Fernando Alcoforado*
Este artigo tem por objetivo demonstrar que a globalização contemporânea está ameaçada devido à continuidade da depressão na economia mundial iniciada em 2008, à pandemia do novo Coronavirus que abalou o comércio internacional, ao vertiginoso endividamento público, das famílias e das empresas agravado ainda mais pela pandemia e ao aprofundamento da estagnação econômica que atingiu toda a economia mundial. O mundo enfrenta a perspectiva de uma mudança profunda com um retorno à economia nacional que seja autossuficiente. Esta mudança é exatamente o oposto da globalização. Quanto mais pandemia durar comprometerá a globalização e reforçará o discurso da busca da autossuficiência nacional.
Nas últimas três décadas, a globalização econômica e financeira foi um retumbante fracasso econômico e, também, social. A globalização econômica e financeira está tendo vencedores como o sistema financeiro internacional e a China e como perdedores a grande maioria dos países do mundo. É fato que as perdas sociais provocadas por um mundo mais globalizado foram imensas. O desemprego afeta milhões de trabalhadores em todo o mundo e as desigualdades sociais alcançaram níveis recordes. A globalização já estava sob ataque de populistas, terroristas, guerreiros comerciais e ativistas climáticos. Agora, chegou o novo Coronavírus para abalar as estruturas da globalização.
A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento prevê redução de 5% a 15% nos investimentos estrangeiros diretos no mundo em 2020 devido ao novo Coronavirus. A OCDE projeta que o impacto mundial do novo Coronavírus deve gerar prejuízo de 0,5 a 1,5 ponto percentual do PIB global. Trata-se de um valor de 500 bilhões a 1,4 trilhão de dólares em geração de riqueza que simplesmente deixará de existir. O novo Coronavirus não tem passaporte, ignora fronteiras, mas também alimenta o protecionismo e o nacionalismo.
O primeiro impacto do novo Coronavírus na economia global foi a paralisação das indústrias chinesas. De carros a iPhones, as cadeias de produção mais variadas espalhadas pelo planeta passaram a sofrer um choque inesperado, provocado pelo organismo microscópico que escapou do mercado de animais na cidade chinesa de Wuhan. A visão do novo vírus como um “invasor estrangeiro” ou um “perigo chinês” serve de alimento a ideologias nacionalistas e até ao racismo puro e simples. A pandemia também revelou o risco da confiança nas cadeias globais de produção e fez ressurgir o protecionismo. À medida que o vírus se espalha para a Europa e pelo mundo, torna a China um pouco mais frágil e a dependência mundial dela como ‘a fábrica do mundo’ mais duvidosa.
A globalização da doença aconteceu com navios e aviões que a espalhou muito rapidamente pelo planeta. Para se proteger, o impulso imediato dos países foi o de recuar e erguer barreiras. Já vemos os números de voos caindo drasticamente. De certa forma, esse vírus ressalta o desequilíbrio na globalização. Mais do que fábricas voltando para seu país de origem, vemos empresas diversificando a cadeia de suprimentos para que não sejam mais tão dependentes de um país, como a China.
O novo Coronavírus pode mudar o curso da história. Sua disseminação pode ser um momento decisivo nos debates sobre quanto o mundo poderia se integrar ou se separar. Mesmo antes da chegada do vírus à Europa, as mudanças climáticas, as preocupações com a segurança e as queixas sobre o comércio injusto haviam intensificado as ansiedades sobre viagens aéreas globais e cadeias de suprimentos industriais globalizadas, além de terem reforçado as dúvidas sobre a confiabilidade da China como parceira. Junto com o número de infectados e mortos, o impacto econômico é redimensionado a cada novo sinal de que esta crise é mais profunda do que se imaginava.
A crise do novo Coronavirus agravou a crise da economia global que pode ser maior do que a Grande Depressão da década de 1930. Questiona-se no momento a capacidade do sistema capitalista de se recuperar da crise atual e de retomar a acumulação de capital em longo prazo que seria comparável com a depressão econômica que ocorreu nos anos 1930 e que se recuperou dez anos depois graças aos investimentos públicos em obras públicas e aos gastos militares voltados para a 2ª Guerra Mundial. Uma questão crucial diz respeito ao nível e crescimento da dívida pública, mas também da dívida das famílias e das empresas, ao ponto de o cancelamento das dívidas se tornar uma reivindicação política que pode, facilmente, ser assumida por um número muito grande de trabalhadores e, também, micro e médio empresários.
Um fato que é preciso considerar é que a crise econômico-financeira global de 2008, isto é, a grande recessão iniciada há doze anos nunca terminou. Muitos economistas designam pelo nome de Great Depression (grande depressão), o período aberto pela crise mundial, em que a falência, em outubro de 2008, do banco Lehmann Brothers foi o ponto culminante. Esse nome é totalmente justificado pela semelhança da ruptura com o que aconteceu com a depressão de 1929 e, principalmente, pela fase, bastante longa, de recuperação da crise iniciada no início da década de 1940.
A crise do novo Coronavirus encontrou a economia mundial em péssimo estado porque, além de extremamente endividada, estava estagnada em seu crescimento. Além disso, os países do mundo, sobretudo os países capitalistas centrais, se defrontam com o enfraquecimento das ferramentas monetárias disponíveis, da perda de poder de intervenções dos bancos centrais e do nível muito alto de dívidas públicas. De 2008 a 2020, a exploração de recursos naturais levou a um aumento nos preços de matérias-primas básicas, sob o efeito do início da escassez de recursos minerais e da degradação ambiental, enquanto os impactos do aquecimento global começam a alcançar todos os países.
Hoje, o mundo se defronta com o enfraquecimento dos governos para intervir nas economias nacionais. Além disso, o mundo é governado pelas forças de um mercado totalmente desregulado, isto é, fora de controle. No lugar da estabilidade, o que temos hoje é um sistema em ruínas, amplamente desregulado conhecido como “globalização” governado por cowboys econômicos sem interesse em justiça econômica e social e sustentabilidade ambiental. O novo Coronavirus associado ao fracasso da globalização está levando as economias do norte e do sul globais cambalearem com uma crise que tende a levá-las à bancarrota.
O novo Coronavírus está sacudindo os pilares que sustentam o templo da globalização, fazendo com que o sistema capitalista mundial se desestabilize. O colapso iminente do sistema capitalista mundial é uma oportunidade de redesenhar e reconstruir novamente a arquitetura econômica e financeira internacional, para que ela seja mais resistente a choques econômicos e trabalhe para combater a ruptura climática e a extinção de espécies.
O que antes era economicamente impensável, agora se torna possível.
O fracasso da globalização já havia colocado na ordem do dia a retórica nacionalista que ficou evidenciado nos discursos de Donald Trump nos Estados Unidos e dos partidários do Brexit no Reino Unido. O novo Coronavirus reforçou este discurso. A percepção que começa a acontecer é a de que a globalização atual pode se desfazer sob pressão da pandemia e do fracasso da globalização. O maior perigo para a globalização é representado pelo novo Coronavírus porque quanto mais pandemia durar e ocorrer mais obstáculos ao livre fluxo de pessoas, bens e capitais, este estado de coisas comprometerá a globalização e reforçará o discurso da busca da autossuficiência nacional.
A pandemia do novo Coronavirus restaurou as “fundações nacionais”. Na ausência de um sistema internacional de cooperação e coordenação baseado em instituições multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial da Saúde, os países foram forçados a recorrer às suas próprias forças, recursos e instituições. Cada país respondeu diferentemente à doença – de acordo com seus próprios sistemas de saúde, culturas, instituições políticas e capacidade financeira. A pandemia do novo Coronavirus deixou evidenciada a dependência dos países de equipamentos hospitalares da China e a necessidade da autossuficiêcia nacional.
O mundo enfrenta a perspectiva de uma mudança profunda com um retorno à economia nacional que seja autossuficiente. Esta mudança é exatamente o oposto da globalização. Enquanto a globalização implica uma divisão do trabalho entre economias díspares, um retorno à economia nacional autossuficiente significa que as nações se moveriam em direção oposta à globalização. É essa idéia de autossuficiência nas economias nacionais que eu defendo em meus livros “A invenção de um novo Brasil” e “Como inventar o futuro para mudar o mundo”, ambos publicados pela Editora CRV de Curitiba, Paraná, bem como uma maior coordenação e cooperação internacional com a constituição de um governo mundial que atuaria para ordenar a caótica economia mundial, construir um mundo de paz e impedir o colapso do suporte de vida da Terra e da humanidade com o desenvolvimento sustentável.
Para atenuar o impacto negativo do novo Coronavirus sobre a globalização, é preciso que haja a celebração de um pacto internacional através da ONU e dos organismos globais visando reconstrução da economia mundial em novas bases porque a globalização que operava até o advento do novo Coronavirus chegou ao fim.
* Fernando Alcoforado, 80, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).