Fernando Alcoforado*
Este artigo representa a continuação do artigo cujo título é Como fazer com que as utopias planetárias se realizem visando a construção de um mundo melhor [1]. Este artigo é o nono dos 12 artigos que abordam as 12 utopias planetárias que precisam ser realizadas visando a construção de um mundo melhor e contribuir para a conquista da felicidade dos seres humanos, individual e coletivamente. Este artigo tem por objetivo apresentar como fazer com que a utopia da utilização da ciência e da tecnologia exclusivamente para o bemda humanidadese torne realidadeacabando com a distopia representada pela ciência e pela tecnologia utilizadas, também, para a produção do mal para a humanidade.
É importante observar que a ciência busca a formulação de modelos e leis que explicam o funcionamento dos fenômenos e da natureza. A ciência busca o conhecimento para explicar os fenômenos da natureza identificando suas leis baseadas na observação e em métodos experimentais. A tecnologia se apoia nos conhecimentos gerados pela ciência através da qual a sociedade satisfaz suas necessidades. A ciência se refere ao conhecimento adquirido, a tecnologia se refere às habilidades, técnicas e processos usados para produzir os resultados desejados. A ciência tem o objetivo de explicar algo, enquanto a tecnologia está mais inclinada no desenvolvimento do uso de algo.
A humanidade vive, mais do que nunca, sob os auspícios e domínios da ciência e da tecnologia. O uso que se faz da ciência e da tecnologia é tão intensa que uma parcela significativa das pessoas acredita que elas só trazem apenas benefícios para a sociedade. Para o ser humano, a tecnologia torna a vida mais fácil, mais limpa e mais longa. O homem cultiva uma relação de dependência crescente em relação à ciência e à tecnologia na era contemporânea. É um comportamento habitual de grande parte da sociedade considerar a ciência e a tecnologia como libertadoras da humanidade dos fardos do trabalho e das ameaças representadas pelas forças da natureza. Somando a tudo isso, existe a visão generalizada de que o progresso científico-tecnológico traz não apenas o avanço do conhecimento, mas também uma melhoria real, inexorável e efetiva em todos os aspectos da vida humana.
No século XX, acreditava-se que os únicos meios confiáveis para o melhoramento da condição humana provinham das novas máquinas, substâncias químicas e as mais diversas técnicas. Inclusive os recorrentes males sociais e do meio ambiente que acompanham os avanços tecnológicos raras vezes têm afetado esta fé. Hoje, existe a clara percepção de que a ciência e a tecnologia têm proporcionado progresso para a humanidade, mas que, junto com isto, possuem a capacidade de também destruí-la. A ciência não é vista apenas como libertadora, mas sim, em determinadas situações, como desumanizadora e escravizadora da vida humana. O crescimento descontrolado da ciência e da tecnologia tem contribuído para destruir as fontes vitais de nossa humanidade ao criar uma cultura sem uma base moral. A tecnologia tem conformado nossas vidas porque estamos à mercê de sistemas interconectados e, o que é grave, porque estamos submissos à sua autoridade, moldando-nos ao seu funcionamento. A onipresença da tecnologia no mundo atual, aliada à sua maior complexidade, dá lugar a uma situação bastante problemática.
O avanço da ciência e da tecnologia resultou do advento do Iluminismo e da Modernidade. O artigo O fracasso do Iluminismo e da Modernidade na construção da felicidade e do progresso humano [2] informa que houve dois grandes acontecimentos da história da humanidade que trouxeram muita esperança de que seria dado início à construção de um mundo novo e de um homem novo. O primeiro grande acontecimento diz respeito ao Iluminismo e, o segundo, ao nascimento da Modernidade. Com o Iluminismo, esperava-se que prevalecesse a tolerância, o humanismo e o respeito à natureza e se afirmaria o direito à liberdade e à igualdade entre os homens. Com a Modernidade, esperava-se que a sociedade alcançaria, por sua vez, progresso ininterrupto em benefício da humanidade graças ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia.
A Modernidade nasceu com a 1ª Revolução Industrial na Inglaterra significando um extraordinário esforço intelectual dos pensadores iluministas para desenvolver a ciência e a razão e descobrir as leis universais para serem postas a serviço da humanidade. Com a Revolução Industrial, a ciência e a tecnologia adquiriram uma importância fundamental para o progresso humano, mediante as contínuas inovações tecnológicas. A ideia era usar o acúmulo de conhecimento gerado em busca da emancipação humana e do enriquecimento da vida diária. É oportuno observar que a 1ª Revolução Industrial foi o conjunto de transformações socioeconômicas iniciadas por volta de 1760, na Inglaterra (e mais tarde em outros países), e caracterizadas especialmente pela substituição do homem pela máquina nos processos produtivos (tear mecânico e máquina a vapor, a princípio), seguida da formação de grandes conglomerados industriais.
A Modernidade deu um passo à frente com a 2ª Revolução Industrial, ocorrida na segunda metade do século XIX, que foi o conjunto de transformações socioeconômicas iniciadas por volta de 1870 com a industrialização da França, da Alemanha, da Itália, dos Estados Unidos e do Japão, caracterizadas especialmente pelo desenvolvimento de novas fontes de energia (eletricidade e petróleo), pela substituição do ferro pelo aço e pelo surgimento de novas máquinas, ferramentas e produtos químicos (como o plástico). Entre 1909, quando Henry Ford criou a linha de montagem e inaugurou a produção de automóveis em série, e o final do século XX, quase todas as indústrias se mecanizaram e a automação se estendeu a todos os setores fabris. A Modernidade avançou ainda mais com a 3ª Revolução Industrial que é o conjunto de transformações socioeconômicas iniciadas a partir da segunda metade do século XX, com o surgimento de complexos industriais e empresas multinacionais, o desenvolvimento das indústrias química e eletrônica, os avanços da automação, da informática e da engenharia genética, e respectiva incorporação ao processo produtivo, que passou a depender cada vez mais de alta tecnologia e de mão de obra especializada.
A Modernidade deu um passo de gigante com o advento da 4ª Revolução Industrial. O livro A escalada da ciência e tecnologia e sua contribuição ao progresso e sobrevivência da humanidade [3] informa que a 4ª Revolução Industrialou Indústria 4.0 em curso na era atual caracteriza-se pela integração dos sistemas de produção chamados de cyber-físicos, em que sensores inteligentes dizem para as máquinas como elas devem ser processadas. Os processos devem se autogovernar em um sistema modular descentralizado. Sistemas inteligentes começam a trabalhar juntos, comunicando-se sem fio, tanto diretamente como via uma “nuvem” na Internet (A Internet das Coisas ou Internet of Things ou IoT em inglês). Os sistemas centralizados rígidos de controle das fábricas do passado cedem agora seu lugar para inteligência descentralizada, com a comunicação máquina a máquina (M2M) no chão de fábrica. Esta é a visão da indústria 4.0 da 4ª Revolução Industrial.
A Indústria 4.0 é um conceito de indústria que engloba as principais inovações tecnológicas dos campos de automação, controle e tecnologia da informação, aplicadas aos processos industriais. A partir de Sistemas Cyber-Físicos, Internet das Coisas e Internet dos Serviços, os processos de produção tendem a se tornar cada vez mais eficientes, autônomos e customizáveis. Isso significa um novo período no contexto das grandes revoluções industriais. Com as fábricas inteligentes, diversas mudanças ocorrerão na forma em que os produtos serão fabricados, causando impactos em diversos setores do mercado. Tornar a Indústria 4.0 uma realidade implicará a adoção gradual de um conjunto de tecnologias emergentes de tecnologia da informação (TI) e automação industrial, na formação de um sistema de produção físico-cibernético, com intensa digitalização de informações e comunicação direta entre sistemas, máquinas, produtos e pessoas; ou seja, a tão famosa Internet das Coisas (IoT).
A Modernidade é identificada com a crença no progresso e nos ideais do Iluminismo. Entretanto, a evolução da Modernidade produziu eventos que marcaram negativamente a sociedade atual. A ciência e a tecnologia passaram a ser utilizadas numa escala sem precedentes também para o mal. A ciência e a tecnologia impactarão negativamente, também, sobre o mundo do trabalho porque poderá levar ao fim do emprego e levará o mundo ao caos político, econômico e social nos planos nacional e mundial[5]. Fábricas automatizadas e robotizadas com o uso da inteligência artificial significam indústrias com cada vez menos gente. Em três décadas foram eliminados 6 milhões de postos de trabalho industriais nos Estados Unidos fazendo com que o emprego nas fábricas atingisse o patamar da década de 1940. Os empregos que envolvem funções repetitivas vão desaparecer rapidamente nos próximos anos. Nos países ricos, estima-se que 25% de todas as funções na indústria deverão ser substituídas por tecnologias de automação até 2025. No mundo, a estimativa é que 60 milhões de postos de trabalho em fábricas sejam eliminados.
O principal dos males da ciência e da tecnologia foi sem dúvida às catástrofes da 1ª e da 2ª Guerra Mundial. Na verdade, a ciência e a tecnologia contribuíram para a barbárie de duas guerras mundiais com a invenção de armamentos bélicos poderosos e destrutivos, especialmente a bomba atômica. Todo esse desenvolvimento científico e tecnológico culminou na era atual, também, com uma crise ecológica mundial que pode resultar em uma mudança climática global catastrófica que pode ameaçar a sobrevivência da humanidade. A consequência de tudo isto é a desilusão com a ciência e a tecnologia em decorrência dos males que elas estão trazendo para a humanidade. Nesse sentido pode-se duvidar dos reais benefícios trazidos pelo progresso científico e tecnológico com o advento da Modernidade.
Em sua obra A Dialética do Esclarecimento [4], Theodor Adorno e Max Horkheimer, filósofos vinculados à Escola de Frankfurt, afirmam que a supremacia da ciência e da tecnologia na Modernidade preparou também o caminho para o desvario político em benefício do capitalismo de mercado. O avanço científico e tecnológico, na medida em que possibilitou tecnicamente a eliminação da miséria, trouxe, também, seu crescimento, o que, para ambos os autores, denunciaria como obsoleta a razão de ser da sociedade racional pregada pelos iluministas. Adorno e Horkheimer desconstroem o mito de que o Iluminismo traria a liberdade para que os homens fossem donos de seu próprio destino e proporcionaria a conquista da felicidade para todos os seres humanos. A razão preconizada pelo Iluminismo foi substituída pela razão do capitalismo de mercado que, ao exercer seu controle sobre as forças da natureza com o uso da ciência e da tecnologia, estendeu sua dominação também sobre os seres humanos. E o capitalismo de mercado tornou-se a instância privilegiada dessa modalidade de controle sobre a natureza e sobre os seres humanos com o uso da ciência e da tecnologia.
Sendo global e onipresente, o capitalismo de mercado dispõe da técnica necessária, fornecida pela ciência e pela tecnologia, para fazer dos homens engrenagens de seu motor, anulando-os, através do princípio econômico da concorrência total. Com a globalização econômica e financeira, o capitalismo de mercado está contribuindo para extinguir o pensamento autônomo e reforçar a uniformidade e a unanimidade em uma sociedade de massa, amorfa como a que vivenciamos na era contemporânea. Coligadas, distantes dos indivíduos, economia capitalista, ciência e tecnologia, fundidas agora como se fossem uma instância única, consolidam sua supremacia sobre a sociedade contemporânea, determinando seus rumos com a mesma desfaçatez e impessoalidade de uma mão invisível, segundo Adorno e Horkheimer. O totalitarismo de mercado resultou na total dependência do indivíduo aos seus ditames.
Pelo exposto, conclui-se que a ciência e a tecnologia não estão apenas conformando as nossas vidas para melhor, mas também, em muitas situações, fazendo-as mais perigosas. Parece que, a partir da 1ª Revolução Industrial, a própria construção coletiva da vida social está sendo conformada como se ela fosse uma máquina. Há muitos anos, a ciência e a tecnologia vêm ditando os rumos do comportamento social, tanto no plano industrial quanto no das pessoas individualmente. O ser humano sempre investiu sua inteligência para adquirir, fabricar e utilizar ferramentas que prolongassem e multiplicassem seu conforto material. A ideia de que o desenvolvimento humano é função linear do progresso técnico vem sendo sustentada há muito tempo. A tese de que a ciência e a tecnologia seriam os fatores primordiais responsáveis pelo progresso humano foi colocada em xeque pelas explosões das bombas atômicas na 2ª Guerra Mundial, em Nagasaki e Hiroshima. Passou-se a haver uma discussão não apenas sobre o lado positivo proporcionado pela ciência e pela tecnologia. Junto com as benesses da ciência e da tecnologia, vinha o napalm, os desfolhantes, a radioatividade, a bomba atômica. Um clima de crise e dúvida em relação a elas veio à tona. A ciência e a tecnologia passaram a ser encaradas também como antivida e, em determinadas situações, como fora de controle humano. Esta situação precisa ser revertida pelos governos de todo o mundo com o abandono de tudo o que foi produzido cientifica e tecnologicamente em prejuízo do ser humano e a adoção de políticas de desenvolvimento científico e tecnológico que sejam positivas para os seres humanos.
Para fazer com que a ciência e a tecnologia sejam utilizadas exclusivamente para o bem da humanidade, urge atacar o mal desta barbárie pela raiz com a construção de uma nova ordem econômica mundial em substituição à ordem capitalista dominante para evitar que a ciência e a tecnologia sejam usadas, também, para o mal como tem ocorrido ao longo da história da humanidade. Para galgar a condição de sociedade civilizada, é preciso que haja intervenções econômicas e sociais do Estado para promover justiça social em um sistema capitalista e uma política de Bem-Estar Social no interesse geral da população e fazer com que a ciência e a tecnologia sejam utilizadas em prol do progresso da humanidade. Para tanto, é preciso que ocorra a reforma do capitalismo em todos os países do mundo com a construção do Estado de Bem Estar Social como o construído nos países escandinavos que, sendo um híbrido entre o que existe de mais positivo nos sistemas capitalista e socialista, prepararia o terreno para a conquista do mais elevado nível de civilização com a construção do socialismo democrático em todos os países do mundo.
REFERÊNCIAS
- ALCOFORADO. Fernando. Como fazer com que as utopias planetárias se realizem visando a construção de um mundo melhor. Disponível no website <https://www.academia.edu/104881861/COMO_FAZER_COM_QUE_AS_UTOPIAS_PLANET%C3%81RIAS_SE_REALIZEM_VISANDO_A_CONSTRU%C3%87%C3%83O_DE_UM_MUNDO_MELHOR>.
- ALCOFORADO. Fernando. O fracasso do iluminismo e da modernidade na construção da felicidade e do progresso humano. Disponível no website <https://www.academia.edu/11719456/O_FRACASSO_DO_ILUMINISMO_E_DA_MODERNIDADE_NA_CONSTRU%C3%87%C3%83O_DA_FELICIDADE_E_DO_PROGRESSO_HUMANO>.
- ALCOFORADO. Fernando. A escalada da ciência e da tecnologia e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade. Curitiba: Editora CRV, 2022.
- ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. A Dialética do Esclarecimento.Rio: Zahar Editora, 1985.
- ALCOFORADO. Fernando. O progresso da inteligência artificial e suas consequências. Disponível no website <https://www.linkedin.com/pulse/o-progresso-da-intelig%C3%AAncia-artificial-e-suas-fernando-alcoforado/?originalSubdomain=pt>.
* Fernando Alcoforado, 83, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022) e How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023).