NOVA CRISE DO PETRÓLEO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Fernando Alcoforado*

Este artigo tem por objetivo explicar a nova crise do petróleo e sua consequências resultantes dos ataques de drones a duas das principais instalações petrolíferas da Arábia Saudita , maior exportador de petróleo do mundo que acirraram a tensão na região do Oriente Médio, provocaram uma redução de 5% na produção mundial de petróleo e fizeram disparar o preço do barril no mercado internacional atingindo a maior alta desde a Guerra do Golfo, em 1991. O preço do petróleo chegou a subir quase 20%,. O barril de petróleo do tipo Brent, referência internacional, atingiu a cotação de US$ 71,95. A alta foi contida um pouco depois que Trump autorizou a liberação de reservas estratégicas dos Estados Unidos se for necessário. É gigantesco o Impacto sobre o abastecimento de petróleo. A Arábia Saudita é o maior exportador de petróleo do mundo, despachando diariamente mais de sete milhões de barris.

Os ataques atingiram a maior instalação de processamento de petróleo do planeta, assim como um campo de petróleo próximo, ambos operados pela estatal saudita Aramco. Juntos, eles são responsáveis por cerca de 50% da produção de petróleo da Arábia Saudita. Pode levar semanas até que as instalações consigam restabelecer completamente sua operação. Os danos às instalações de Abqaiq e Khurais são extensos, e pode levar semanas até que o fornecimento de petróleo seja normalizado. Os rebeldes houthis do Iêmen reivindicaram a autoria do atentado, que seria uma resposta aos ataques da coalizão liderada pela Arábia Saudita contra eles. Os Estados Unidos, que apoiam os sauditas, insistem que o Irã, aliado do grupo rebelde, está por trás da ofensiva. Os iranianos negam, por sua vez, qualquer envolvimento no episódio. Estes ataques desestabilizaram ainda mais a região do Golfo Pérsico, revelando a vulnerabilidade de instalações petrolíferas sauditas de importância vital para a economia global, fato este que acelerou a escalada da tensão entre o Irã e os Estados Unidos.

Por que os rebeldes houthis do Iêmen atacariam a Arábia Saudita? Isto resultou do fato de o Iêmen, país que fica ao sul da Arábia Saudita, viver uma guerra civil violente desde 2015. A guerra civil surgiu na Primavera Árabe, de 2011, quando uma revolta popular forçou o então presidente iemenita, Ali Abdullah Saleh, a deixar o poder nas mãos do vice-presidente, Abdrabbuh Mansour Hadi. A mudança pol[itica não levou à estabilidade e, ao final de 2014, os rebeldes xiitas houthis tomaram a capital, Saná, e derrubaram Hadi. Com a ascensão do grupo rebelde, que acreditava ser apoiado militarmente pelo Irã, país majoritariamente xiita, a Arábia Saudita liderou uma coalizão de oito nações árabes, principalmente sunitas, contra os houthis, com o objetivo declarado de restaurar o governo de Hadi. E foi assim que o conflito escalou dramaticamente em março de 2015. Os sauditas vêm realizando ataques aéreos contra os rebeldes houthis no Iêmen – com o apoio dos EUA – há algum tempo. Mas seus adversários só demonstraram agora sua real capacidade de revidar.

As tropas da coalizão – que contam com o apoio de Estados Unidos, Reino Unido e França – lançam ataques aéreos quase todos os dias no Iêmen, enquanto os houthis disparam com frequência mísseis contra a Arábia Saudita. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que o conflito já matou pelo menos 7.290 civis e deixou 80% da população – 24 milhões de pessoas – à mercê de assistência ou proteção humanitária, incluindo 10 milhões que dependem do fornecimento de alimentos para sobreviver. O Irã tem laços fortes com os houthis e não há dúvida de que têm um papel importante no desenvolvimento da capacidade de ataque de longo alcance do Iêmen, seja por meio de drones armados ou mísseis. O secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, foi rápido em apontar o dedo responsabilizando o Irã pelos ataques, mas ele fez isso aparentemente antes de haver qualquer informação de inteligência clara disponível.

Fontes americanas indicaram que houve cerca de 17 pontos de impacto do ataque, todos sugerindo que vieram do norte ou noroeste – ou seja, mais provavelmente do Irã ou do Iraque, do que do Iêmen. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, classificou as acusações dos EUA como mentiras. “Depois do fracasso da política de ‘pressão máxima’, o secretário Pompeo muda para ‘mentira máxima'”, escreveu no Twitter, fazendo referência à “campanha de pressão máxima”, declarada pelo governo Trump contra Teerã – uma série de medidas diplomáticas e sanções econômicas adotadas desde que os Estados Unidos abandonaram o acordo nuclear assinado entre o Irã e potências mundiais.

A questão agora é o que os Estados Unidos e a Arabia Saudita irão fazer como resposta aos ataques às instalações petrolíferas da Arábia Saudita? Muitos analistas afirmam que não muito. Continuar os ataques aéreos da coalização saudita não faz sentido porque está servindo apenas para transformar o Iêmen já empobrecido em uma zona de catástrofe humanitária. Atacar o Irã transformaria o Oriente Médio em uma conflagração global com o envolvimento da Rússia e da China, aliados do Irã, países europeus e Israel, aliados dos Estados Unidos, além de provocarem a elevação vertiginosa do preço do barril do petróleo em níveis que colocariam em xeque a combalida economia global. Outro cenário é a cessação dos ataques da coalizão saudita contra o Iêmen diante de sua crescente impopularidade nos Estados Unidos e na Europa e da celebração de um acordo com o Irã que poderia ocorrer na sessão de debates da Assembleia-Geral da ONU (no fim deste mês, em New York).

É preciso observar que o Irã sabe que Trump, apesar de toda a sua fanfarronice e imprevisibilidade, quer tirar os Estados Unidos dos emaranhados militares e não entrar em novos conflitos. A intenção mais recente de Trump era trazer de volta todos os soldados americanos que ainda estão no Afeganistão, em conflito com os talibãs. O evento que precipitou a queda recente de John Bolton foi uma reunião secreta com líderes do movimento Talibã – considerado oficialmente uma organização terrorista –, marcada para Camp David, mas cancelada depois que a informação vazou para a imprensa (Trump atribuiu a Bolton a responsabilidade pelo vazamento). Isso dá aos iranianos a capacidade de aplicar sua própria « pressão máxima » em resposta à « pressão máxima » exercida pelos Estados Unidos. Há, no entanto, o risco de que um erro de cálculo possa levar a um conflito em larga escala, o que nenhuma das partes realmente deseja.

Ë oportuno observar que as sanções impostas pelos Estados Unidos contra o Irã há um ano representam um preço altíssimo para a economia iraniana. Os iranianos não dispõem de recursos para arcar com o custo de uma guerra. Mas têm todo interesse em manter a ameaça de confronto com os Estados Unidos tomando posse de petroleiros ou causar danos à infraestrutura saudita. O cenário mais provável não é nem a guerra, nem um novo acordo, mas a tensão progressiva no “limiar da guerra”. A estratégia iraniana consiste, portanto, em manter o domínio na escalada, criar alavancagem para negociação e transmitir uma ideia de força e desafio, segundo o analista John Raine em texto para o Instituto Internacional para Estudos Estratégicos (IISS). Isso dá aos iranianos a capacidade de aplicar sua própria « pressão máxima » em resposta à « pressão máxima » exercida pelos Estados Unidos. Se puder aumentar o custo para americanos e europeus de continuar a estratégia de pressão, fará isso. Há, no entanto, o risco de que um erro de cálculo possa levar a um conflito em larga escala, o que nenhuma das partes realmente deseja.

As consequências da nova crise do petróleo serão catastróficas para o Brasil pelo efeito que produzirá com a elevação dos preços do barril de petróleo sobre a economia estagnada e sem perspectiva de recuperação durante o governo Bolsonaro. Isto se deve ao fato de a Petrobras adotar uma política de preço de combustíveis atrelado ao preço do petróleo no mercado internacional que fará com que a estagnação econômic do Brasil se ecentue ainda mais.

* Fernando Alcoforado, 79, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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