Fernando Alcoforado*
Este artigo tem por objetivo mostrar as consequências da guerra comercial entre Estados Unidos e China sobre a economia mundial e o comércio internacional. Além disso, são delineadas as ações para o Brasil fazer frente aos impactos negativos da guerra comercial sobre a economia brasileira.
Com o argumento de que busca proteger os produtores norte-americanos e reverter o déficit comercial que os Estados Unidos têm com a China, o presidente Donald Trump vem anunciando desde 2018 a adoção de tarifas sobre produtos importados do país asiático. O objetivo é dificultar a chegada de produtos chineses aos Estados Unidos, o que estimularia a produção interna. O governo da China, por sua vez, tem reagido a esses anúncios com retaliações, chegando a impor também tarifas sobre produtos norte-americanos.
Durante a campanha eleitoral, os discursos de Donald Trump já apontavam para uma tendência protecionista, com críticas ao déficit comercial dos Estados Unidos em relação à China. Já como presidente, Trump fez o primeiro anúncio de taxas sobre produtos chineses em março de 2018. Desde então, já anunciou várias medidas e ameaçou adotar outras. A China tem respondido também com barreiras comerciais aos produtos norte-americanos e com ameaças.
Desde 2018, foram feitas algumas tentativas de acordo, mas os rompimentos de tréguas com novos anúncios e ameaças de retaliações frustraram expectativas de solução do problema. A disputa passou dos anúncios e ameaças de tarifas sobre produtos importados para o campo cambial. Em reação à adoção de nova rodada de tarifas dos Estados Unidos, a China desvalorizou fortemente sua moeda, o Yuan, e foi acusada de manipulação cambial.
Enquanto a China e os Estados Unidos estão travando sua guerra comercial, a maioria dos economistas supõe que a China não tardará de alcançar a supremacia econômica global. Afinal, com uma população quatro vezes maior do que a dos Estados Unidos e um plano econômico projetado para recuperar o atraso após séculos de estagnação tecnológica, não é inevitável que a China assuma a condição de potência econômica hegemônica no planeta.
Dificilmente se pode dizer que a ascensão da China é uma miragem. Seu rápido sucesso não se baseia unicamente no tamanho da população. A Índia, por exemplo, tem uma população semelhante (ambas são cerca de 1,3 bilhão de pessoas), mas, pelo menos por enquanto, está muito mais atrasada. A liderança econômica chinesa deve ser creditada pelo trabalho miraculoso de tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza para a condição de classe média.
O rápido crescimento da China tem sido impulsionado principalmente pelo progresso e investimento em tecnologia. A China, ao contrário da União Soviética, mostra excepcional inovação tecnológica local. Não por acaso, as empresas chinesas já estão liderando o caminho tecnológico da próxima geração de redes móveis 5G e sua capacidade é elevada para uma guerra cibernética com os Estados Unidos. As realizações da China ainda se originam, em grande parte, da adoção da tecnologia ocidental e, em alguns casos, da apropriação da propriedade intelectual.
A China está seguindo seu próprio caminho demonstrando que sistemas políticos centralizados e planejados são capazes de impulsionar mais e mais rapidamente o desenvolvimento do que sistemas baseados no livre mercado. A China pode liderar o futuro digital mesmo se os Estados Unidos fizerem a sua parte. A era iminente das máquinas inteligentes pode ser um ponto de virada a favor da China na batalha pela hegemonia global com os Estados Unidos.
Hoje, os Estados Unidos têm a maior economia do mundo e a China, a segunda. Por isso, se os dois países sofrerem consequências negativas dessa disputa, o temor é que outros países e a economia global como um todo possam ser impactados, em uma reação em cadeia, prejudicando o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) global e o comércio internacional.
Segundo o FMI, no primeiro trimestre de 2019, a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China ajudou a promover uma desaceleração acentuada nas economias emergentes da Ásia. Cadeias de fornecimento de tecnologia global foram ameaçadas pela possibilidade de os Estados Unidos imporem sanções. As tensões geopolíticas foram citadas no documento em que o FMI reduziu sua estimativa de crescimento da economia mundial para 3,2% em 2019 e 3,5% em 2020.
Os últimos acontecimentos não indicam uma solução rápida para a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. A China, que monopoliza 80% da produção mundial de terras raras, ameaça se negar a exportar para seu rival esses minerais cruciais. É importante observar que a disputa entre Estados Unidos e China vai além da questão econômica porque diz respeito a uma questão geopolítica. Estamos diante da primeira grande disputa geopolítica do século XXI, entre duas superpotências com os Estados Unidos em declínio e a China em ascensão como potência hegemônica economicamente.
Uma potência que está emergindo como a China incomoda a potência que está estabelecida e em declínio como os Estados Unidos. Esse é um problema clássico das relações internacionais. Mesmo com os ataques diretos de Trump à China, essa parece não ser uma questão individual do presidente nos Estados Unidos porque está se consolidando, também, na sociedade norte-americana a ideia de que é preciso enfrentar a China de alguma forma.
OMC avisa que comércio mundial de mercadorias se enfraquece em consequência da guerra comercial. A escalada de tensão entre China e Estados Unidos alimenta o medo de uma desaceleração global. Agravam-se assim os temores de uma freada brusca da economia global que já está ocorrendo.
A economia dos Estados Unidos corre o risco de recessão. A política tributária de Trump produziu um déficit público que tende a se elevar aumentando o rombo no orçamento americano sem precedentes, e em algum momento vai ter que ser coberto. E a guerra comercial só faz aumentar esses problemas para o governo dos Estados Unidos, por exemplo, com a concessão de subsídios para os produtores agrícolas poderem compensar prejuízos com a queda de suas exportações de seus produtos para a China.
A guerra comercial afeta a produção industrial da China que em julho deste ano cresceu 4,8% mostrando desaceleração já que a produção chinesa crescia a um ritmo de 6,3% um mês antes, em junho. Na zona do Euro, a produção industrial caiu 1,6% em julho, e a União Europeia já acumula queda de 2,6% do PIB em 2019. E o PIB (Produto Interno Bruto) da Alemanha caiu 0,1% no segundo trimestre em relação ao primeiro.
A guerra comercial produzirá impactos sobre o Brasil. China é um dos parceiros comerciais mais importantes para o Brasil. O mercado chinês é o destino número 1 dos principais produtos de exportação do Brasil: soja, petróleo e minério de ferro. Os Estados Unidos eram o segundo maior fornecedor de soja da China antes da guerra comercial, mas as importações caíram bastante após o governo chinês ter adotado tarifas de 25% sobre os produtos norte-americanos. Se a China passar a comprar menos soja dos Estados Unidos, por exemplo, pode haver um aumento da procura pelo grão brasileiro. No entanto, se a desaceleração da economia chinesa se tornar ainda maior por conta da disputa com os Estados Unidos, sua demanda por petróleo e minério se tornaria menor, o que poderia prejudicar as exportações brasileiras.
Diante deste cenário desfavorável representado pela recessão global e pela queda nas exportações, a estratégia correta do governo brasileiro deveria ser o de priorizar o desenvolvimento do mercado interno com a adoção de medidas voltadas para a reativação da economia brasileira. Antes de reativar a economia brasileira, o governo brasileiro deveria abandonar o modelo econômico neoliberal implantado em 1990 a partir do qual o governo federal abdicou do planejamento econômico nacional. O modelo neoliberal, responsável pela débâcle econômica do Brasil, deveria ser substituído de imediato pelo modelo nacional desenvolvimentista com ativa participação do Estado no planejamento econômico como ocorreu no período 1930/1980 quando o Brasil alcançou seu maior desenvolvimento econômico e social ao longo da história. Muito dificilmente o governo Bolsonaro adotaria esta medida devido a sua posição subalterna em relação aos Estados Unidos e ao capital internacional. Isto significa dizer que o Brasil, que se encontra em situação de terra arrasada, ficará em uma situação ainda pior.
O governo brasileiro deveria considerar como prioridade número 1 reativar a economia com a execução, de imediato, de um amplo programa de obras públicas de infraestrutura (energia, transporte, habitação, saneamento básico, etc) com a participação do setor privado para combater o atual desemprego em massa elevando os níveis de emprego e da renda das famílias e das empresas para, em consequência, promover a expansão do consumo das famílias e das empresas resultantes, respectivamente, do aumento da massa salarial das famílias e da renda das empresas com os investimentos em obras públicas para fazer o Brasil voltar a crescer economicamente.
* Fernando Alcoforado, 79, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).