Fernando Alcoforado*
Este artigo analisa os desdobramentos futuros da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e a necessidade de uma governança mundial para evitar novos conflitos internacionais e preservar a paz mundial. Em recente artigo que publicamos sob o título O conflito Rússia e Ucrânia como novo foco de guerra no mundo afirmamos que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia poderia acontecer em consequência da posição anti-Rússia assumida pelo governo de extrema-direita da Ucrânia presidido por Volodymyr Zelenskyy que estava negociando a adesão do país à União Europeia e à OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte (aliança militar ocidental que foi constituída em 1949 para enfrentar a União Soviética durante a Guerra Fria) se colocando como aliada dos Estados Unidos e das potências europeias e a posição assumida pelo presidente Wladimir Putin da Rússia ao considerar que a incorporação da Ucrânia à OTAN ameaçaria a integridade do país haja vista que, desde o fim da União Soviética em 1989, houve o cerco da Rússia com a cooptação de antigos aliados da União Soviética no leste europeu do ponto de vista econômico com suas adesões à União Europeia e do ponto de vista militar com suas adesões à OTAN. Para Putin, a incorporação da Ucrânia à OTAN completaria o cerco da Rússia tornando-a vulnerável. As causas da guerra entre a Rússia e a Ucrânia são, portanto, sobretudo, geopolíticas e estratégicas. O que está em jogo não é, na realidade, a pura e simples adesão da Ucrânia à União Europeia e à OTAN mas a sobrevivência da própria Rússia que se sente ameaçada com a incorporação da Ucrânia pelas potências ocidentais do ponto de vista econômico e militar.
A Ucrânia se tornou uma peça importante no tabuleiro geopolítico internacional porque, de um lado, os Estados Unidos e seus aliados da União Europeia visam ampliar o cerco da Rússia iniciado após o fim da União Soviética em 1989 quando vários países a ela então aliados como Albânia, Bulgária, Croácia, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Macedónia do Norte, Montenegro, Polónia, Romênia e República Tcheca aderiram à OTAN. Países ex-socialistas, aliados da União Soviética, como Bulgária, Estônia, Finlândia, Hungria, Croácia, Letônia, Lituânia, Polônia, Romênia, Eslovênia, Eslováquia e República Tcheca aderiram à União Europeia. Países como Montenegro, Macedônia, Sérvia e Albânia estão à espera de aprovação para entrada na União Europeia. O cerco à Rússia se completaria com a incorporação da Ucrânia à OTAN e à União Europeia como deseja os Estados Unidos e o governo ucraniano (Ver Figura 1). Diante deste fato, a estratégia militar da Rússia consiste em evitar a todo o custo que a Ucrânia seja incorporada à OTAN e à União Europeia.
É oportuno observar que o movimento de expansão da OTAN teve início com o fim da União Soviética em 1989 começando pelo Mar Báltico, atravessou a Europa Central, a Ucrânia e a Bielorússia, passando pela intervenção nos Bálcãs (ex- Iugoslávia) e chegando até a Ásia Central e o Paquistão, ampliando as fronteiras da OTAN. Ao terminar a década de 1990, a distribuição geopolítica das novas bases militares norte-americanas não deixa dúvidas sobre a existência de um novo “cinturão sanitário‟ separando a Alemanha da Rússia e a Rússia da China. A expansão da OTAN rumo às fronteiras russas é o principal perigo externo à Rússia. A chegada de Vladimir Putin ao poder na Rússia modificou radicalmente esse quadro geopolítico, até então muito desfavorável para os russos. A chegada de Vladimir Putin ao poder da Rússia em 2000, marcou o início da recuperação geopolítica da Rússia, cuja posição tinha sido muito enfraquecida durante o governo Ieltsin na década de 1990. Putin representa a ascensão ao poder de uma ampla e sólida coalizão de interesses econômicos e políticos que se uniram quanto à necessidade de recompor as bases mínimas de operação de um Estado capitalista moderno na Rússia que superasse a fase selvagem e predadora da “acumulação primitiva” na Federação Russa com Ieltsin no poder. A recuperação geopolítica da Rússia foi possível graças à afirmação de um projeto nacionalista de recuperação do Estado russo por parte de Putin.
Figura 1- O cerco da Rússia pela OTAN na Europa
Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60129112
Foi a partir do ano 2000 que a Rússia resolveu desenvolver uma parceria estratégica com a China. A Rússia considerou que a China poderia ajudá-la na sua resistência às ambições geopolíticas dos Estados Unidos tanto na Europa Oriental, quanto no Cáucaso ou na Ásia Central. A Organização da Cooperação de Xangai (Shanghai Cooperation Organization – SCO) foi criada em 2001 para estabelecer uma aliança entre a Rússia e a China em termos militares e de combate ao terrorismo, ao fundamentalismo religioso e ao separatismo na região da Ásia. A SCO é uma organização de cooperação política e militar que se propõe explicitamente a ser um contrapeso aos Estados Unidos e às forças militares da OTAN. Os dois países defendem, em geral, posições convergentes na ONU e nos demais fóruns internacionais, como, por exemplo, o G20.
São dois os cenários futuros para a guerra entre a Rússia e a Ucrânia; 1) O conflito bélico se restringe à Ucrânia; e, 2) O conflito se estende pela Europa e pelo mundo. Se o conflito se restringir à Ucrânia, a Rússia poderá ocupar militarmente todo o país para impor sua vontade ao inimigo. O governo Putin tentará derrubar o presidente Zelinskyy da Ucrânia para instalar um governo ucraniano pró-Rússia. O conflito poderia se tornar generalizado inicialmente na Europa se a OTAN intervir militarmente ao lado do governo da Ucrânia. Isto abriria caminho para uma nova guerra mundial com o envolvimento das grandes potências militares de consequências imprevisíveis com o uso de armas nucleares porque Putin ameaçou de retaliação os países que intervirem militarmente em apoio à Ucrânia. Os dois cenários acima citados trarão grandes consequências, não apenas geopolíticas, mas também econômicas para todos os países do mundo. Do ponto de vista geopolítico, pode significar a mudança na correlação de forças do ponto de vista militar com o fortalecimento da união militar entre a Rússia e a China ambas aliadas no enfrentamento dos Estados Unidos e maior declínio deste país como potência mundial. Do ponto de vista econômico, pode ocorrer a desestabilização da economia mundial.
A desestabilização de economia mundial impactará fortemente na Rússia, na Ucrânia e em vários países da Europa que sofrerão grande impacto econômico. Atualmente, a Ucrânia depende comercial e economicamente da Rússia, sobretudo por esta lhe fornecer gás natural, fonte de energia primordial ao país, e a Rússia ser o principal comprador de inúmeras matérias-primas produzidas pela economia ucraniana. Além disso, no leste da Ucrânia onde ainda se fala russo muitas empresas dependem das vendas para a Rússia. A Ucrânia não pode se desprender da Rússia, da qual muito depende, sobretudo para seu abastecimento de gás. Não apenas os ucranianos serão prejudicados, mas também, a Rússia que poderá ter suas exportações de gás natural e petróleo à Europa comprometidas haja vista que poderá cessar o suprimento desses combustíveis para vários países da região. É importante destacar o fato de que as exportações de gás e petróleo à Europa financiam cerca de metade de todo o orçamento anual federal russo que poderá ser comprometido com o fim do suprimento de petróleo e gás natural à Europa. A Rússia poderá superar este problema exportando gás natural em grande volume para a China para compensar o fim do suprimento aos países da Europa. Como a Rússia é o maior produtor de petróleo do mundo depois da Arábia Saudita, ela poderá ganhar bastante com a provável elevação do preço do petróleo e o aumento de suas exportações para a China. A Europa será, também, prejudicada porque poderá ter a cessação do fornecimento russo de petróleo e gás natural. A Europa consome 70% do petróleo e 65% do gás natural exportado pela Rússia. Vários países da Europa dependem do petróleo e gás natural russo. Países como a Alemanha e a Inglaterra dependem cada vez mais da Rússia para o fornecimento do combustível. Países como a Eslováquia e a Bulgária dependem 100% da Rússia para o fornecimento do combustível. Finalmente, a economia mundial será impactada pelo vertiginoso aumento do preço do petróleo e do gás natural com a saída da Rússia do suprimento aos países europeus. O Brasil será um dos países que será bastante afetado pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia porque os preços dos combustíveis aumentarão bastante porque estão vinculados ao preço do petróleo no mercado internacional e ao valor do dólar.
A guerra entre Rússia e Ucrânia significa a continuidade da velha ordem mundial em que os conflitos de interesses entre as grandes potências têm sido resolvidos a “manu-militare”, isto é, por meios militares. Há séculos, a humanidade se defronta com conflitos entre as grandes potências que não são resolvidas pela via diplomática e sim pelos meios militares porque vivemos em um mundo sem um governo mundial e um direito internacional que seja respeitado por todos os países, especialmente pelas grandes potências que procuram impor suas vontades na cena mundial. Sem a existência de um governo mundial e de um parlamento mundial democraticamente eleitos pela população mundial não há como o direito internacional ser aplicado efetivamente. Urge a humanidade se dotar o mais urgentemente possível de instrumentos necessários à construção de um mundo de paz. Ao longo da história da humanidade houve três tentativas de estruturar instrumentos voltados para a construção de um mundo de paz. A primeira tentativa ocorreu em 1648 com o Tratado de Westfália que colocou um fim à Guerra dos Trinta Anos (1618 – 1648) que marcou o século XVII como um dos conflitos mais sangrentos da história europeia. A segunda tentativa de estruturar instrumentos voltados para a construção de um mundo de paz ocorreu com a criação da Liga das Nações em 10 de janeiro de 1920 nos escombros da 1ª Guerra Mundial. A terceira tentativa de estruturar instrumentos voltados para a construção de um mundo de paz ocorreu com a criação da ONU (Organização das Nações Unidas) que foi fundada após a 2ª Guerra Mundial e tem sido inoperante ao longo de sua história, inclusive no atual conflito entre a Rússia e a Ucrânia. A ONU tem sido um fracasso na construção de um mundo de paz.
O insucesso na construção da paz mundial com o Tratado de Westfália, a Liga das Nações e a ONU demonstram a urgência de reestruturar a ONU para que ela possa exercer uma efetiva governança do sistema internacional que possibilite mediar os conflitos internacionais e assegurar a paz mundial. O governo mundial a ser exercido pela ONU, cuja Assembleia Geral seria transformada em Parlamento Mundial, teria por objetivo defender os interesses gerais do planeta, zelar no sentido de cada Estado nacional respeitar a soberania dos demais países e impedir a propagação dos riscos sistêmicos mundiais. A ONU reestruturada evitaria o império de um só país como já ocorreu ao longo da história da humanidade e a anarquia de todos os países como ocorre atualmente. Com um governo mundial e um parlamento mundial será possível combater a guerra e acabar com o banho de sangue que tem caracterizado a história da humanidade ao longo da história. Com a ONU reestruturada, deixaria de existir o Conselho de Segurança. Para ser democrático, o governo mundial deve ser representativo de todos os povos do mundo. A sobrevivência da humanidade depende da capacidade de se celebrar um Contrato Social Planetário representativo da vontade da maioria da população do planeta. Enquanto isto não ocorrer, novos conflitos como o atual entre a Rússia e a Ucrânia poderão acontecer.
*Fernando Alcoforado, 82, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019) e A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021).