PLANO DE AÇÃO NECESSÁRIO PARA EVITAR A DEBACLE ECONÔMICA E SOCIAL DO BRASIL EM CONSEQUÊNCIA DO CORONAVIRUS

Fernando Alcoforado*

Para evitar a debacle econômica e social do Brasil que resultará das medidas adotadas pelo governo federal, governos estaduais e prefeituras municipais visando o combate ao coronavirus, deveria ser elaborado um plano de ação com medidas econômicas e sociais a serem adotadas imediatamente durante a depressão econômica que ocorrerá com a disseminação do coronavirus, bem como medidas econômicas para reativar a economia brasileira e medidas sociais após a depressão econômica com o fim da disseminação do coronavirus. O plano de ação contemplaria as medidas descritas a seguir:

1) Medidas econômicas imediatas a serem adotadas durante a disseminação do coronavirus no Brasil para combater o coronavirus e fazer frente ao agravamento da situação financeira de pessoas físicas e empresas, do desemprego e da pobreza extrema.

2) Medidas econômicas a serem adotadas para reativar a economia brasileira após a depressão econômica resultante do combate à disseminação do coronavirus no Brasil.

3) Medidas sociais complementares a serem adotadas para combater o desemprego e a pobreza extrema após a depressão econômica com a disseminação do coronavirus no Brasil.

1.Medidas econômicas imediatas a serem adotadas durante a disseminação do coronavirus no Brasil para combater o coronavirus e fazer frente ao agravamento da situação financeira de pessoas físicas e empresas, do desemprego e da pobreza extrema

As medidas imediatas a serem adotadas durante a disseminação do coronavirus no Brasil são as seguintes:

  • Investimento maciço na expansão do sistema de saúde visando o combate ao coronavirus;
  • Suspensão do pagamento de dívidas por pessoas físicas e jurídicas;
  • Concessão do seguro desemprego para todos os desempregados;
  • Concessão de renda básica universal para toda a população pobre.

Este conjunto de medidas deveria ser adotado imediatamente para combater o coronavirus com investimentos maciços na infraestrutura de saúde (R$ 54 bilhões neste ano e nos anos seguintes para reforçar o setor de saúde e não os ridículos R$ 4,5 bilhões propostos pelo ministro Paulo Guedes para combater a pandemia do coronavirus) e atenuar os efeitos da depressão econômica resultante do combate ao coronavirus sobre a situação financeira agravada das pessoas físicas endividadas (62 milhões de habitantes) e empresas endividadas (14,083 milhões), o agravamento do desemprego em massa com a concessão do seguro desemprego para todos os desempregados do país sem exceção (11,9 milhões de trabalhadores) e a piora das condições de vida de todos os pobres com a concessão da renda básica universal  (13 milhões de miseráveis). A fonte de recursos para executar essas medidas seriam as reservas internacionais do Brasil no montante de US$ 352 bilhões. Este recurso seria melhor aplicado do que faz o Banco Central com o uso dessas reservas para baixar a cotação do dólar em relação ao real.

Após a depressão econômica durante a disseminação do coronavirus, o esforço do governo federal deveria ser voltado para a planificação da economia nacional visando assegurar o crescimento econômico e o desenvolvimento do Brasil em bases sustentáveis.

2.Medidas econômicas a serem adotadas para reativar a economia brasileira após a depressão econômica resultante do combate à disseminação do coronavirus no Brasil

As medidas econômicas a serem adotadas para superar a depressão econômica resultante do combate à disseminação do coronavirus estão descritas a seguir:

  • Desvalorização do Real para tornar as exportações brasileiras mais competitivas;
  • Desenvolvimento de um amplo programa de exportações, sobretudo do agronegócio e do setor mineral;
  • Concessão de empréstimos a juros baixos a empresas;
  • Estímulo ao agronegócio e à produção industrial com a concessão de incentivos fiscais;
  • Construção de uma grande quantidade de obras públicas, com destaque para a infraestrutura econômica (energia, transporte e comunicações) e social (educação, saúde, habitação e saneamento básico);
  • Corte de mordomias e de órgãos da administração pública desnecessários e redução dos encargos com o pagamento de juros e amortização da dívida pública a ser renegociada com os credores da dívida pública para o governo dispor de recursos para investimento na infraestrutura econômica e social.

Este conjunto de medidas é uma estratégia de desenvolvimento inspirada naquela que foi implementada em 1933 pelo governo do presidente Franklin Delano Roosevelt dos Estados Unidos que recebeu o nome de “New Deal” (Novo Acordo). A situação do Brasil com a disseminação do coronavirus será de depressão econômica semelhante à dos Estados Unidos após a grande depressão eclodida com a quebra da Bolsa de Nova York em 1929 que levou à bancarrota da economia e provocou a geração de 12 milhões de desempregados no país.

A crise de 1929 colocou em xeque as medidas econômicas liberais adotadas pelo governo do presidente Herbert Hoover que considerava ser possível alcançar o equilíbrio econômico e social sem a intervenção maciça do Estado. O que aconteceu nos Estados Unidos está ocorrendo no Brasil com a política neoliberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, que leva à inação do Estado brasileiro na superação da crise eclodida em 2015 e que será agravada com a depressão econômica resultante das medidas adotadas para combater o coronavirus.

A resposta à crise foi encontrada nos Estados Unidos e depois nos demais países do capitalismo ocidental com a ampliação da intervenção do Estado com o planejamento econômico durante o governo do presidente Franklin Delano Roosevelt. O “New Deal” foi influenciado pela teoria econômica de John Maynard Keynes, economista britânico que apontava a necessidade da mediação econômica do Estado para garantir o bem-estar da população, ação que o liberalismo seria incapaz de realizar.  Para enfrentar a crise econômica e social nos EUA, Roosevelt utilizou os trabalhos de um grupo de renomados economistas inspirados em Keynes para elaborar o “New Deal”, cujo principal objetivo era criar condições para a queda do desemprego, através da articulação de investimentos estatais e privados. As principais medidas foram as seguintes:

  • Desvalorização do dólar para tornar as exportações mais competitivas;
  • Empréstimos públicos aos bancos para evitar falências no sistema financeiro;
  • Criação do sistema de seguridade social, com destaque para o seguro desemprego e a Lei de Seguridade de 1935;
  • Direito de organização sindical;
  • Estímulo à produção agrícola;
  • Construção de uma grande quantidade de obras públicas, com destaque às hidrelétricas e rodovias.

Naquela época, nos Estados Unidos, houve grande estimulo à contratação de trabalhadores para alcançar uma situação de pleno emprego da população economicamente ativa e às ações de seguridade social para estimular o consumo da população, aumentar a produção industrial, as atividades agrícolas e de serviços em todos os níveis. Além disso, a intermediação dos sindicatos e de organizações da sociedade civil nas negociações das reivindicações tentava evitar violentos conflitos, garantindo a paz social. Essa perspectiva de atuação econômica visava o aumento do consumo, principalmente dos trabalhadores e o estímulo ao desenvolvimento da cadeia produtiva de todos os setores econômicos. As medidas alcançaram êxito, revigorando novamente o capitalismo norte-americano, ao ponto de estudos afirmarem que dez anos após a implantação do “New Deal”, os EUA se aproximaram dos patamares econômicos em que se encontravam em 1929.

Urge, portanto, fazer com que o Estado brasileiro assuma as rédeas da economia nacional abandonando o fracassado modelo econômico neoliberal para reativar a economia brasileira e o pleno emprego colocando um fim na depressão econômica que ocorrerá  durante a disseminação do coronavirus seguindo o exemplo do Presidente Roosevelt dos Estados Unidos adotado em 1933 durante a grande depressão econômica resultante da quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929.

Todo o conjunto de medidas para reativar a economia brasileira após a depressão econômica resultante do combate ao coronavirus deve ser complementado com medidas de combate ao desemprego e à pobreza extrema para evitar a debacle social. É preciso que sejam adotadas medidas que atenuem os efeitos da retração econômica durante e após o combate ao coronavirus com relação aos desempregados e aos pobres em geral. É preciso combater a visão dos partidos e políticos de direita que veem o desemprego e a pobreza como problemas inevitáveis e que não devem ser objeto de intervenção do governo. A direita, contrária à intervenção do Estado na economia e convencida demais de que o mercado livre trará automaticamente o bem-estar universal, nada faz para resolver o problema. A tendência imediata é a de agravamento do desemprego e da pobreza extrema no Brasil com a retração da economia com o combate ao coronavirus. Diante desta perspectiva, qual seria a solução pata atenuar o desemprego e a pobreza na conjuntura atual? A solução consistiria na adoção pelo governo federal, governos estaduais e prefeituras municipais de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento da economia social e solidária para atenuar o desemprego e a implementação da renda básica ou renda mínima universal para atenuar a pobreza. Sem a adoção dessas medidas, o Brasil será levado inevitavelmente à ruina econômica e à convulsão política e social com as restrições impostas pelo combate ao coronavirus. As medidas complementares de combate ao desemprego e à extrema pobreza seriam as seguintes:

3.Medidas sociais complementares a serem adotadas para combater o desemprego e a pobreza extrema após a depressão econômica com a disseminação do coronavirus no Brasil

  •  Desenvolvimento da economia social e solidária para combater o desemprego;
  • Concessão da renda básica ou universal às populações de extrema pobreza.

Sobre a Economia Social e Solidária, é importante observar que é uma das soluções para atenuar o problema do desemprego e abrir os caminhos para inventar no futuro outras maneiras de produzir e consumir contribuindo para maior coesão social. A Economia Social e Solidária é um novo modelo de desenvolvimento econômico, social, político e ambiental que tem uma forma diferente de gerar trabalho e renda, em diversos setores, seja nos bancos comunitários, nas cooperativas de crédito, nas cooperativas da agricultura familiar, na questão do comércio justo, nos clubes de troca, etc. A Economia Social e Solidária constitui uma nova forma de organização do trabalho e das atividades econômicas em geral emergindo como uma importante alternativa para a inclusão de trabalhadores no mercado de trabalho, dando uma nova oportunidade aos mesmos, através da autogestão. Com base na Economia Social e Solidária, existe a possibilidade de recuperar empresas de massa falida, e dar continuidade às mesmas, com um novo modo de produção, em que a maximização do lucro deixa de ser o principal objetivo, dando lugar à maximização da quantidade e da qualidade do trabalho.

A Economia Social e Solidária se coloca como uma alternativa possível para gerar emprego para os trabalhadores que estão em sua maioria excluídos do mercado de trabalho formal e do consumo. A Economia Social e Solidária surgiu em várias partes do mundo com práticas de relações econômicas e sociais que estão a propiciar a sobrevivência e a melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas. Essas práticas são baseadas em relações de colaboração solidária, inspiradas por valores culturais que colocam o ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica, em vez da acumulação privada de riqueza em geral e de capital em particular. Pode-se afirmar que a adoção da Economia Social e Solidária é, sem sombra de dúvidas, a solução que permitiria fazer frente ao desemprego em massa que cresce de forma vertiginosa no Brasil.

Por sua vez, a política de renda básica ou renda mínima universal para a população é uma das soluções para atenuar a pobreza. O programa de transferência de renda, o Bolsa Família, é um exemplo da aplicação da política de renda básica. Dar dinheiro de graça para todos, ou seja, um programa de renda mínima universal possibilitaria atenuar ou eliminar a pobreza. Entre as razões para que esta ideia vire realidade, reside no fato de que distribuir dinheiro diminui a criminalidade, melhora a saúde da população e permite a todos investir em si mesmos. A adoção da política de renda básica ou renda mínima universal para a população pobre é uma das soluções para atenuar a pobreza haja vista que ela permitiria fazer com que os pobres passassem a dispor de dinheiro para fazer frente às suas necessidades básicas em termos de alimentação, saúde, moradia, etc. É importante observar que pobreza é a condição de quem é pobre, ou seja, daquele que não tem as condições básicas para garantir a sua sobrevivência com qualidade de vida e dignidade. Ao dispor de uma renda básica, a população pobre terá condições de suprir suas necessidades básicas.

É importante observar que a adoção de um plano de ação com estas características poderá fazer com que seja evitada a convulsão social que poderá resultar das medidas restritivas à atividade econômica para o combate ao coronavirus e  levar o Brasil a uma guerra civil nunca ocorrida em sua história de consequências imprevisíveis. É imprescindível que haja união nacional no combate ao coronavirus e ao esforço de reativação da economia e de combate ao desemprego e à pobreza extrema. Os governantes do Brasil em todos os níveis têm o dever de perseguir este objetivo porque está em jogo a vida das pessoas e o futuro econômico do País.

* Fernando Alcoforado, 80, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017),  Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).

 

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Author: falcoforado

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES ALCOFORADO, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023) e A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023).

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