
Fernando Alcoforado*
O grupo palestino Hamas lançou um ataque sem precedentes contra Israel, com seus combatentes adentrando comunidades próximas à Faixa de Gaza, matando mais de 900 pessoas e fazendo reféns. Em resposta, o governo de Israel tem lançado ataques aéreos que já deixaram quase 690 pessoas mortas em Gaza e outras 3,7 mil ficaram feridas. Esta foi a operação mais ambiciosa que o Hamas já lançou a partir de Gaza e o ataque mais sério que Israel enfrentou em mais de uma geração. O ato terrorista praticado pelos combatentes do Hamas contra cidadãos israelenses fez com que, como revide, houvesse o tratamento bárbaro e brutal do governo israelense contra o povo palestino e a ameaça de invasão da Faixa de Gaza sob o controle do Hamas por parte das forças armadas israelenses.
O fato novo referente ao Hamas diz respeito ao aumento de seu arsenal de mísseis e drones fornecidos pelo Irã que podem atingir inclusive os arredores de Tel Aviv e Jerusalém. Estas novas armas estão longe de criar um “equilíbrio do terror” entre os dois campos. Israel ainda tem um poder de fogo e uma capacidade de dissuasão imensamente superior, além de possuir um escudo antimísseis bastante eficiente. O massacre israelense contra os palestinos da Faixa de Gaza pode se tornar o detonador não apenas de uma nova guerra entre Israel e o povo palestino e evoluir para um novo conflito regional envolvendo o Irã e países árabes e, também, global com a participação das grandes potências militares. O sentimento de revolta gerado pela morte de inocentes em Israel por parte dos judeus e na Faixa de Gaza por parte dos palestinos é mais um elemento contrário à aproximação dos povos palestino e israelense.
A escalada da guerra está em curso com a mobilização de milhares de reservistas promovida pelo governo israelense. Não há dúvidas que está em execução um plano de guerra por parte do governo de Israel, sendo o próximo passo uma invasão terrestre à Faixa de Gaza visando aniquilar o Hamas. Neste momento, as principais estradas ao redor da Faixa de Gaza estão sendo bloqueadas, para facilitar a operação militar que está sendo desenvolvida. Esta operação militar encetada por Benjamin Netanyahu, primeiro ministro israelense, teria também por objetivo fortalecê-lo politicamente depois do fracasso das defesas de Israel com a recente ação terrorista do Hamas. O perigo dessa ofensiva israelense contra os palestinos da Faixa de Gaza pode significar o envolvimento do Egito e de outros países árabes contra Israel.
O pior cenário seria a evolução de um conflito localizado, Israel versus palestinos na Faixa de Gaza, para uma guerra regional envolvendo todos os países da região. O conflito entre o Estado de Israel e os palestinos contempla, portanto, as dimensões local e regional. A passagem de uma guerra regional para um conflito global pode também acontecer com o envolvimento das grandes potências militares (Estados Unidos, Rússia e China) na defesa de seus interesses e de seus aliados na região. A dimensão local do conflito é aquela que coloca em confronto os interesses de dois povos, o palestino e o judeu, pela ocupação do mesmo território em disputa. A dimensão regional diz respeito, de um lado, ao confronto entre Israel e o Irã em que Israel busca evitar que o Irã se torne uma potência nuclear que ameace sua segurança e, de outro lado, entre Israel e países árabes que possam se aglutinar junto com o Irã contra Israel em solidariedade ao povo palestino.
O fato concreto é o de que de Israel ocupa 78% da Palestina, restando aos palestinos apenas 22% do território, ou seja, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, situação esta que é inaceitável para o povo palestino. Enquanto o conflito entre o Estado de Israel e o povo palestino permanece sem solução, o governo de Israel, de forma arbitrária, continua expandindo seu território na Palestina com os assentamentos judeus contra todas as Resoluções do Conselho de Segurança da ONU. O conflito entre o Estado de Israel e o povo palestino só chegará ao fim se os palestinos assumirem o controle de seus territórios e estabelecerem um Estado Palestino soberano e independente e se Israel assegurar a defesa de seu território contra seus inimigos. Grande parte dos palestinos aceita as regiões da Cisjordânia e da faixa de Gaza como território para um futuro Estado palestino. Muitos israelenses também aceitam essa solução. Para que um acordo entre as partes seja possível, seria preciso resolver os principais pontos de discórdia, que são o status de Jerusalém e o destino de refugiados palestinos e de assentamentos judeus.
O conflito entre o Estado de Israel e o povo palestino poderá chegar ao fim e o conflito regional entre Israel e Irã e países árabes será evitado se as grandes potências militares mundiais e o Conselho de Segurança da ONU solucionarem, inicialmente, o conflito entre o Estado de Israel e o povo palestino e, em seguida, os conflitos envolvendo Israel, Irã e países árabes. A continuação do conflito entre o Estado de Israel e o povo palestino é contrária, portanto, à estabilidade estratégica na região e no mundo. Além de assumir a dimensão local e regional, o conflito entre o Estado de Israel e o povo palestino pode se tornar global pelo fato de ser considerado como a matriz de um possível confronto de civilizações. Representando a civilização ocidental se encontram os Estados Unidos e Israel em que os judeus são vistos como assimilados pela civilização ocidental, apesar de suas origens na região da Palestina em disputa, e representando a civilização islâmica estão a Autoridade Nacional Palestina, o Hamas, o Irã e os países árabes. É pouco provável que o conflito entre palestinos e judeus seja solucionado na atualidade porque as instituições internacionais existentes não são capazes de construir uma saída negociada para o conflito entre os povos judeu e palestino e entre Israel, o Irã e os países árabes.
Os Estados Unidos perderam a capacidade de mediar qualquer conflito no mundo, nenhuma grande potência reúne condições para exercer este papel e a ONU é incapaz de promover a paz nos níveis local, regional ou global na atualidade. Nessas circunstâncias, a eclosão de uma nova guerra mundial pode se tornar inevitável. Enquanto a humanidade não se dotar o mais urgentemente possível de instrumentos globais necessários ao controle de seu destino será impossivel impedir a ocorrência de guerras e assegurar a sobrevivência da espécie humana no planeta. Se tudo continuar como está nenhuma estrutura, nem mesmo a ONU, que funciona, na prática, a serviço dos interesses das grandes potências, especialmente dos Estados Unidos, será capaz de exercer a governabilidade sobre o planeta Terra. O mais provável é que haja crescente radicalização entre palestinos e judeus, entre Israel e Irã e os países árabes e entre a Civilização Ocidental e a Civilização Islâmica.
Este conflito no Oriente Médio se soma ao conflito entre Rússia e Ucrânia ampliando os riscos de uma nova guerra mundial que se eclodir significará o extermínio da humanidade com o possível uso de armas nucleares pelos contendores detentores desses armamentos. É chegado o momento em que a humanidade deveria dispor de um eficaz sistema internacional para afastar definitivamente novos riscos de uma nova guerra mundial e que se concretize a paz perpétua em nosso planeta. Para tanto, seria preciso a reforma do sistema internacional atual que é incapaz de garantir a paz mundial. O novo sistema internacional deveria funcionar com base em um Contrato Social Planetário que seria a Constituição do planeta Terra. Para a elaboração do Contrato Social Planetário deveria haver a convocação de uma Assembleia Mundial Constituinte com a participação de representantes de todos os países do mundo eleitos para este fim. O Contrato Social Planetário deveria estabelecer a existência de um Governo mundial e de um Parlamento mundial eleitos para exercerem a governabilidade do planeta Terra e mediarem os conflitos internacionais e de uma Corte Suprema mundial para julgar os casos que envolvam litigios entre paises, os crimes contra a humanidade e contra a natureza praticados por Estados nacionais e por governantes à luz do Contrato Social Planetário, julgar conflitos que existam entre o governo mundial e o parlamento mundial e atuar como guardiã do Contrato Social Planetáriopara que torne possível a paz perpétua em nosso planeta.
* Fernando Alcoforado, 83, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022) e How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023).