COMO A EMPRESA PODE SOBREVIVER À RECESSÃO E PROSPERAR DEPOIS DELA

Fernando Alcoforado*

«How to survive a recession & trhrive afterward» (Como sobreviver a uma recessão e prosperar depois dela) é o título de artigo de Walter Frick na revista Harvard Business Review de maio-junho de 2019. Neste artigo, Frick afirma que a recessão pode ser causada por choques econômicos (como o aumento vertiginoso do preço do barril de petróleo), pânicos financeiros (como o que precedeu a Grande Recessão de 2008), rápidas mudanças nas expectativas econômicas (causada por bolha para estourar) ou alguma combinação das três.

Frick diz que durante a recessão há queda da demanda e aumento da incerteza quanto ao futuro. Frick apresenta resultado de pesquisas que mostram que há meios para mitigar os danos da recessão sobre uma empresa. Ele aponta quatro meios a serem adotados: 1) Desalavancagem ou redução do endividamento antes da desaceleração econômica); 2) Foco na tomada de decisão; 3) olhar além das demissões de trabalhadores; e, 4) investimento em tecnologia. Frick mostra que pesquisas e estudos de casos examinando a Grande Recessão de 2008 focalizaram quatro áreas: débito, tomada de decisão, gestão de força de trabalho e transformação digital.  Ele constatou que a recessão exerce grande pressão pela mudança de gestão e que para evoluir com sucesso a empresa necessita ser flexível e estar pronta para se ajustar às mudanças.

Frick afirma que que empresas com elevado nível de endividamento são bastante vulneráveis durante a recessão porque necessita de mais disponibilidade de caixa para pagar os juros e o principal de sua dívida. Há o risco de « default » ou calote. Para manter o pagamento de suas dívidas, as empresas com mais débitos são obrigadas a efetuar corte em seus custos, especialmente com demissões de trabalhadores. As pesquisas realizadas demonstram que as empresas que apresentaram melhor desempenho após a Grande Recessão de 2008 reduziram suas dívidas dramaticamente de 2007 a 2011. Frick afirma que o desempenho de uma empresa durante e após a recessão depende das decisões a serem tomadas e de quem as toma. Constatou-se pelas pesquisas realizadas que a necessidade de tomar decisões difíceis favorece a centralização das decisões. No entanto, a tomada de decisões descentralizadas seria melhor posicionada para resistir a macro choques porque aumenta o valor da informação local. Se a empresa decide não descentralizar, ela deve obter informações de seus empregados em todos os níveis da organização nas tomadas de decisões.

Demissões de trabalhadores são inevitáveis em uma recessão econômica como a ocorrida na Grande Recessão de 2008. As demissões são danosas não apenas para os trabalhadores, mas também para as empresas porque contratações e treinamentos são dispendiosos. Após a Grande Recessão de 2008, para evitar as demissões, as pesquisa realizadas constataram que várias empresas consideraram a redução de horas trabalhadas, concessão de folgas e pagamentos em função do desempenho visando a redução do custo da mão de obra. O investimento em tecnologia digital para reduzir custos foi utilizado após a Grande Recessão. Além disso, ela foi utilizada para fazer as empresas mais transparentes, mais flexíveis e mais eficientes. A transformação digital ajudou os gestores das empresas a entender o negócio e como a recessão as está afetando. Todo este conjunto de medidas proposto para as empresas sobreviverem à recessão e prosperar depois dela é, entretanto, insuficiente como está exposto nos parágrafos abaixo.

De modo geral, os princípios que orientam as empresas no processo de planejamento e gestão operacional são os seguintes: 1) procuram chegar a algum estado estável de equilíbrio adaptando a organização às mudanças ocorridas no ambiente externo; e, 2) acreditam que as decisões tomadas e as ações subsequentes conduzirão aos resultados desejados baseadas no princípio da relação entre causa e efeito. Os modelos de gestão convencionais consideram a administração como uma atividade de “feedback” negativo, isto é, estabelece uma estratégia e conduz a organização na direção desejada com a correção dos desvios entre o plano traçado e os resultados alcançados. Numa época em que tudo muda rapidamente, pode-se afirmar que os princípios que regem esses modelos de gestão estão ultrapassados porque é impossível a conquista de um estado estável ou de equilíbrio nas organizações em um ambiente externo como o atual caracterizado pela instabilidade do sistema econômico que faz com que as decisões tomadas por seus dirigentes em um determinado momento pode não levar ao resultado desejado porquanto será afetado inexoravelmente por mutações que venham a ocorrer interna e externamente à organização ao longo do tempo. O grande desafio enfrentado pelas organizações na era contemporânea é representado pela necessidade de gerir seus sistemas em um ambiente de elevada complexidade e de mudanças muitas vezes caóticas.

Para enfrentar ambientes classificados como “instáveis” ou “turbulentos”, é preciso fazer com que as organizações se auto organizem dinamicamente e, consequentemente, evitem sua decadência e morte. A auto-organização que está sendo adotada nas empresas modernas na era contemporânea contempla a adoção de uma forma inteligente e consistente de tomar decisões que possibilita aos decisores disporem das informações certas no tempo certo sobre a situação interna atual e os cenários futuros de evolução do ambiente externo à organização (economia local, nacional e mundial, concorrentes, tecnologia, mercado consumidor, etc.) que só podem ser viabilizadas desde que haja coleta, gerenciamento e distribuição de dados para transformá-los em insights (intuições). A auto-organização pode ser alcançada com a adoção do Business Intelligence (Inteligência Empresarial) no planejamento e gestão operacional. Inteligência Empresarial ou Business Intelligence é um termo do Gartner Group que surgiu na década de 1990 que descreve as habilidades das corporações para ter acesso a dados e explorar informações e recursos financeiros analisando-as e desenvolvendo percepções e entendimentos a seu respeito, o que lhes permite incrementar e se tornar mais pautada em informações a tomada de decisão.

A implantação de um Business Intelligence (BI) em uma empresa tem como intuito principal fornecer aos seus dirigentes informações gerenciais e operacionais, de forma rápida e consistente. Business Intelligence tem a ver, basicamente, com a forma com que os empreendedores lidam com dados. Em um ambiente de elevada complexidade e de mudanças muitas vezes caóticas como o atual, o Business Intelligence permite às organizações possuírem um conjunto de informações confiáveis e consistentes que busquem apoiar o processo decisório na organização. O uso do Business Intelligence demonstra ser um dos sustentáculos da competitividade empresarial do novo milênio, trazendo com ele, mais dinamismo, flexibilidade e redução de custos, visando sempre a melhoria na qualidade do produto ou do serviço oferecido. É importante ressaltar que um projeto de Business Intelligence não termina após sua implantação. BI é um conjunto de processos que tem por objetivo entregar a informação certa, para a pessoa certa, na hora certa que exige grande alinhamento entre três pilares de sustentação: 1) Coleta de dados: tudo o que acontece no negócio é analisado para determinar aspectos-chave, como produtividade, aproveitamento de oportunidades, gargalos, reputação no mercado, etc.; 2) Organização e análise: todos os dados captados em cada ação da empresa são organizados em um banco de dados e apresentados de forma visual, para facilitar a análise dos tomadores de decisão; e, 3) Ação e monitoramento: os responsáveis tomam decisões com base nas informações analisadas, e monitoram seus resultados para ver se estão sendo bem-sucedidos.

Por meio do sistema de BI, todos os dados relevantes aparecem em dashboards (painéis de controle) que facilitam a tomada de decisões em todos os níveis organizacionais. As empresas que usam o Business Intelligence conseguem otimizar processos de maneira muito mais rápida e direta em comparação com as que não o utilizam. Os processos de uma empresa fazem grande diferença nos resultados, seja em termos de qualidade dos produtos, vendas e retenção de clientes, satisfação dos colaboradores, etc. Como não existe empresa perfeita, é fundamental procurar onde estão os gargalos para impedir que se tornem problemas graves, que ameacem o futuro da organização. Por meio do BI, é possível encontrar todos esses pontos de ruptura no negócio da empresa e tomar medidas práticas para resolvê-los o quanto antes. O mesmo princípio citado com respeito ao reconhecimento de falhas se aplica à identificação de oportunidades. A inovação é o motor das empresas que resistem à prova do tempo, e isso só acontece quando seus gestores são capazes de identificar oportunidades e persegui-las antes que outras empresas o façam. Com os insights poderosos que o Business Intelligence oferece, fica mais fácil encontrar as oportunidades do mercado para se concentrar neles. O forte alicerce na análise de dados como fonte de informações estratégicas permeia tanto o Business Intelligence quanto o Big Data.

Em tecnologia da informação, o termo Big Data diz respeito a um grande conjunto de dados armazenados. Diz-se que o Big Data se baseia em 5 Vs: velocidade, volume, variedade, veracidade e valor. O Business Intelligence busca levar a informação certa, para as pessoas certas, no momento certo visando a tomada de decisões. Isso exige fazer as perguntas certas e analisar os dados com conhecimento de causa para entender a dinâmica do negócio. O Big Data, por outro lado, analisa uma enorme quantidade de informações para mostrar padrões e correlações, em muitos casos totalmente desconhecidos. Enquanto o Business Intelligence analisa os dados atuais e mostra as próximas ações a tomar, o Big Data abre um leque maior de possibilidades que podem se transformar em caminhos para a inovação. O ideal é juntar as forças do Business Intelligence com as do Big Data para uma compreensão mais abrangente dos dados gerados, que vai resultar em decisões ainda melhores e mais inovadoras. Profissionais de vários setores de uma empresa devem ser encorajados a usar os dados como base de suas decisões. Mas, acima de tudo, é crucial lembrá-los de que isso não se resume a enxergar informações óbvias nos dashboards (painéis de controle). É preciso buscar a fundo as melhores soluções observando também os dados que não estão na superfície. Com todos os integrantes da empresa envolvidos, usando o Business Intelligence como forma de garimpo, e não apenas de consulta, a empresa terá uma estratégia de Business Intelligence que funciona.

As empresas que adotam Business Intelligence e Big Data estarão mais capacitadas  a sobreviverem à recessão e prosperar depois dela.

BIBLIOGRAFIA

BAUER, Ruben. Gestão da Mudança: caos e complexidade nas organizações. São Paulo: Atlas, 1999.

BARBIERI, Carlos. BI – Business Intelligence: Modelagem & Tecnologia. Rio de Janeiro: Axcel Books do Brasil Editora, 2001.

FRICK, Walter. How to survive a recession & trhrive afterward. Harvard Business Review,  May—June, 2019.

PRIGOGINE, Ilya, STENGERS, Isabelle. O Fim das Certezas – Tempo, Caos e as Leis da Natureza .São Paulo: UNESP, 1996.

SHERMAN, Rick. Business Intelligence Guidebook. New York: Elsevier, 2015.

WIKIPEDIA. Inteligência empresarial. Disponível no website

* Fernando Alcoforado, 79, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017),  Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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