um único eixo – o conteúdo. A educação sob a ótica do ensino clássico é vista como transmissão de conhecimento. Dentro do contexto que se desenhou para o próximo século, não se justifica limitar a educação à mera transmissão de conhecimentos, seja porque o conteúdo pode ser acessado por outros meios que não a exposição do professor em sala de aula, seja porque os conteúdos tem validade limitada pela rapidez com que novos conhecimentos são gerados. Conclui-se que novos eixos devem ser adicionados ao enfoque pedagógico. Além da questão de “o que ensinar?”(conteúdo), deve-se enfatizar o “ como ensinar?”( metodologia), e “onde ensinar?”( espaço de aprendizagem).

  1. As mudanças necessárias no ensino da Engenharia

Na questão do conteúdo é preciso reconhecer que não é possível ensinar tudo. Então, ensinar os alunos a aprenderem novos temas por conta própria parece ser mais razoável do que simplesmente tentar depositar conhecimentos em suas mentes. Desenvolver habilidades de comunicação, expressão oral e escrita, trabalho em grupo, aprendizado de línguas estrangeiras, parece ser uma tendência crescente na estruturação dos novos currículos de engenharia. No tocante à metodologia, por outro lado, é preciso romper com a ideia de se ensinar ciência básica antes das disciplinas técnicas. Tal atitude já se mostrou ineficaz, pois os conceitos matemáticos e físicos, por exemplo, são abordados, via de regra, sem conexão com a prática da engenharia. A ideia é focar o conteúdo relacionando-o com problemas do mundo real e desenvolver o conhecimento teórico, a partir de um problema prático, no qual os alunos possam aprender fazendo e participando ativamente do processo.

A escola tradicional sem perceber criou uma aberração. Separou o ensino em teoria e prática, ao criar salas de aula para teoria e laboratórios, para a prática. Não é de se espantar que os alunos tenham tanta dificuldade para relacioná-las, já que se aos seus olhos tudo se passa sem relação tempo-espacial. É preciso transformar as salas de aula em um atelier renascentista, isto é, um espaço de convivência, onde o fazer e a reflexão sobre o fazer podem acontecer ao mesmo tempo. O espaço de aprendizagem deve ser um ambiente onde a prática e a teoria possam ser desenvolvidas de maneira paralela, complementar, em forma de uma praxis. Em um ambiente assim, o trabalho em grupo, o desenvolvimento das habilidades de relacionamento interpessoal poderão acontecer e a interdisciplinaridade deixa de ser discurso teórico para se tornar realidade concreta. A proposta colocada aqui trata de transformar a sala de aula em uma oficina de trabalho, dotada de recursos para que os alunos possam investigar e construir o seu próprio entendimento. O papel do professor neste contexto é o de um orientador do processo de construção do saber.

  1. Conclusões sobre a formação requerida para o engenheiro no século XXI

Foram analisadas as propostas de mudanças no ensino da engenharia no Brasil apresentadas nos artigos O perfil desejável do engenheiro para o século XXI de Jarbas Milititsky, O engenheiro dos novos tempos e as novas pautas educacionais de Maria Candida Moraes, O engenheiro do século XXI: o profissional de uma nova renascença? de Marcos Banheti Rabello Vallim e O ensino de Engenharia no Brasil do século 21 de José Sérgio dos Santos.

Dessas propostas, constata-se que o perfil do engenheiro para o Século XXI deveriam ter as características seguintes: 1) boa base de fundamentos de ciência da engenharia; 2) entendimento de processos e projetos; 3) entendimento do contexto social, econômico,  político e ambiental no qual é praticada a engenharia; 4) capacidade de comunicação; 5) habilidade de pensar de forma criativa e crítica, de forma independente e cooperativa; 6) flexibilidade, habilidade e autoconfiança para adaptação a mudanças grandes e rápidas; 7) curiosidade e desejo de aprender por toda a vida; e, 8) capacidade de trabalhar em equipe. Os engenheiros do século XXI deveriam ter: 1) capacidade de síntese; de formulação, análise e solução de problemas, compreendendo que a própria formulação faz parte da solução do problema; 2) compreensão de sistemas complexos e incertezas; 3) sensibilidade em relações interpessoais e domínio de línguas, sem falar no respeito às diferenças culturais, dentro do país e entre outros países; e, 3) iniciativa, capacidade para gerir, tomar decisões, dominar tecnologias inteligentes e criar oportunidades.

A formação do engenheiro que vai viver e trabalhar no Século XXI deve atentar obrigatoriamente para custos, prazos, qualidade, segurança, cuidados com repercussões sociais e ambientais dos projetos. Isto quer dizer que o engenheiro não pode mais considerar soluções puramente técnicas. O aluno tem que estar cercado por técnicas que desenvolvam sua capacidade de comunicação e de trabalho em equipe, de participação em grupos para solução de problemas. Tudo isso através de uma interação com as empresas, regular e planejada. E, evidentemente, com a consciência bem explícita da necessidade de educação continuada. O engenheiro do Século XXI estará em processo de formação permanente, ao longo de toda sua vida. E para isso é preciso que seu aprendizado seja ativo, unindo teoria e prática, com uso intenso dos laboratórios e integração às atividades de pesquisa, principalmente aquelas feitas com base em casos reais da indústria.

O papel da Universidade – e o da Escola de Engenharia – não poderá ser outro senão o de construir a capacidade para o aprendizado contínuo e permanente dos seus egressos. Além de tomar a si a fantástica responsabilidade de suprir a demanda por retreinamento de um contingente de profissionais que estão no mercado e precisam de atualização sistemática e constante. As Escolas de Engenharia devem estreitar as relações com as empresas de projetos e obras, bem como indústrias para colaborar no esforço de formação dos engenheiros do século XXI. A Universidade tem que ter bons e motivados professores, boas instalações e condições para oferecer uma educação adequada. Tem que ter condições de propiciar a aprendizagem e a inovação contínua de seu corpo docente e de seus técnicos, sejam eles de apoio ou administrativo.

Em janeiro de 1998, a Escola Politécnica de Engenharia da USP (POLI/USP) encomendou uma pesquisa junto às empresas do estado de São Paulo, financiada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), visando conhecer o perfil profissional ideal do novo engenheiro que estaria sendo requerido pelo mercado de trabalho do ano 2002. O universo pesquisado foi constituído de 17.518 estabelecimentos comerciais do estado de São Paulo, e a pesquisa foi realizada de dezembro de 1997 a janeiro de 1998. Nas conclusões do referido relatório solicitado pela POLI/USP, observou-se que, de um conjunto de 72 características, os 10 atributos mais valorizados pelo mercado de trabalho obtiveram o seguinte destaque:

1º – indivíduo comprometido com a qualidade no que faz

1º – habilidade para trabalhar em equipe

2º – habilidade para conviver com mudanças

3º – visão clara do papel cliente consumidor

3º – iniciativa para tomadas de decisões

3º – usuário das ferramentas básicas de informática

4º – domínio do inglês

5º – fiel para a organização em que trabalha

6º – valoriza a ética profissional

6º – ambição profissional/vontade de crescer

7º – capacitado para o planejamento

7º – visão das necessidades do mercado

8º – valoriza a dignidade/tem honra pessoal

9º – visão do conjunto da profissão

9º – habilidade para economizar recursos

10º – preocupado com a segurança no trabalho

10º – habilidade para conduzir homens

Alguns atributos obtiveram a mesma pontuação e foram classificados de acordo com os dados apresentados acima.

Das propostas sobre o perfil do engenheiro no século XXI acima citadas fica a recomendação de que é preciso repensar o currículo do curso de Engenharia, transformá-lo em algo com um pouco mais de sentido e com maior compromisso com as necessidades humanas. Um currículo onde tudo esteja relacionado, recursivamente interconectado, em processo de transformação.

Observação: Este texto serviu de base para sugestões apresentadas pelo autor deste artigo na audiência pública realizada no Clube de Engenharia no Rio de Janeiro no dia 21/11/2018 sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Engenharia no Brasil.

BIBLIOGRAFIA

ALCOFORADO, Fernando. A revolução necessária ao sistema de educação do Brasil. Disponível no website <https://www.academia.edu/30431049/A_REVOLU%C3%87%C3%83O_NECESS%C3%81RIA_AO_SISTEMA_DE_EDUCA%C3%87%C3%83O_DO_BRASIL>, 2016.

MILITITSKY, Jarbas. O perfil desejável do engenheiro para o século XXI, Disponível no website <https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/143092/000318634.pdf?sequence=1>, 1999.

MORAES, Maria Candida O engenheiro dos novos tempos e as novas pautas educacionais. Disponível no website <http://www.ub.edu/sentipensar/pdf/candida/ingeniero_novos_tempos.pdf>, 2015.

SANTOS, José Sérgio dos. O ensino de Engenharia no Brasil do século 21. Disponível no website <http://www.tqs.com.br/tqs-news/consulta/58-artigos/1057-o-ensino-de-engenharia-no-brasil-do-seculo-21>, 2012.

VALLIM, Marcos Banheti Rabello. O engenheiro do século XXI: o profissional de uma nova renascença? Disponível  no website <http://www.abenge.org.br/cobenge/arquivos/20/st/t/t153.pdf>.

* Fernando Alcoforado, 79, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017),  Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).

 

 

 

Unknown's avatar

Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

Leave a comment