Fernando Alcoforado*
Este artigo tem objetivo abordar a pós-modernidade que surgiu após a queda do muro de Berlim (1989), o colapso da União Soviética (1991) e a crise das ideologias nas sociedades ocidentais no final do século XX com o propósito de descontruir a Modernidade e o Iluminismo que surgiram no século XVIII, bem como a pós-verdade que surgiu na era contemporânea com o propósito de inverter o sentido das coisas e tornar a mentira em verdade. O mundo de hoje se caracteriza pela ameaça à racionalidade crítica preconizada pelo Iluminismo e pela Modernidade com o advento da pós-modernidade e da pós-verdade que representam retrocesso para o progresso da humanidade. Trata-se de um imenso desafio para a humanidade derrotar a nefasta influência política e ideológica da pós-modernidade e da pós-verdade.
- O advento da pós-modernidade
O fracasso do Iluminismo e da Modernidade na realização do progresso da humanidade e da conquista da felicidade para os seres humanos abriu caminho para o advento da Pós-Modernidade que representa uma reação cultural à perda de confiança no potencial universal do projeto Iluminista e da Modernidade. A Pós-modernidade significa, portanto, uma reação àquilo que é moderno. Enquanto a Modernidade pode ser caracterizada como a época da valorização e crença nas noções de verdade, razão, objetividade e determinismo, fé inabalável no progresso científico e na emancipação universal, a Pós- modernidade coloca tudo isso em questão.
Jean-François Lyotard afirma em La condition postmoderne, rapport sur le savoir que a Pós-modernidade é uma decorrência da morte das “grandes narrativas” totalizantes da Modernidade, fundadas na crença no progresso e nos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade. Lyotard protesta contra o formato da “grande narrativa” que domina o retrato modernista da história. Essa grande narrativa, segundo Lyotard, indica falsamente que muito do que é útil na história originou-se no Iluminismo, que desde o Iluminismo a humanidade progrediu cognitivamente com rapidez, assim como em termos de liberdade, igualdade e fraternidade (LYOTARD, Jean-François. La condition postmoderne, rapport sur le savoir. Paris: Minuit, 1979).
Na Pós- Modernidade, o mundo construído de objetos duráveis foi substituído pelo de produtos disponíveis e projetados para imediata obsolescência e descarte. A Pós-Modernidade pode ser caracterizada como uma reação à cultura, ao modo como se desenvolveram historicamente os ideais da Modernidade, associada à perda de otimismo e confiança no potencial universal do projeto iluminista e moderno. Configura-se como uma rejeição à tentativa de colonização pela ciência e pela tecnologia das demais esferas da vida do homem. A Pós-Modernidade leva a crítica às mais profundas consequências, questionando os conceitos estabelecidos pela Modernidade.
Zygmunt Bauman afirma que os homens da Modernidade viveram num tempo-espaço sólido, durável, duro recipiente em que os atos humanos podiam ser considerados seguros. Liberdade era a necessidade conhecida, mas também a decisão de agir com esse conhecimento. A estrutura estava em seu lugar. Entretanto para os homens e as mulheres da Pós-Modernidade esse mundo desapareceu. Conforme aponta Bauman, o mundo em que o homem está vivendo é formado de regras que são feitas e refeitas no curso dos próprios acontecimentos. Para viver nesse mundo, as pessoas precisam usar ao máximo suas habilidades. O mundo tem se tornado mais frágil e perigoso. Muitas das relações que perpassam o mundo contemporâneo não são duradouras (BAUMAN, Zygmunt. O mal estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1998).
A Pós-modernidade é definida, portanto, por muitos autores como a época das incertezas, das fragmentações, das desconstruções, da troca de valores. Em relação à Pós-Modernidade, Lyotard afirma em La condition postmoderne, rapport sur le savoir que o que está em curso é um desmantelamento e uma sucessiva reconstrução das instituições, o que muitas vezes torna os laços humanos muito fluidos. A Pós-Modernidade faz também com que o nosso atual período histórico se configure numa “colcha de retalhos”, um “mosaico” de épocas, períodos e situações históricas que coexistem como, por exemplo, características da Idade Média em determinadas regiões de um país convivendo com o capitalismo da era contemporânea.
- A ideologia e política da pós-modernidade
Por influência de Karl Marx, filósofo alemão, a palavra ideologia tornou-se largamente utilizada nas ciências humanas de nossa época com o significado de sistema de ideias que elabora uma compreensão da realidade para ocultar ou dissimular o domínio de um grupo sobre o outro. Nesse sentido, a ideologia tem funções como a de preservar a dominação de classes apresentando uma explicação apaziguadora para as diferenças sociais. Seu objetivo é evitar o conflito aberto entre dominadores e dominados. Pode-se compreender a função implícita ou explícita da ideologia na tentativa das classes sociais dominantes de fazer com que o ponto de vista particular das classes que exercem a dominação política apareça para todos os sujeitos sociais e políticos como universal, e não como interesse particular de uma classe social determinada (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Editora Boitempo, 2007).
As questões relativas ao Iluminismo, a Modernidade e a Pós-Modernidade se inserem no campo da ideologia. Através da ideologia, são construídos imaginários e lógicas de identificação social cuja função seria escamotear o conflito entre as classes sociais, dissimular a dominação de classe e ocultar a presença do particular, dando-lhe a aparência de universal. O discurso ideológico se caracteriza por uma construção imaginária no sentido de imagens da unidade do social, graças à qual fornece aos sujeitos sociais e políticos um espaço de ação que deve necessariamente fornecer representações coerentes para explicar a realidade social e apresentar normas coerentes para orientar a prática política.
A Pós-Modernidade é uma poderosa arma ideológica do capitalismo de mercado neoliberal e da globalização ao incorporar uma forma de produção do imaginário social que corresponde aos anseios da classe dominante como meio mais eficaz de controle social e de amenizar os conflitos de classe, seja invertendo a noção de causa e efeito, seja silenciando questões que por isso mesmo impedem a tomada de consciência do trabalhador de sua condição histórica, formando ideias falsas sobre si mesmo, sobre o que é ou o que deveria ser. Os ideólogos da Pós-Modernidade afirmam que estaríamos em uma nova era, pós-moderna na qual não valeriam mais as teorizações passadas que construíam seus argumentos sobre o capital, capitalismo, valor, trabalho produtivo, proletariado revolucionário, etc., a partir da lógica industrial, fabril. Em outras palavras, a morte da Modernidade implicaria na morte do pensamento de Karl Marx, assim como a de qualquer meta-narrativa totalizante. Assim, na concepção do que seria a sociedade pós-industrial, o pós-modernismo passa para a negação de toda perspectiva totalizante e para a afirmação da fragmentação, do descontínuo e do caótico.
A Pós-Modernidade, como movimento teórico e político, envolveu forças difusas, mas influentes junto à juventude e vários movimentos sociais. O objetivo era desconstruir o discurso dos partidos políticos revolucionários, do movimento sindical e do próprio marxismo, como síntese teórica da revolução social. Para os adeptos da Pós-Modernidade, os discursos de temas abrangentes, como a igualdade, o socialismo, a emancipação humana, os valores históricos do proletariado, as soluções coletivas contra a opressão humana, eram coisa do passado e produto de um mundo que já não existia mais. No lugar desses velhos temas, foi apresentado um novo discurso, como forma de reconhecer a fragmentação da realidade e do conhecimento, a constatação da diferença, a emergência de novos sujeitos sociais, com características, valores e reivindicações específicas, como os movimentos sociais, de gênero, raça, etnia, etc, e novas formas de luta, inclusive com renúncia à tomada do poder.
O fim da centralidade do trabalho é um dos temas mais destacados pelos pós-modernistas com o argumento de que as tecnologias da informação, a reestruturação produtiva e a inserção acelerada de ciência no processo produtivo tornaram obsoleto o conceito de classe operária e proletariado, até mesmo porque eles estão se tornando residuais num mundo globalizado onde impera a robótica, a internet e a informática avançada. Baseado no argumento de que a classe operária está diminuindo em todo o mundo, os pós-modernistas chegaram a dar adeus ao proletariado, que seria um conceito típico da Segunda Revolução Industrial. Trata-se de um tremendo equívoco não considerar que, quanto mais a sociedade se moderniza, quanto mais insere ciência e tecnologia na produção e mais amplia sua composição orgânica do capital, mais pressiona as taxas de lucro para baixo. Por isso, o capitalismo não pode existir sem seu contraponto, o proletariado que é a fonte de seu lucro. Se o capitalismo automatizar todas suas fábricas o sistema entraria em colapso, pois os robôs são mais disciplinados do que os seres humanos, são capazes de trabalhar sem descanso, não reivindicam salário, nem fazem greve, mas também tem seu calcanhar de Aquiles: não consomem bens e serviços. Se não tem consumidores, os capitalistas não têm para quem vender suas mercadorias. Ou seja, com a automatização total, o sistema entrará em colapso em função de suas próprias contradições.
Muitos dos autores defensores da Pós-Modernidade advogam também falsamente o fim das classes sociais, de forma que a sociedade pós-industrial seria, ao mesmo tempo, e pelas mesmas razões, uma sociedade pós-classista. A Pós-Modernidade seria fruto, assim, da derrota do socialismo real, isto é, da derrota de uma meta-narrativa que se propunha alternativa frente à ordem capitalista. Ao capitalismo neoliberal seria necessário a todos reconhecê-lo como uma realidade incontestável, contra o qual não poderiam ser construídas alternativas totalizantes. O que fazer frente a essa nova era pós-moderna? Como agir coerentemente diante do mundo? A resposta pós-moderna é a de que não deveríamos tentar nos engajar em nenhum projeto global.
Os sinais da Pós-Modernidade se apresentam de forma clara no campo político com sua atitude contrária à ideia de revolução como passaporte necessário para a construção de uma “nova sociedade” “sem classes” e “sem desigualdade”, de um “novo homem” e da “felicidade coletiva nos planos nacional e mundial”. O argumento contrário à revolução está apoiado no fato de que as revoluções ocorridas que levaram ao socialismo real resultaram em totalitarismos, fracasso econômico e decepção da população obrigada a conviver com a falta de liberdade.
A opção oferecida pela Pós-Modernidade do ponto de vista político para os povos do mundo inteiro limita-se às alternativas seguintes: 1) capitulação/resignação/conformismo com a vitória histórica do capitalismo globalizado neoliberal; ou então, 2) admite contestação da ordem vigente, mas não a partir de uma perspectiva totalizante, global que leve à substituição do capitalismo, mas sob uma ótica fragmentada de lutas. A postura prática do pós-modernismo é de não contestar a lógica capitalista como ela é de fato. Deliberadamente, a Pós-modernidade defende a tese de que é impossível contestar um sistema vitorioso e que veio para ficar, o capitalismo neoliberal.
- A ação política pós-moderna e o advento da pós-verdade
A ação política pós-moderna, descrente da ação política tradicional (partidos políticos, sindicatos, eleição de representantes, etc), visa incentivar ações voluntárias através de ONGs, bem como de atos mais ou menos espontâneos de grupos e de sujeitos que investem, por exemplo, em melhorar a saúde da sociedade. São, também, as ações pró-educação para diminuir a violência no trânsito, ações pró-educação ambiental, a luta pela extinção do tabagismo e das drogas, a participação de ações contra a fome, a prestação de serviço para a eliminação do analfabetismo, etc, todas elas de inspiração pós-moderna. A ideologia pós-moderna é responsável por grande parte das derrotas dos movimentos sociais nestas duas décadas em todo o mundo porque ao influenciar boa parte da juventude e lideranças dos movimentos sociais a atuarem sob uma ótica fragmentada de lutas, está levando à frustração milhares de lutadores sociais porquanto essas lutas têm uma trajetória de crescimento no início e vai enfraquecendo até serem anuladas com o evoluir do tempo como têm ocorrido no Brasil e no mundo.
O pós-modernismo é o fetiche ideológico típico dos tempos de neoliberalismo e representa a ideologia pequeno-burguesa da submissão sofisticada à ordem do capital. Todos que seguem esse ritual, de maneira direta ou indireta, estão se subordinando à ideologia neoliberal a serviço do capital financeiro nacional e internacional, abrem mão de um projeto emancipatório e escondem sua impotência mediante um discurso cheio de abstrações sociológicas, mas muito conveniente para o capital. Por isso, ele combate as lutas de caráter geral, para fragmentá-las em lutas específicas, que não afrontam abertamente o sistema dominante.
A ação política pós-moderna da era contemporânea está utilizando, também, o que se denomina pós-verdade para ganhar a opinião pública com o uso de notícias falsas (fake news). Nos dias atuais, o termo “pós-verdade” ganhou grande importância na sociedade. Escolhida como palavra do ano pelo Dicionário de Oxford, conceitua-se pós-verdade como algo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para ganhar a opinião pública do que o apelo à emoção ou crenças pessoais. O prefixo “pós” significa indicar de que não seja uma verdade do passado no sentido temporal, mas no sentido de que a verdade foi eclipsada (MCINTYRE, Lee. Post-Truth. Cambridge: MIT Press, 2018). A veracidade dos fatos, outrora buscada incessantemente pela mídia, em prol da confiabilidade da mensagem transmitida, segurança, imparcialidade e independência editorial, entre outros, perdeu o foco, cedendo significativo espaço a notícias falsas (fake news), meias-verdades, a conclusões precipitadas, obtidas mediante total descaso com evidências e provas.
Inverter o sentido das coisas e tornar a mentira em verdade com “fake news” tem sido uma forma arrasadora de atingir a sociedade. Este é o fenômeno da pós-verdade. A máquina de impulsão do novo fenômeno da pós-verdade são as mídias sociais. Tais mecanismos proporcionam a qualquer indivíduo a possibilidade de disseminação em massa de informações inverídicas, isto é, sem nenhum fundamento. Atribui-se à pós-verdade à vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos e à vitória do Brexit no Reino Unido (D´ANCONA, Matthew. Pós-verdade. Barueri: Faro Editorial, 2018). O mesmo pode-se atribuir a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais do Brasil que disseminou mentiras que foram admitidas como verdade pelo eleitorado. Já se tem ciência de que as consequências para a sociedade podem ser as mais devastadoras. Atualmente, o Brasil vem presenciando situações calamitosas, baseadas na divulgação de imagens pessoais e relatos de barbaridades contra pessoas, ensejando comoção pública evidenciadas nas notícias, sem sequer ocorrer a possibilidade de contraditório e ampla defesa por parte da pessoa afetada.
A pós-verdade se apoia no niilismo de Friedrich Nietzsche que foi o filósofo do nazismo. Quando se fala de niilismo, é comum entender que se trata da negação de quaisquer valores. Nietzsche leva o termo para um caminho extremo ao considerar o niilismo a negação da vida. O que é a vida para Nietzsche? A vida é dominação, violência, afirmação de si, é exercício da força, é se desligar do rebanho e se individualizar, é enfrentar o mundo abertamente e não ser enganado com falsas crenças, é amar o mundo do jeito que ele é. O niilista é aquele que deixa de viver o agora em favor de uma suposta vida futura (num paraíso cristão ou numa sociedade ideal). Para um niilista não existe verdade absoluta e tudo é relativo (NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1978). A questão da pós-verdade relaciona-se com a visão de Nietzsche que considera que “não há fatos, apenas versões”. A busca pela suposta verdade passa a segundo plano.
A visão niilista é a de que ninguém acessa a essência dos acontecimentos em si na sua inteira completude e complexidade. O entendimento é o de que não existem fatos objetivos, pois todo fato, enquanto evento percebido pelo homem, é subjetivo. Os seres humanos apreendem os eventos, os acontecimentos temporais, por meio dos seus sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato) e transformam essas informações em linguagem. Somente a partir daí, quando se traduz os eventos em linguagem, é que se tem fatos. Todo fato é uma interpretação do evento, uma “manipulação” humana dele, não existindo fato objetivo, mas apenas elementos objetivos do acontecimento temporal que necessariamente passarão pela subjetividade humana para entrar na sua percepção e na comunicação. Se há alguma verdade, ela não é deste plano. No nível de consciência atual do ser humano, ele apenas pode apreender perspectivas limitadas dos fenômenos e objetos. A visão niilista parte, portanto, da premissa de que a verdade, aquela compreendida como a correspondência entre o fato em linguagem e o evento, entre aquilo que se diz e aquilo que se tem na realidade, não existe na Terra. Para o niilista, se não há essa correspondência, não há verdade tal qual concebida ao longo da história humana.
Segundo a visão niilista, também não há verdade relativa, pois não há correspondência entre o fato pensado em linguagem por uma pessoa e o pensado por outra. Cada pessoa molda a sua realidade de uma forma, ainda que submetida por eventos objetivos em si, está sempre sujeitos à subjetividade de cada ser humano, por mais simples que sejam os eventos. A visão niilista de Friedrich Nietzsche sobre o mundo é, portanto, extremamente complexa: nem presa a um suposto realismo objetivo, nem a um suposto subjetivismo. São os padrões sociais (subjetivos) e naturais (objetivos) que permitem a construção (sempre subjetiva) de informações e a comunicação em linguagem a partir de eventos (em si objetivos). Dito isso, a manipulação dos fatos, ou dos eventos vertidos em linguagem, que são construções humanas, sempre existiu, seja de forma consciente, seja inconsciente, mas alcançou níveis nunca vistos na história da humanidade na era contemporânea com o advento da pós-verdade.
A ideia de pós-verdade é, portanto, uma má compreensão de como o homem se relaciona com o mundo, de como ele constrói informações e se comunica. O pior é que ela reforça a inadequada ideia clássica de verdade, induzindo a crer que existiriam fatos objetivos negados pelas pessoas por conta de suas crenças, o que não acontece exatamente dessa forma. Todos constroem fatos influenciados pelas suas crenças, sobretudo políticas, e, quanto mais paixão, mais fácil a manipulação. Fatos tidos por objetivos e irrefutáveis em dado momento histórico são quase sempre desmentidos. Isso acontece até mesmo com as Ciências Naturais, a Física, a Astronomia, como por exemplo, o geocentrismo, que foram, mais tarde, desmentidas. O filósofo Nietzsche, antes mesmo que isso acontecesse, já dizia, no livro Além do Bem e do Mal, “que a Física, também, é somente uma interpretação e um arranjo do mundo (de acordo com nós mesmos!), e não uma explicação do mundo” (NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. Porto Alegre: L&PM Editores. 2008).
A busca pela verdade científica, o uso da lógica formal e o estudo de métodos têm sido muito importantes para os avanços no conhecimento humano havidos nos últimos séculos, inclusive para o desenvolvimento tecnológico que permitiu uma melhoria de vida em geral da população mundial. A crença numa verdade única e objetiva é, entretanto, uma das principais causas de conflitos de todas as naturezas, pois leva ao afastamento entre os homens, a uma noção de que há algo verdadeiro a ser descoberto por cada ser humano. Essa visão individualista do conhecimento leva ao fechamento de cada indivíduo em relação às visões do outro. Cada um pensa ser o detentor da verdade e, por isso, estaria apto a atacar os demais que lhe são contrários, pois, associada a essa detenção da verdade, muitas vezes está a de detenção do bem, do fazer certo.
- Conclusões
O desaparecimento no mundo de hoje das últimas reservas de racionalidade crítica preconizada pelo Iluminismo e pela Modernidade, que se degradaram em sucessivos processos de autodestruição ao longo do tempo, abriram caminho para a pós-modernidade que contribuem para o aumento do calvário a que estão submetidos os seres humanos e representa, também, uma gigantesca ameaça para o progresso da humanidade. Diante deste fato, trata-se de um imenso desafio para os pensadores contemporâneos estabelecer novos paradigmas e novos valores de comportamento racional a serem formulados para a sociedade humana na era atual visando derrotar a nefasta influência política e ideológica da pós-modernidade que, segundo seus ideólogos, não existem verdades, que todos os sistemas anteriores estavam errados e que nada pode ser conhecido. Os pensadores contemporâneos precisam se mobilizar na reinvenção de um novo projeto Iluminista como fizeram os pensadores do século XVIII visando a construção de um mundo novo que leve ao fim o calvário da humanidade.
Além do combate à pós-modernidade em todas as suas dimensões, é preciso, também, enfrentar a pós-verdade. Diante da ameaça ao progresso da humanidade representada pela pós-verdade, trata-se de um imenso desafio para a humanidade derrotá-la. A pós-verdade que se apresenta com as “fake news” faz parte da nefasta influência política e ideológica da pós-modernidade que, segundo seus ideólogos, não existem verdades e que nada pode ser conhecido. Se desejamos melhorar os meios de comunicação que trabalham com a verdade em oposição às “fake news”, devemos apoiá-los fortemente e se desejamos combater a pós-verdade, é preciso combater os meios de comunicação que disseminam “fake news” denunciando-as. É preciso combater as notícias falsas para evitar que elas prosperem contrapondo-as imediatamente e fortemente com a veracidade dos fatos em prol da verdade. Se percebemos que há mentiras que precisam ser combatidas em benefício da sociedade, seu enfrentamento depende de cada um de nós que defendemos que a verdade prevaleça.
* Fernando Alcoforado, 80, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).