O COLAPSO DA GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL

Fernando Alcoforado*

Este artigo tem por objetivo mostrar como surgiu a globalização neoliberal, as consequências da globalização neoliberal, os entraves à globalização neoliberal, o avanço do fascismo com a crise da globalização neoliberal e as soluções para a crise da globalização neoliberal.

Como surgiu a globalização neoliberal

O fracasso econômico do capitalismo liberal desde a Revolução Americana (1776) e Revolução Francesa (1789) até a Grande Depressão com o “crack” na Bolsa de Nova Iorque (1929), fez com que fosse adotado o Keynesianismo baseado nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes que, diferentemente do liberalismo econômico clássico adotado até então, defendia a ação do estado na economia com o objetivo de racionalizar a gestão das economias nacionais e atingir o pleno emprego tendo como principais características a intervenção estatal na economia, principalmente em áreas onde a iniciativa privada não tinha capacidade ou não desejava atuar, a defesa de ações políticas voltadas para o protecionismo econômico, contra o liberalismo econômico e defesa de medidas econômicas estatais que visassem à garantia do pleno emprego que seria alcançado com o equilíbrio entre demanda e capacidade de produção.

O Keynesianismo deixou de ser eficaz na década de 1970 explicada pela queda do crescimento econômico mundial após os denominados “anos gloriosos” (1950/1960), pelas duas crises do petróleo e pela crise da dívida de grande parte dos países do mundo que ficaram insolventes junto aos bancos internacionais.  Esta situação fez com que as forças conservadoras do Reino Unido e dos Estados Unidos sob a liderança, respectivamente, de Margaret Thatcher e Ronald Reagan levassem avante o neoliberalismo cuja doutrina econômica defendia a volta do liberalismo agora no plano mundial que significava o fim das fronteiras econômicas nacionais, a absoluta liberdade de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia, só devendo esta ocorrer em setores imprescindíveis e ainda assim em um grau mínimo. O neoliberalismo foi adotado em praticamente todo o mundo após o fim da União Soviética e do sistema socialista do leste europeu em 1989.

Os fatores que desencadearam o neoliberalismo em todo o mundo foram, de um lado, a crise do sistema capitalista mundial com o declínio do processo de acumulação do capital em escala mundial agravada com a triplicação dos preços do petróleo, literalmente o combustível do capitalismo, em 1973 e de novo em 1979, quando houve também um enorme aumento nas taxas de juros americanas, que causou, na década de 1980, a chamada “crise da dívida externa” nos países capitalistas periféricos como o Brasil. Toda a crise era demonstrada através do aumento do desemprego, da queda nos níveis de investimento e da redução da lucratividade do capital, da crise fiscal dos estados nacionais, etc. A resposta para isso foi o neoliberalismo com base no qual foram adotadas novas ideologias, novas formas de administração, de gerenciamento e de produção. A Rússia e países do Leste Europeu que adotavam o socialismo, bem como alguns países que adotavam o Estado de Bem Estar Social na Europa Ocidental como contraponto capitalista ao sistema socialista o substituíram pelo modelo neoliberal.

De modo geral, o neoliberalismo tem como princípios básicos: 1) mínima intervenção do Estado nos rumos da economia nacional; 2) política de privatização de empresas estatais; 3) pouca intervenção do governo no mercado de trabalho; 4) livre circulação de capitais internacionais e ênfase na globalização; 5) abertura da economia para a entrada de multinacionais; 5) adoção de medidas contra o protecionismo econômico; 6) desburocratização do Estado com a adoção de leis e regras econômicas mais simplificadas para facilitar o funcionamento da economia; 7) diminuição do tamanho do Estado para torná-lo mais eficiente; 8) não interferência do Estado nos preços de produtos e serviços que devem ser determinados pelo mercado com base na lei da oferta e procura; 9) controle da inflação pelo Estado através de políticas monetárias com base em metas de inflação; 10) adoção pelo Estado da política de câmbio flutuante; e, 11) obtenção de superávit fiscal para pagamento da dívida pública.

Consequências da globalização neoliberal

Com o neoliberalismo a desigualdade social chegou a níveis alarmantes em todo o mundo. Thomas Piketty demonstrou em sua obra Capital in the twenty-first century (Capital no século XXI) que houve crescimento contínuo da desigualdade de riqueza desde a década de 1970, contrária à tendência dos 60 anos anteriores e muito mais acentuada e socialmente relevante do que a desigualdade de renda. De 1970 a 2010, o 1% mais rico (classes dominantes) detinha metade de toda a riqueza mundial, enquanto o 50% mais pobres (classes populares) ficava com meros 5%. O número de bilionários, segundo Piketty, aumentou de 1.011 com uma riqueza total de 3,6 trilhões em 1970 para 1.826 com um valor agregado de 7,05 trilhões em 2010. Em 2010, esse grupo possuía praticamente o mesmo que a metade mais pobre da humanidade. Cinco anos depois, açambarca mais do que o triplo (PIKETTY, Thomas. Capital in the twenty-first century. Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2014).

O próprio FMI afirma que políticas neoliberais aumentaram as desigualdades sociais. Artigo sob o título FMI diz que políticas neoliberais aumentaram desigualdade, publicado em 2016 no website <http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/05/fmi-diz-que-politicas-neoliberais-aumentaram-desigualdade.amp>, informa que o neoliberalismo recebeu críticas de um de seus maiores defensores, o Fundo Monetário Internacional (FMI), em artigo publicado por três economistas da instituição. O artigo sugere que o receituário neoliberal, prescrito pelo próprio FMI para o crescimento econômico sustentável em países em desenvolvimento, pode ter efeitos nocivos de longo prazo. Os benefícios de algumas políticas que são uma parte importante da agenda neoliberal parecem ter sido um pouco exagerados, disseram os economistas no artigo, na edição de junho da revista Finance & Development. Além de não gerar crescimento econômico, as políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, colocando em risco uma expansão econômica duradoura. Os autores do artigo, três membros do departamento de pesquisa do FMI, disseram que a abordagem tradicional para ajudar os países a reconstruir suas economias através de corte de gastos do governo, privatização, livre comércio e abertura de capital podem ter custos “significativos” em termos de maior desigualdade. A situação catastrófica econômica e social em que se encontra o Brasil comprova a afirmativa dos autores do citado artigo.

Da mesma forma que o liberalismo adotado mundialmente até 1929, o capitalismo neoliberal adotado a partir de 1990 também fracassou economicamente com a eclosão da crise mundial de 2008 nos Estados Unidos no setor dos empréstimos hipotecários que, imediatamente, se propagou para outras partes do sistema financeiro mundial, com uma rapidez e uma amplitude que surpreenderam o mercado. O Banco de Desenvolvimento Asiático estimou que os ativos financeiros em todo o mundo podem ter sofrido uma queda de mais de US$ 50 trilhões – um número equivalente à produção global anual. O sistema financeiro amargou prejuízos em uma escala que ninguém jamais previu.

Os fatos da realidade demonstram que são poucos os países e empresas que ganham com a globalização, entre os quais, estão o sistema financeiro globalizado que aufere lucros astronômicos graças à ausência de regulamentação econômica e financeira global e poucos países como China, Índia, Coreia do Sul e outros países asiáticos que conseguem atrair investimentos estrangeiros graças à mão de obra barata e legislação nacional favorável e Alemanha pelo peso que representa na União Europeia. Em contrapartida, perdem com a globalização neoliberal países capitalistas centrais como Estados Unidos e Japão e outros países periféricos que enfrentam problemas de desindustrialização, aumento do desemprego, estagnação econômica e endividamento público crescente como o Brasil.

A falta de resposta para a crise econômica gerada pela globalização neoliberal coloca em xeque a legitimidade da União Europeia que está ameaçada de fragmentação como está evidenciada com o Brexit com a provável saída do Reino Unido da União Europeia. E o mais grave é que não há um plano para superar a crise. Depois de 50 anos de unificação, a Europa corre o risco de assistir a um processo inverso: o de sua fragmentação. Não bastasse a crise da zona do euro, que ameaça dividir o bloco entre os países que souberam administrar suas finanças e os que fracassaram na adoção da moeda única (o Euro), agora os nacionalismos regionais ganham novo impulso em razão da crise econômica. Enquanto isto, nas sociedades no sul da Europa não se vislumbra nem de longe a saída da crise, e sim mais recessão e desemprego. O que ocorre na Grécia, em Portugal e na Espanha não pode ser explicado sem esta crise econômica e financeira profunda que atinge o sistema capitalista mundial e a União Europeia que impõe imenso sacrifício a seus povos para salvar os bancos da bancarrota com a adoção da política de austeridade adotada pelos países dela integrantes. A desesperança das populações da União Europeia e a excessiva tensão social nela existente podem levar ao fim da União Europeia e ameaçar a ordem político-institucional vigente em cada um dos países da região.

A União Europeia está ameaçada de fragmentação ou desmantelamento que resulta do fato de conviver com desequilíbrios estruturais internos com países ricos com excedentes e os demais com déficites crônicos. Um dos problemas que pesam negativamente na evolução da crise europeia é a de que há excesso de liquidez em partes da zona euro, e falta em outras. A fragmentação da União Europeia deverá se intensificar, econômica e financeiramente com a interrupção dos fluxos transnacionais de bens, serviços e capitais com grandes descompassos entre moedas que poderão causar calotes múltiplos entre os países integrantes da União Europeia. A consequência disso tudo é o aumento do desemprego e das tensões sociais que se intensificam em toda a União Europeia. Os membros mais vulneráveis da zona do Euro (Grécia, Itália, Espanha e Portugal) já veem enfrentando há algum tempo o risco de rupturas econômicas e financeiras que poderão fomentar agitação social e disfunção política que poderão levá-los a se afastar da União Europeia. Um exemplo desse fenômeno é a Catalunha, uma das mais importantes regiões autônomas da Espanha, que responde por um quinto da economia nacional, onde o sentimento independentista, já poderoso, agora é turbinado pela sensação de que a Espanha está falindo.

O inevitável resultado do neoliberalismo adotado mundialmente foi o aumento do desequilíbrio global no comércio, na poupança e no investimento e na desigualdade social materializada na excessiva concentração da riqueza em todo o mundo. Este desequilíbrio global no comércio, na poupança e no investimento foi o resultado da crise que eclodiu nos Estados Unidos em 2008 e se espalhou pelo mundo e comprometeu o sistema financeiro dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Europa com débitos insustentáveis. Para os países que se desindustrializaram transferindo para fora do seu território grande parte de suas indústrias e alimentaram o consumo com o aumento do crédito, o resultado foi sempre o de ter que lidar com déficits com o comércio, alto endividamento governamental e instabilidade no setor financeiro.

O superávit comercial da Ásia com o resto do mundo, da Alemanha com a Europa, a implacável acumulação de capital dos exportadores de petróleo à custa de outros povos endividados foi que levou os Estados Unidos, o Reino Unido e países do sul da Europa Ocidental a se endividarem além dos limites. É preciso entender que o neoliberalismo só existe porque alguns países não o praticam como é o caso da Alemanha, da China e do Japão que adotam o que seus críticos chamam de ”neo mercantilismo” com a manipulação do seu comércio, do investimento e de posições da moeda para acumular grande volume de dinheiro de outros países. Os principais déficits no balanço de pagamentos em conta corrente estão nos Estados Unidos e em muitos países da Europa. Os países superavitários são a China, o resto da Ásia, Alemanha, Japão e países produtores de petróleo.

Não há dúvidas que o sistema capitalista é um sistema que opera de acordo com o princípio da entropia porque apresenta a tendência universal de evoluir para uma crescente desordem e autodestruição. Ressalte-se que a entropia é uma grandeza termodinâmica que mede o grau de irreversibilidade de um sistema encontrando-se geralmente associada ao que se denomina por “desordem” de um sistema termodinâmico. Entropia mede o grau de desordem de um sistema. Parece também evidente que a entropia que ocorre no mundo material se reflete, também, na atividade econômica. O neoliberalismo ao negar a regulação do sistema capitalista mundial colabora no sentido de levar o sistema à autodestruição.

No Brasil o modelo econômico neoliberal implantado em 1990 é o grande responsável por levá-lo à bancarrota econômica e à devastação social na atualidade. A prática vem demonstrando a inviabilidade do modelo econômico neoliberal no Brasil inaugurado pelo presidente Fernando Collor em 1990 e mantido pelos presidentes Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Roussef e Michel Temer. A recessão econômica atual, a acentuada desindustrialização do País, a insolvência da União, Estados e Municípios, a elevação desmesurada da dívida pública federal, a falência generalizada de empresas e o desemprego em massa demonstram a inviabilidade do modelo neoliberal implantado no País.

Entraves á globalização neoliberal

Donald Trump deixou evidenciada sua repulsa à globalização neoliberal em seu discurso nacionalista de posse na Casa Branca quando afirmou que por muitas décadas os Estados Unidos enriqueceram a indústria estrangeira em detrimento da indústria americana, tornaram outros países ricos, enquanto a riqueza, força e confiança de seu país se dissipavam no horizonte, que “uma a uma, as fábricas fecharam e deixaram nosso território, sem nunca pensar nos milhões e milhões de trabalhadores americanos que foram abandonados. A riqueza de nossa classe média foi tirada de seus lares e então redistribuída por todo o mundo”. O nacionalismo de Trump fica marcado em seu discurso ao afirmar que deste dia em diante, será apenas a América em primeiro lugar, a América em primeiro lugar” e que protegerá os Estados Unidos da devastação causada pelos países que roubam suas empresas e destroem seus empregos e que “traremos nossos empregos de volta. Traremos de volta nossa riqueza”. Trump afirmou que seguirá duas regras simples: comprar produtos americanos e contratar americanos. Haverá avanço do protecionismo nos Estados Unidos a ser adotado pelo governo Trump com o objetivo de defender as empresas e os empregos norte-americanos que fará com que o mesmo ocorra, também, no mundo como contrapartida.

A chegada de Donald Trump à Casa Branca pode provocar avanço do protecionismo nos Estados Unidos e no mundo, o fim da globalização do sistema produtivo e do livre comércio e a deterioração das relações econômicas com a China. O avanço do protecionismo nos Estados Unidos a ser adotado pelo governo Trump com o objetivo de defender as empresas e os empregos norte-americanos fará com que o mesmo ocorra, também, no mundo como contrapartida. Trump afirmou que seguirá duas regras simples: comprar produtos americanos e contratar americanos. O fim da globalização do sistema produtivo se materializará com o fim da liberdade de comércio que impedirá as empresas americanas se instalarem a seu critério em países onde auferem maiores lucros. A deterioração das relações econômicas com a China com a guerra comercial em curso resulta do fato de ela ser acusada por Trump de “roubar” empresas e empregos dos Estados Unidos.

Avanço do fascismo com a crise da globalização neoliberal

Do livro Capitalism, Hegemony and Violence in the Age of Drones (Capitalismo, Hegemonia e Violência na Era dos Drones) do falecido historiador norte-americano Norman Pollack que foi professor emérito de História na Michigan State University,  publicado pela Springer Nature em 2018, há a afirmativa de que “o fascismo nos Estados Unidos, em qualquer estágio gestacional, avança contra o povo”. Na visão de Pollack, o fascismo é mais do que um arranjo político historicamente temporário, como na Alemanha, Itália, Japão e outros países entre as duas grandes guerras mundiais. O fascismo é um estado social geral. Pollack afirma que o fascismo não exige o campo de concentração, perseguição ou tortura, embora sua ameaça e potencial permaneçam presentes sempre. Em vez disso, o fascismo pode ser apreendido através de vários índicadores como, por exemplo, concentração extrema de riqueza; a coparceria entre os negócios e os governos, como uma interpenetração estrutural de poderosas instituições que promovem o capital monopolista, restringe a organização sindical e a militância trabalhista e cria um Estado forte, baseado no poder militar e na supremacia comercial; também encorajando uma base de massa complacente, submissa ao poder e à riqueza, amarrada em nós ideológicos através da falsa consciência e da intimidação, intelectualmente quebrada através de mídia, propaganda e sinais de cima.

Pollack afirma que os Estados Unidos têm campos de concentração. Tem os chamados centros de detenção que aprisiona um número secreto de pessoas, administrado por empresas privadas. Os Estados Unidos têm mais de três milhões de pessoas encarceradas nas prisões, quase metade das quais são pessoas pretas e pobres. A propaganda oficial demoniza uma minoria religiosa etiquetada como muçulmana. Google, Boeing, Raytheon, grandes bancos e companhias de seguros gozam do mesmo status que os aparelhos estatais como o polvo de inteligência militar que examina todas as pessoas e realiza operações secretas para derrubar governos em todo o mundo. Essas entidades estatais-privadas incluem a tortura como parte de sua panóplia diária. Os meios de comunicação lidam com um fluxo interminável de notícias falsas, filmes de Hollywood dirigidos pela CIA e todos os vários instrumentos de relações públicas com campanhas todas elas a serviço do aparelho de negócios-estado que molda a consciência pública como se fosse uma massa alienada.

Pollack afirma que é nos Estados Unidos onde se localiza o estado maior fascista em defesa do capitalismo globalizado. Pollack ressalta que o governo dos Estados Unidos realiza assassinatos por drones, ocupa países estrangeiros, cria e apóia guerrilhas terroristas, como o Estado Islâmico, em todo o mundo. O governo dos Estados Unidos oprime e investiga sua própria população doméstica. Faz tudo isso a serviço, não para o engrandecimento da nação, mas a serviço do capital global.  Trata-se de um fascismo diferente do fascismo antigo que representou uma reação das forças conservadoras de diversos países da Europa contra a ascensão dos trabalhadores ao poder após a vitória do socialismo na União Soviética em 1917 e se baseava em concepções fortemente nacionalistas e no exercício totalitário do poder, portanto contra o sistema democrático e liberal, e repressivo ante as ideias socialdemocratas, socialistas e comunistas. O fascismo antigo implantado durante as décadas de 1920 e 1930 do século XX se baseava em um Estado forte, totalitário, que afirmava encarnar o espírito do povo no exercício do poder por um partido único cuja autoridade se impunha através da violência, da repressão e da propaganda política.

O fascismo atual nos Estados Unidos tem dupla conotação, sendo nacionalista ao desenvolver ações que visam manter a hegemonia mundial norte-americana e globalista ao empreender ações em defesa do capitalismo globalizado. Pollack afirma que a sombra do fascismo não caiu apenas sobre os Estados Unidos, mas engloba, também, todas as nações que abrigam os centros do capitalismo mundial. Não importa onde, porque os interesses do capital e da classe dominante global devem ser atendidos por todos os aparelhos estatais do mundo. Pollack afirma que, o mundo de hoje se assemelha ao período entre as duas guerras mundiais quando o fascismo surgiu em toda a Europa. A causa subjacente é a mesma: uma crise no capitalismo. Além disso, a crise decorre da mesma condição: uma queda da taxa de lucro no processo de acumulação de capital, especialmente sob a forma de capital fictício ou financeiro, e uma composição orgânica de capital em que a produção depende cada vez mais de máquinas ou robôs que substituem o trabalho humano. O resultado é que o valor da produção diminui, e com esse declínio os lucros diminuem.

Pollack afirma que, para manter sua posição hegemônica e tentar controlar a China e a Rússia, os Estados Unidos dependem fortemente da força militar direta e indiretamente. Sustentar sua posição preeminente significa o governo dos Estados Unidos manter pelo menos mil bases militares em todo o mundo. Para sustentar sua vigorosa hegemonia mundial, o governo dos Estados Unidos empobrece a maior parte de sua população, excluindo os poucos milhares de pessoas que possuem a maior parte da riqueza e controlam todo o capital. Pollack afirma que, além da força militar, os Estados Unidos e seus aliados ocidentais usam duas estratégias: 1) apoiam regimes autoritários; e, 2) desestabilizam países que fazem ou podem potencialmente seguir políticas independentes. A primeira dessas estratégias foi adotada na América Latina com o apoio às ditaduras militares implantadas nas décadas de 1960, 1970 e 1980, respectivamente, no Brasil, no Chile, na Argentina, entre outros países. A segunda dessas estratégias foi levada avante mais recentemente no Iraque, Afeganistão, Líbia e Siria. O exemplo mais extremo de desestabilização aconteceu na Síria, onde as potências do Ocidente criaram várias guerrilhas antigovernamentais concorrentes e até invadiu e ocupou uma parte da Síria.

Pollack afirma que, ambas as estratégias acima citadas promovem o caos mundial crescente e incentivam o avanço do fascismo. O fascismo americano se juntou ao fascismo europeu e, no Japão, há um retorno claro ao fascismo, especialmente o militarismo, para apoiar os esforços do bloco ocidental para controlar a China. Em suma, a atribuição de Pollack de avanço do fascismo nos Estados Unidos faz parte de uma tendência global. No Brasil, o fascismo se faz presente com o governo Bolsonaro. Pollack afirma que esta mesma situação no início do século XX exigiu duas guerras mundiais e a Grande Depressão mundial para solucionar a crise do capitalismo. O que se seguiu foi a chamada idade de ouro que durou cerca de 25 anos, de 1945 a 1970, após a Segunda Guerra Mundial. As guerras e a Grande Depressão destruíram o capital então existente. Conseguir uma destruição semelhante do capital, desta vez em uma escala mais global, poderia muito bem exigir não apenas a destruição do capital, mas muito da civilização humana. Basta lembrar a devastação mundial provocada pela Segunda Guerra Mundial.

Soluções para a crise da globalização neoliberal

Paul Mason apresenta em seu livro Post Capitalism – A Guide to our future (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2015) sua solução para a crise atual do capitalismo. Para evitar os problemas da globalização, a financeirização da economia mundial precisaria ser revertida, além de incentivar a volta de indústrias e serviços para o Ocidente para criar empregos de alto salário nos países desenvolvidos. Com isto, haveria o encolhimento da complexidade do sistema financeiro, os salários cresceriam e a participação do setor financeiro na formação do PIB seria reduzida, bem como a confiança no crédito. Haveria, entretanto, enormes obstáculos sociais e políticos para executar essas medidas. Os ricos se oporiam a aumentar salários e regulamentar as finanças. Haveria vencedores e perdedores com a adoção dessas medidas. A Alemanha se beneficiaria da condição de credora com a colonização da Grécia e da Espanha cujas economias estão extremamente endividadas. A China se beneficiaria da mão de obra barata de 1,4 bilhão de pessoas. Alemanha e China fariam, portanto, o bloqueio de uma solução de escape para solução dos problemas da globalização. Esta situação que não poderia ser administrada pacificamente representaria o colapso da globalização. Sem a solução de escape proposta por Paul Mason para solução dos problemas da globalização o provável é a estagnação da economia mundial.

À medida que a opressão do capitalismo globalizado neoliberal e fascista se estende por todos os setores da vida em todo o mundo, a possibilidade de revolta adquire aspecto de uma guerra civil em escala global. A destruição da sociedade mercantil totalitária passa a ser uma necessidade imperiosa em um mundo que já está condenado. Os motins renascem em toda parte do planeta e anunciam a futura revolução. Para combater a servidão moderna que toda a humanidade está submetida é preciso desencadear em escala planetária a luta contra o globalizado capitalismo neoliberal e o fascismo moderno que demonstram serem os maiores inimigos de todos os povos do mundo. Um fato é indiscutível: sem a derrocada do capitalismo neoliberal globalizado e do fascismo moderno em escala nacional e global, não serão superados os problemas que afetam a humanidade.

Tudo indica que a humanidade caminha inexoravelmente na direção de uma integração econômica, inicialmente, e, política, posteriormente, entre os países. Para que isto aconteça, é preciso, que haja um governo mundial para que funcione, também, um Estado de direito globalizado.  A constituição de um governo mundial visaria não apenas o ordenamento econômico em escala mundial, mas, sobretudo, criar as condições para enfrentar os grandes desafios da humanidade no Século XXI os quais consistem em: 1) Crises econômicas e financeiras em cadeia; 2) Revoluções e contrarrevoluções sociais em todo o globo; 3) Guerras em cascata; 4) Superpopulação mundial; 5) Pandemia mortal; 6) Mudanças climáticas extremas; 7) Crime organizado; e, 8) Ameaças vindas do espaço, cujas ações de caráter global para neutralizá-las são impossíveis de serem levadas avante pelos estados nacionais isoladamente e pelas instituições internacionais atuais.

Para viabilizar um governo mundial é preciso que, de início, seja constituído um Fórum Mundial pela Paz e pelo Progresso da Humanidade por organizações da Sociedade Civil de todos os países do mundo. Neste Fórum seriam debatidos e estabelecidos os objetivos e estratégias de um movimento mundial suprapartidário de massas pela constituição de um governo e um parlamento mundial visando sensibilizar a população mundial e os governos nacionais no sentido de tornar realidade um mundo de paz e de progresso para toda a humanidade. Este seria o caminho que tornaria possível transformar a utopia do governo mundial em realidade.

* Fernando Alcoforado, 79, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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