Fernando Alcoforado*
Este artigo tem por objetivo mostrar os riscos que a economia em geral pode sofrer com o uso de algoritmos no sistema financeiro. Em termos técnicos, um algoritmo é uma sequência lógica, finita e definida de instruções que devem ser seguidas para resolver um problema ou executar uma tarefa. Um algoritmo nada mais é do que uma receita que mostra passo a passo os procedimentos necessários para a resolução de uma tarefa. Os algoritmos são muito utilizados na área de programação, descrevendo as etapas que precisam ser efetuadas para que um programa execute as tarefas que lhe são designadas. Os algoritmos são uma sequência de instruções que orientam o funcionamento de um software – que, por sua vez, pode resultar em movimentos de um hardware. Hoje, a lógica dos algoritmos é usada para criar regras extremamente complexas, para que possam resolver problemas sozinhos. O funcionamento de um algoritmo de Inteligência Artificial, por exemplo, é um cálculo de uma probabilidade, resultando da multiplicação de um vetor de entrada com milhões de parâmetros.
O trabalho dos mercados de capitais consiste em processar informações para que a economia flua para os melhores projetos e empresas. A última revolução está em pleno andamento com as máquinas assumindo o controle dos investimentos na alocação de capital. Os fundos administrados por computadores, que utilizam algoritmos definidos por seres humanos, representam 35% do mercado de ações, 60% dos ativos institucionais e 60% da atividade comercial dos Estados Unidos. Novos programas de inteligência artificial também estão escrevendo suas próprias regras de investimento. Por lidar com grandes somas, as finanças sempre tiveram recursos financeiros para adotar inovações. Os analistas de Wall Street foram os primeiros a adotar softwares de planilhas na década de 1980. Desde então, os computadores conquistaram o setor financeiro. O primeiro foi com a tarefa de “executar” ordens de compra e venda. Como as máquinas foram provadas em ações e derivativos, elas também estão crescendo nos mercados da dívida.
Os computadores estão ganhando cada vez mais autonomia. Os programas de software que são usados criam suas próprias estratégias sem a necessidade de intervenção humana. À medida que o poder de processamento aumenta, o mesmo ocorre com suas habilidades. Adicionalmente, considere o fluxo de informações, a força vital dos mercados. Agora, um suprimento quase infinito de novos dados e poder de processamento está criando novas maneiras de avaliar investimentos. A era emergente das finanças dominadas por máquinas suscita preocupações, uma das quais é o de que poderia pôr em risco esses benefícios. Uma delas é a estabilidade financeira. Investidores experientes reclamam que os computadores podem distorcer os preços dos ativos, pois muitos algoritmos perseguem títulos com uma determinada característica e depois os abandonam de repente.
Os algoritmos fazem a compra e a venda de ações para facilitar o trabalho humano, tomar decisões mais lógicas e consequentemente procurar os melhores investimentos com base na análise do mercado fundamentada em diversos modelos econômicos e matemáticos, buscando diminuir a imprevisibilidade do investimento e calculando a probabilidade de a aplicação ser rentável ou não. Cabe ressaltar, contudo, que a soberania dos algoritmos inteligentes na tomada de decisões não é plena. Como exemplo pode-se citar o fato de que enquanto algumas pessoas conseguiram prever a chegada da crise financeira de 2008 que atingiu proporções globais usando suas projeções, nenhum dos algoritmos inteligentes, que aprendem com as novas informações e fazem as compras e vendas sem necessidade de ação humana, conseguiu fazer o mesmo, fato comprovado pela proporção que o evento tomou por não haver previsão de crise futura precedente ao desencadeamento da mesma.
Diante da hipótese de que caso o algoritmo não consiga diminuir a imprevisibilidade do problema a partir da análise de mercado, surge a defesa de que o ser humano faria uma melhor tomada decisão e anteciparia melhor a situação do que esta ferramenta. Embora a aplicação do algoritmo a problemas possa vir a ser benéfica para o usuário, há limitações. Ainda é incerto se o uso de algoritmos é mais benéfico para solução, prevenção e previsão de problemas, considerando que não compreendemos muito bem porque em algumas áreas ele é melhor e em outras não. A operação em bolsa de valores apresenta um alto nível de imprevisibilidade. Diversos modelos matemáticos e teorias foram desenvolvidos visando minimizar essa imprevisibilidade e por consequência maximizar o lucro de investimentos nessa área, porem a maioria não foi bem sucedido.
De maneira geral pode-se afirmar que a bolsa de valores é um mercado que, como tudo, se caracteriza pela imprevisibilidade dos eventos que resulta, de um lado, da limitação do ser humano em trabalhar com grande quantidade de dados e, de outro, da limitação em enxergar seus padrões desempenho. É então que são aplicados os algoritmos inteligentes porque são capazes de adquirir nova informação e trabalhar com ela, captar uma grande quantidade de informação de mercado e organizá-la afim de achar um padrão de desempenho de mercado e solucionar o problema de saber onde investir o dinheiro. Embora os algoritmos sejam mais eficientes do que humanos no reconhecimento de padrões e análise de grande quantidade de dados, há informações que essa ferramenta não explora a bolsa de valores da melhor forma possível.
Um dos problemas dos algoritmos é que eles trabalham com padrões de dados baseados na curva de Gauss que é uma distribuição de probabilidade absolutamente contínua parametrizada pela sua esperança matemática e desvio padrão. {\displaystyle \sigma }Os eventos aleatórios de baixa probabilidade de ocorrência, isto é, os Cisnes Negros na visão de Nassim Nicholas Taleb, não são considerados. Nassim Nicholas Taleb, em seu livro A lógica do Cisne Negro (Rio de Janeiro: Editora BestSeller, 2008) explora os problemas de percepção causados nas pessoas por eventos aleatórios e inesperados que têm um grande impacto na humanidade. Em seu livro, Taleb tenta nos ajudar a entender quando o nosso julgamento está comprometido. O conceito central de Cisne Negro refere-se ao fato de que antes da descoberta da Austrália, acreditava-se que todos os cisnes eram brancos, afinal, ninguém nunca tinha visto um cisne da cor preta. No entanto, eles existem. Neste livro, um Cisne Negro é um evento que é raro, tem um impacto colossal na sociedade e é explicável, porém impossível de ser previsto apenas analisando o passado. Eventos raros como o Cisne Negro ocorrem com mais frequência do que imaginamos. No entanto, muitas vezes, eventos extremos ocorrem e têm grandes impactos. Nossa tendência de ignorá-los vem do fato de que as pessoas tendem a subestimar sua ignorância.
Cisnes Negros são os eventos que causam grandes transformações cognitivas, sejam elas triviais ou enormes, como a destruição de um setor no mercado de ações como a crise mundial de 2008 nos Estados Unidos ou uma crise política. O único jeito de se precaver destes impactos é a informação. Quanto mais ignorante você é, o mais provável será que você seja surpreendido por um Cisne Negro e quanto mais informado você é, menos provavelmente você será atingido. No século XV, quando Nicolau Copérnico propôs que a Terra não é o centro do Universo, as consequências foram imensas, em todos os níveis. Ele desafiou a religião (a Igreja Católica sofreu grandes impactos), mas também abriu o caminho para uma mudança cultural em toda a sociedade e na ciência. Cisnes Negros como esse mudam sociedades e aceleram a mudança do mundo cada vez mais.
Para melhor compreender o impacto do improvável, Nassim Taleb divide o conhecimento humano em duas áreas principais da aleatoriedade, separando os dois principais grupos de efeitos improváveis em nossas vidas. Dividindo o improvável em dois grandes grupos, fica mais facil entender como ele nos engana e assim provar nossa incapacidade de fazer previsões. O primeiro deles é descrever os fenômenos com base nas médias como regra. O segundo território é desconsiderar os fenômenos aleatórios fora das médias. E se analisarmos os dados olhando apenas a média, seremos iludidos com uma representação que não reflete com precisão a realidade do fenômeno analisado. Taleb prova que os Cisnes Negros não ocorrem com base nas médias e sim fora delas. Para aprendermos a lidar com isso, é preciso aceitar, abraçar e entender a natureza imprevisível do mundo, ao invés de ignorá-la.
Segundo Taleb, há dois tipos de progressos, os constantes e lineares e os não lineares que tendem a ocorrer em grandes saltos, alternados com a estagnação. Porém, apesar de preferirmos acreditar que o mundo funciona em uma perspectiva linear, esse não é o jeito certo de abordar o problema. As situações não lineares são as mais constantes na vida e as coisas lineares tendem a ser a verdadeira exceção. Nosso aprendizado vem de coisas tão diversas e em muitos casos randômicas, que acreditar que o modelo linear é o melhor modelo acaba se tornando uma falácia. O modelo linear é adotado nas salas de aulas e livros simplesmente por serem mais fáceis de ser compreendidos. Além disso, o ser humano tem a limitação de que ao ver o passado, ele seleciona as partes de um processo que se encaixam nas suas impressões e ignora as partes que não estão de acordo com seus pré-conceitos. Nossa mente cria um registro que ignora os fatos que não se encaixam em nosso modelo mental e Taleb chama isso de a evidência silenciosa.
Para Taleb, a serendipitia, as surpresas positivas, tem um papel crucial nas descobertas da ciência como o da busca de algo em que acredita (como um novo caminho para a Índia) e descobre algo que não sabia que estava lá (descobre a América). Por isso, é importante estar aberto à possibilidade de obter resultados não planejados para nossas atividades. Isso pode nos ajudar a aproveitar de forma vantajosa os Cisnes Negros quando eles aparecerem. Para saber capturar mais valor dos Cisnes Negros, Taleb sugere como primeiro passo focar-se nas consequências potenciais do inesperado em vez de focar na probabilidade de o improvável ocorrer. As consequências de se errar na previsão do tempo, por exemplo, costumam ser triviais, ao passo que as consequências de errar em previsões do mercado de ações podem ser devastadoras. Para tal, o ideal é priorizar suas crenças de acordo com os danos que elas podem causar e não com a chance de elas acontecerem.
Pelo exposto, as máquinas financeiras que operam com algoritmos baseados em padrões de desempenho representam um grande risco para o sistema financeiro diante da possibilidade de ocorrerem cisnes negros ou eventos aleatórios. A crise mundial de 2008 eclodida nos Estados Unidos mostra que o sistema financeiro que opera com base no uso de algoritmos fracassou no teste de mercado apesar de todos os seus participantes talentosos. Em 2008, a debacle econômica global mostra quão pouco os bancos entendiam os riscos que supostamente deveriam administrar. Estes fracassos são vistos como uma “miopia de desastre” (a tendência de subestimar os riscos), uma falta de consciência da “rede de externalidades” (contaminações de uma instituição para outras) e “incentivos desalinhados” (o lado positivo para os empregados e o lado negativo para os acionistas e contribuintes). Novos algoritmos deveriam ser desenvolvidos no sentido de levarem em conta, também, os eventos aleatórios com baixa probabilidade de ocorrência a fim de evitar a ocorrência de novos eventos catastróficos como o de 2008.
* Fernando Alcoforado, 79, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).