A VENEZUELA SOB O RISCO DE GUERRA CIVIL E DE CONFLITO INTERNACIONAL

Fernando Alcoforado*

No artigo Cenários da crise na Venezuela publicado em 28/01/2019, afirmamos que a Venezuela caminharia celeremente para a eclosão de uma guerra civil sangrenta e que haveria o risco de intervenção militar dos Estados Unidos para se apossarem das reservas de petróleo, as maiores do mundo, existentes no país com o apoio de alguns países latino-americanos, entre eles o Brasil, em flagrante desrespeito à Carta das Nações Unidas da qual pode resultar em um conflito envolvendo vários países da América Latina. Afirmamos, também, que esta situação tende a promover o acirramento da nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a Rússia aliada da Venezuela e o agravamento das relações entre os Estados Unidos e a China, também, aliada da Venezuela.

Um fato indiscutivel é que a Venezuela é um país dividido e polarizado ao extremo entre chavistas e antichavistas cuja radicalização atingiu as culminancias com a derrota nas últimas eleições parlamentares do chavismo para as forças de oposição que hoje são maioria na Assembleia Nacional presidida pelo deputado Juan Guaidó que, por sua vez, pretende destituir Nicolás Maduro do poder. No dia 23 de janeiro passado, Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional se autoproclamou Presidente da República da Venezuela contando com o apoio do governo Trump, da OEA, do presidente Ivan Duque da Colômbia e de Bolsonaro do Brasil. Na sequência, Guaidó teve o rápido reconhecimento de mais de 50 países do mundo. As exceções que se declararam contra a mais recente operação para destituir Maduro do poder, entre os países da América Latina, foram os governos mexicano, cubano e boliviano. Turquia, Rússia e China também se posicionaram contra a intervenção norte-americana na Venezuela.

A Rússia alertou que o reconhecimento do deputado Juan Guaidó como presidente da Venezuela pelos Estados Unidos pode levar a um “banho de sangue” no país. Em nota, a Chancelaria russa afirmou que os eventos na Venezuela estão atingindo um ponto perigoso e que Washington desrespeita a lei internacional. A Rússia alertou ainda os Estados Unidos a não realizarem uma intervenção militar na Venezuela, afirmando que tal ação poderia levar a uma catástrofe. Em outra declaração, o Kremlin afirmou que continua a respaldar Maduro e que tentativas de usurpar o poder na Venezuela violam a lei internacional. A Venezuela está, portanto, diante de uma catástrofe humanitária de gigantescas proporções.

No esforço de desestabilizar o governo de Nicolás Maduro, os Estados Unidos e seus aliados organizaram o que foi denominado de “ajuda humanitária” com a entrega de alimentos e medicamentos para a população venezuelana que foi considerada pelo governo da Venezuela como pretexto para a intervenção militar que estaria em curso. Guaidó fixou para o próximo dia 23/01 a entrada de ajuda de outros países na Venezuela. Voluntários irão através de caravanas às fronteiras terrestres e marítimas do país para ajudar. Mas Maduro se nega a receber ajuda internacional, que segundo ele representa um pretexto para uma invasão militar à Venezuela e subsequente golpe para tirar o chavismo do poder. Aumenta a tensão nas fronteiras entre Colômbia e Venezuela e Brasil e Venezuela na véspera do dia fixado pelos Estados Unidos para a entrada da suposta ajuda humanitária aos venezuelanos.

Maduro ordenou o fechamento da fronteira da Venezuela com o Brasil. Normalmente, a passagem é fechada à noite e reabre por volta das 7h do dia seguinte o que não aconteceu nesta manhã. Um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) com 22,8 toneladas de leite em pó e 500 kits de primeiros-socorros para os venezuelanos decolou de Brasília em direção a Boa Vista no Estado de Roraima. Da capital de Roraima, os produtos serão levados de caminhões e motoristas venezuelanos até Pacaraima e posterior entrada na Venezuela.

Para evitar a entrada da denominada “ajuda humanitária”, o governo de Nicolás Maduro posicionou próximo à fronteira com o Brasil, que foi fechada às 20 horas de quinta-feira (21/01), seu Sistema de Mísseis de Defesa Aérea S-300VM, desenvolvido pelos russos desde a Guerra Fria que se trata de um sistema escalonado, que vai desde o menor nível com canhões até os mísseis para grande altitude. O sistema antiaéreo inclui lançadores, sistemas de radares e apoio e está posicionado na região do aeroporto de Santa Elena de Uairén, que fica a 11 km da cidade fronteiriça de Pacaraima no Brasil. Há o risco de, além da guerra civil, termos um banho de sangue em nosso continente se houver intervenção militar na Venezuela com a participação dos Estados Unidos, da Colômbia e do Brasil.

Os acontecimentos na Venezuela são de extrema gravidade. É preciso evitar que o Brasil se envolva em um conflito militar que só tem a perder com a morte de muitos de nossos jovens para agradar e atender a ambição imperialista dos Estados Unidos que seria o grande beneficiário ao se apossarem das reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo. O povo brasileiro não deve compactuar com estas práticas ilegais que violam o Direito Internacional e a soberania dos povos. O nossos Deputados e Senadores devem evitar que seja consumada esta provocação contra um país soberano, a Venezuela, por mais execrável que seja o seu governo que só deve ser apeado do poder pela ação do próprio povo venezuelano. Antes de darmos comida e remédios para os venezuelanos, é preciso oferecer comida a nossos pobres e remédios para os nossos hospitais.

*Fernando Alcoforado, 79, detentor da Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).

VENEZUELA UNDER THE RISK OF CIVIL WAR AND INTERNATIONAL CONFLICT

Fernando Alcoforado*

In the article Scenarios of the Crisis in Venezuela published on 01/28/2019, we affirmed that Venezuela would walk briskly towards the outbreak of a bloody civil war and that there would be a risk of US military intervention to take over the oil reserves, the largest of the world, with the support of some Latin American countries, including Brazil, in flagrant disregard for the United Nations Charter which could result in a conflict involving several countries in Latin America. We also affirm that this situation tends to promote the intensification of the new Cold War between the United States and the allied Russia of Venezuela and the worsening of relations between the United States and China, also allied with Venezuela.

An indisputable fact is that Venezuela is a country divided and polarized to the extreme between chavistas and antichavistas whose radicalization reached culminancias with the defeat in the last parliamentary elections of chavismo to the forces of opposition that today are majority in the National Assembly presided by the deputy Juan Guaidó who, in turn, intends to remove Nicolas Maduro from power. On January 23, Juan Guaidó, president of the National Assembly, proclaimed himself President of the Republic of Venezuela, with the support of the Trump government, the OAS, President Ivan Duque of Colombia and Bolsonaro of Brazil. In the sequence, Guaidó had the rapid recognition of more than 50 countries of the world. The exceptions that have been declared against the most recent operation to remove Maduro from power among the Latin American countries were the Mexican, Cuban and Bolivian governments. Turkey, Russia and China also opposed the US intervention in Venezuela.

Russia warned that the recognition of Deputy Juan Guaidó as president of Venezuela by the United States could lead to a “bloodbath” in the country. In a statement, the Russian Foreign Ministry said that events in Venezuela are reaching a dangerous point and that Washington is in breach of international law. Russia also warned the United States not to carry out a military intervention in Venezuela, saying that such action could lead to a catastrophe. In another statement, the Kremlin said it continues to support Maduro and that attempts to seize power in Venezuela violate international law. Venezuela is therefore facing a humanitarian catastrophe of gigantic proportions.

In an effort to destabilize the government of Nicolás Maduro, the United States and its allies organized what was called “humanitarian aid” with the delivery of food and medicines to the Venezuelan population that was considered by the Venezuelan government as a pretext for military intervention which would be in progress. Guaidó set for next January 23 the entry of aid from other countries in Venezuela. Volunteers will go through caravans to the land and sea borders of the country to help. But Maduro refuses to receive international aid, which he says is a pretext for a military invasion of Venezuela and a subsequent coup to get chavism out of power. Tensions between Colombia and Venezuela and Brazil and Venezuela on the eve of the day set by the United States for the entry of alleged humanitarian aid to Venezuelans are increasing.

Maduro ordered the closure of Venezuela’s border with Brazil. Usually the passage is closed at night and reopens around 7am the next day what did not happen this morning. A Brazilian Air Force (FAB) aircraft with 22.8 tons of powdered milk and 500 first-aid kits for Venezuelans took off from Brasilia towards Boa Vista in the state of Roraima. From the capital of Roraima, the products will be taken from Venezuelan trucks and drivers to Pacaraima and later to Venezuela.

In order to prevent the entry of so-called “humanitarian aid”, Nicolás Maduro’s government positioned near the border with Brazil, which was closed at 20:00 on Thursday (21/01), his system S-300VM air-defense missile developed by the Russians since the Cold War which is a staggered system ranging from the lowest level with guns to missiles at high altitude. The anti-aircraft system includes launchers, radar and assistance systems. It is located in the area of Santa Elena Airport Uairén, 11 km from the border town of Pacaraima in Brazil. In addition to the civil war, we risk having a bloodbath on our continent in case of military intervention in Venezuela with the participation of the United States, Colombia and Brazil.

The events in Venezuela are extremely serious. It is necessary to prevent Brazil from engaging in a military conflict that only has to be lost with the death of many of our young people to please and to satisfy the imperialist ambition of the United States that would be the great beneficiary when they seize Venezuela’s oil reserves, the largest in the world. The Brazilian people should not condone with these illegal practices that violate the International Law and the sovereignty of the peoples. Our Deputies and Senators must prevent this provocation from being consummated against a sovereign country, Venezuela, however execrable its government may be, that must only be removed of the power by the action of the own Venezuelan people .. . Before we give food and medicine to Venezuelans, we must provide food to our poor and medicines to our hospitals.

* Fernando Alcoforado, 79, holder of the CONFEA / CREA System Medal of Engineering Merit, member of the Bahia Academy of Education, engineer and doctor in Territorial Planning and Regional Development by the University of Barcelona, ​​university professor and consultant in the areas of strategic planning, business planning, regional planning and planning of energy systems, is the author of 14 books addressing issues such as Globalization and Development, Brazilian Economy, Global Warming and Climate Change, The Factors that Condition Economic and Social Development,  Energy in the world and The Great Scientific, Economic, and Social Revolutions that Changed the World.

VENEZUELA SOUS RISQUE DE GUERRE CIVILE ET DE CONFLIT INTERNATIONAL

Fernando Alcoforado*

Dans l’article Scénarios de la crise au Venezuela publié le 28/01/2019, nous avons affirmé que le Venezuela marcherait rapidement vers le déclenchement d’une guerre civile sanglante et qu’il y aurait un risque d’intervention militaire des États-Unis pour reprendre les réserves de pétrole, le plus grand du monde, avec le soutien de certains pays d’Amérique latine, dont le Brésil, au mépris flagrant de la Charte des Nations Unies, qui pourrait entraîner un conflit entre plusieurs pays d’Amérique latine. Nous affirmons également que cette situation tend à favoriser l’intensification de la nouvelle guerre froide entre les États-Unis et la Russie alliée du Venezuela et l’aggravation des relations entre les États-Unis et la Chine, également alliée au Venezuela.

An indisputable fact is that Venezuela is a country divided and polarized to the extreme between chavistas and antichavistas whose radicalization reached top level with the defeat in the last parliamentary elections of chavism to the forces of opposition that today are majority in the National Assembly presided by the deputy Juan Guaidó who, in turn, intends to remove Nicolas Maduro from power. On January 23, Juan Guaidó, president of the National Assembly, proclaimed himself President of the Republic of Venezuela, with the support of the Trump government, the OAS, President Ivan Duque from Colombia and President Bolsonaro from Brazil. In the sequence, Guaidó had the rapid recognition of more than 50 countries of the world. The exceptions that have been declared against the most recent operation to remove Maduro from power among the Latin American countries were the Mexican, Cuban and Bolivian governments. Turkey, Russia and China also opposed the US intervention in Venezuela.

La Russie a averti que la reconnaissance du député Juan Guaidó en tant que président du Venezuela par les États-Unis pourrait conduire à un “bain de sang” dans le pays. Dans un communiqué, le ministère russe des Affaires étrangères a déclaré que les événements au Venezuela atteignaient un point dangereux et que Washington contrevenait au droit international. La Russie a également averti les États-Unis de ne pas procéder à une intervention militaire au Venezuela, affirmant qu’une telle action pourrait conduire à une catastrophe. Dans une autre déclaration, le Kremlin a déclaré qu’il continuait de soutenir Maduro et que les tentatives de prise de pouvoir au Venezuela violaient le droit international. Le Venezuela est donc confronté à une catastrophe humanitaire gigantesque.

Dans un effort pour déstabiliser le gouvernement de Nicolás Maduro, les États-Unis et leurs alliés organisèrent ce que l’on appelait “l’aide humanitaire” avec la fourniture de nourriture et de médicaments à la population vénézuélienne, ce que le gouvernement vénézuélien considérait comme un prétexte pour une intervention militaire qui serait en cours. Guaidó a fixé au 23 janvier prochain l’entrée de l’aide d’autres pays pour Venezuela. Les volontaires traverseront avec caravanes les frontières terrestres et maritimes du pays pour les aider. Mais Maduro refuse de recevoir l’aide internationale, prétextant qu’il serait un prétexte à une invasion militaire du Venezuela et à un coup d’État ultérieur afin de faire sortir chavisme du pouvoir. Les tensions entre la Colombie et le Venezuela et le Brésil et le Venezuela à la veille du jour fixé par les États-Unis pour l’entrée de l’aide humanitaire présumée aux Vénézuéliens s’accentuent.

Maduro a ordonné la fermeture de la frontière entre le Venezuela et le Brésil. Habituellement, le passage est fermé la nuit et rouvre vers 7 heures le lendemain, ce qui n’est pas arrivé ce matin. Un avion de l’armée de l’air brésilienne (FAB) avec 22,8 tonnes de lait en poudre et 500 trousses de premiers soins pour les Vénézuéliens a décollé de Brasilia vers Boa Vista, dans l’État de Roraima. Depuis la capitale de Roraima, les produits seront acheminés des camions et des chauffeurs vénézuéliens à Pacaraima, puis au Venezuela.

Pour empêcher l’entrée de ce que l’on appelle “l’aide humanitaire”, le gouvernement de Nicolás Maduro s’est positionné près de la frontière avec le Brésil, qui a été fermé à 21h00 jeudi (21/01), son système de missile de défense aérienne S-300VM , développé par les Russes depuis la guerre froide, il s’agit d’un système échelonné allant du niveau le plus bas avec des canons aux missiles et à la haute altitude. Le système anti-aérien comprend des lanceurs, des radars et des systèmes d’assistance. Il est situé dans la région de l’aéroport de Santa Elena de Uairén, à 11 km de la ville frontalière de Pacaraima au Brésil. En plus de la guerre civile, nous risquons d’avoir un bain de sang sur notre continent en cas d’intervention militaire au Venezuela avec la participation des États-Unis, de la Colombie et du Brésil.

Les événements au Venezuela sont extrêmement graves. Il est nécessaire d’empêcher le Brésil de s’engager dans un conflit militaire qui n’a plus qu’à perdre  avec la mort de nombreux de nos jeunes pour plaire et satisfaire à l’ambition impérialiste des États-Unis qui serait le grand bénéficiaire prenant possession des réserves de pétrole du Venezuela, les plus importantes au monde.. Le peuple brésilien ne devrait pas tolérer ces pratiques illégales qui violent le droit international et la souveraineté des peuples. Nos députés et nos sénateurs doivent éviter que cette provocation soit menée contre un pays souverain, le Venezuela, aussi exécrable que puisse être son gouvernementque qui seulement doivent être révoqués du pouvoir que par l’action du peuple vénézuélie. Avant de donner de la nourriture et des médicaments aux Vénézuéliens, nous devons fournir de la nourriture à nos pauvres et des médicaments à nos hôpitaux.

* Fernando Alcoforado, 79 ans, titulaire de la Médaille du Mérite du Génie du Système CONFEA / CREA, membre de l’Académie de l’Education de Bahia, ingénieur et docteur en planification territoriale et développement régional pour l’Université de Barcelone, professeur universitaire et consultant dans les domaines de la planification stratégique, planification d’entreprise, planification régionale et planification énergétique, il est l’auteur de 14 ouvrages traitant de questions comme la mondialisation et le développement, l’économie brésilienne, le réchauffement climatique et les changements climatiques, les facteurs qui conditionnent le développement économique et social, l’énergie dans le monde et les grandes révolutions scientifiques, économiques et sociales.

CHINA E ESTADOS UNIDOS EM GUERRA COMERCIAL NO CONFRONTO PELA HEGEMONIA MUNDIAL

Fernando Alcoforado*

Artigo de Harold Thibault et Simon Leplâtre, publicado no Le Monde de 01/02/2019, sob o título Chine : avec Huawei, la guerre de la 5G est déclarée (China: com a Huawei, a guerra de 5G é declarada), disponível no website <https://www.lemonde.fr/international/article/2019/02/01/chine-avec-huawei-la-guerre-de-la-5g-est-declaree_5417769_3210.html#xtor=AL-32280270>, informa que a ascensão meteórica da Huawei e seus laços com o poder chinês a colocaram no centro da guerra comercial e geopolítica entre a China e os Estados Unidos. Donald Trump acusa a Huawei de ser uma ameaça à segurança dos Estados Unidos e avisa seus aliados

Com seu laboratório de Pesquisa de Inteligência Artificial, a Huawei, empresa chinesa,  ocupou o segundo lugar em vendas de smartphones que era da Apple, mas está ainda atrás da Samsung a quem espera superar em 2020. Seus dispositivos são mais baratos que os dos concorrentes coreanos ou americanos.  Desde 2017, é líder mundial como fabricante de equipamentos de redes móveis, fornecendo antenas, retransmissores e outras infraestruturas para as operadoras móveis conectarem seus clientes em qualquer local. Nesse mesmo ano, a Huawei tornou-se a empresa com maior número de patentes na Europa. Seus gastos em pesquisa e desenvolvimento – US$ 13,8 bilhões (12 bilhões de euros) em 2017 – situam-se no nível dos gigantes do Vale do Silício.

A Huawei desenvolve com a inteligência artificial protótipos de carros autônomos e está trabalhando com a Audi em direção autônoma de veículos conectados. Sua ascensão, num campo estratégico, coloca este novo gigante no centro da guerra pela dominação comercial e tecnológica que a China e os Estados Unidos estão envolvidos. No final de novembro de 2018, o Wall Street Journal revelou que o governo dos Estados Unidos estava realizando uma massiva ofensiva diplomática para convencer governos e operadoras de telefonia em países aliados a se absterem de instalar equipamentos da Huawei.  Os países de acolhimento de bases dos Estados Unidos são particularmente solicitados a escolher entre a tecnologia chinesa ou a proteção americana.

Por que alguns países suspeitam da Huawei? Diplomatas e funcionários da inteligência dos Estados Unidos  insistem com seus parceiros europeus, australianos ou japoneses alertando sobre os perigos inerentes à 5G desenvolvida pela Huawei. Esta nova geração de redes móveis deve ser implantada já em 2020 na França. Com a 5G, as velocidades aumentam consideravelmente, permitindo uma “revolução” dos usos da Internet móvel transmitindo instantaneamente informações como, por exemplo, sobre o movimento e o comportamento de um carro autônomo, quando anteriormente ter um lapso de tempo na transmissão de dados era considerado um perigo. O 5G é possibilitado pela instalação de um maior número de antenas, para troca de volumes maiores de dados, com terminais móveis que se multiplicam: smartphones, veículos, dispositivos médicos, drones. Um adensamento da rede onde tudo passa por antenas “inteligentes”. Nesta rede estão “estações de base”, tecnologias condensadas que oferecem oportunidades de espionagem e sabotagem, segundo o artigo do Le Monde.  Segundo o Le Monde, a transição para 5G envolve grandes mudanças tecnológicas. De agora em diante, os dados sensíveis também estarão acessíveis nas antenas de retransmissão.  Todos devem estar cientes de que os riscos de capturar dados são reais.

O mercado dos Estados Unidos  está fechado para a Huawei desde 2012, depois que o Comitê de Inteligência do Congresso concluiu que a Huawei representa uma ameaça à segurança nacional. Os Estados Unidos estão agora contra-atacando fora de suas fronteiras. Justiça dos Estados Unidos  exigiu a prisão da diretora financeira do grupo e filha do fundador da Huawei, Meng Wanzhou.  Em dezembro de 2018, a empresária chinesa foi presa em Vancouver, no Canadá, onde ela possui duas moradias. Ela é acusada de usar uma empresa de fachada para vender equipamentos da Huawei ao Irã, violando as sanções dos Estados Unidos contra aquele país. Um número crescente de países está dando as costas à Huawei. A Huawei foi excluída da licitação para 5G nos Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e pode ser excluída no Japão, no Reino Unido e no Canadá. Quanto à França, sem nomear a empresa, anunciou, por meio de um funcionário, em 25 de janeiro, que, a partir de então, todo o equipamento de infraestrutura das redes 5G estará sujeito a prévia autorização administrativa.

O artigo do Le Monde informa que os Estados Unidos estão atacando a Huawei porque é a empresa mais avançada e uma das maiores da China. O governo Trump formulou políticas para conter o desenvolvimento da indústria chinesa de alta tecnologia, e suas medidas estão se tornando mais duras. Os ataques contra a Huawei são a materialização dessa estratégia, disse Shi Yinhong, professor de relações internacionais da Universidade Popular de Pequim e assessor do governo chinês. Os serviços de segurança de outros países temem que as redes de telecomunicações da Huawei facilitem a espionagem a serviço da China. O elo particular entre o governo chinês e empresas – públicas ou privadas – é o que preocupa, em particular, o funcionamento do sistema político chinês e seu capitalismo muito específico. As empresas, mesmo as privadas como a Huawei, devem acompanhar as políticas oficiais do governo chinês investindo no exterior.

Em Bruxelas, a Huawei tem um grande escritório de lobby. A União Europeia é seu primeiro mercado fora da China. A proibição da Huawei atrasaria a implantação do 5G na Europa em até dois anos, de acordo com uma avaliação interna da Deutsche Telekom. Mas grandes jogadores como a Orange, na França, disseram que vão ficar sem a Huawei por 5G. Em 11 de janeiro, a Polônia anunciou a prisão do executivo chinês da Huawei, Wang Weijing, e um ex-oficial de segurança nacional polonês, Piotr Durbajlo, que se tornou consultor da filial local da Orange que implanta uma rede Huawei 5G para o teste. Ambos são acusados ​​de espionagem “em nome dos serviços chineses em prejuízo da Polônia”. Entre os aliados dos Estados Unidos, Varsóvia é muito zelosa e por um bom motivo: a Polônia, desconfiada dos apetites russos, gostaria de abrigar uma base permanente dos Estados Unidos em seu território. Ela já propôs pagar US$ 2 bilhões pela sua criação e chamá-la de “Fort Trump”. Varsóvia deve em breve banir a Huawei por 5G.

O artigo do Le Monde informa que a Huawei emprega 11.000 pessoas na Europa e criou inúmeras parcerias com universidades europeias – um centro de investigação matemática em Boulogne-Billancourt, a cooperação com universidades como a Humboldt em Berlim e o Instituto Real de Tecnologia, KTH, em Estocolmo. No entanto, a prestigiosa Universidade de Oxford anunciou em meados de janeiro que não aceita financiamento de Huawei para projetos de pesquisa. O vice-presidente da Comissão Europeia para o Mercado Único Digital, Andrus Ansip, acredita que chegou a hora de os Estados europeus avaliarem os riscos. “Muitos países já fizeram isso – os Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, mas também muitos outros países na Europa. Após a análise, eles concluíram que eles tinham uma dúvida sobre a segurança.  Se as empresas chinesas têm que cooperar com suas agências de inteligência, é preciso levá-la em conta”.

A capacidade dos países ocidentais de construir suas redes móveis independentemente da China no futuro está em jogo. Em 2008, enquanto as operadoras se preparavam para instalar o 4G, a Huawei era apenas a quarta empresa no mundo. Sua escalada ao topo foi alcançada em apenas uma década, isto é, a expectativa de vida média de uma rede móvel de “geração”. Pela primeira vez, a China está assumindo uma forte liderança na área tecnológica mais estratégica em um contexto de tensões entre Pequim e Washington e seus aliados. Para os europeus, não se trata de usar a palavra “protecionismo”, pois é a prática que eles criticam sistematicamente da China. Mas o que restará da concorrência, se a Huawei mantiver o mesmo ritmo de progressão até a sexta geração? Essa situação pode levar ao desenvolvimento paralelo de dois ecossistemas tecnológicos distintos e hostis. Já, por causa da censura que bloqueia o acesso aos concorrentes dos Estados Unidos na China, os internautas chineses usam principalmente plataformas locais: a aplicação WeChat em vez de Facebook, Weibo ao invés de Twitter, ou Baidu e não Google.

O artigo do Le Monde informa que a Huawei se estabeleceu onde os principais fornecedores de equipamentos de rede não se aventuraram: no interior da China, depois nos países pobres. A Huawei se estabeleceu em países menos desenvolvidos, que os players estabelecidos negligenciaram. Isto não impediu a Huawei de obter uma vantagem tecnológica real. Além da espionagem industrial, vários casos de corrupção envolvendo funcionários da Huawei foram revelados na Argélia e em Gana. Quando uma empresa privada, como Huawei adquire uma dimensão internacional em um setor estratégico, ele é forçado a levar em conta o partido-estado, disse Paul Clifford, autor de The China Paradox.  Embora na sua gestão diária, a Huawei tenha um alto grau de independência e está em concorrência com outras empresas chinesas, como o grupo de telecomunicações ZTE, o partido que exerce o poder na China pode dar-lhe ordens, conforme necessário. E sob a presidência de Xi Jinping, a influência do partido em grandes empresas privadas chinesas aumentou.

Quando chegou à chefia do partido e do Estado na China em novembro de 2012, Xi Jinping afirmou que a chave para a sobrevivência do partido único é garantir o controle sobre todos os componentes da sociedade: universidades, imprensa, advogados, mas também empresas. Em 2017, aprovou uma lei sobre inteligência, o Artigo 7 declara: “Qualquer organização ou cidadão deve, de acordo com a lei, apoiar, cooperar com inteligência nacional e manter sigilo sobre qualquer atividade de inteligência da qual ele está ciente”. As restrições, regulamentações e a governança da China sufocam as empresas privadas e são um fardo sobre os esforços do país para desenvolver negócios globais e ganhar “soft power”, afirma Duncan Clark, mostrando os limites para a internacionalização do país.

Enquanto a China e os Estados Unidos estão travando sua guerra comercial, a maioria dos economistas supõe que a China alcançará a supremacia econômica global. Afinal, com uma população quatro vezes maior que os Estados Unidos e um programa projetado para recuperar o atraso após séculos de estagnação tecnológica, não é inevitável que a China assuma definitivamente a responsabilidade de ser a potência econômica hegemônica.  Sem dúvida, dificilmente se pode dizer que a ascensão da China é uma miragem. Seu rápido sucesso não se baseia unicamente no tamanho da população. A Índia, por exemplo, tem uma população semelhante (ambas são cerca de 1,3 bilhão de pessoas), mas, pelo menos por enquanto, está muito mais atrasada. A liderança econômica chinesa deve ser creditada ao trabalho miraculoso de tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza para a classe média.

Mas o rápido crescimento da China tem sido impulsionado principalmente pelo progresso e investimento em tecnologia. E enquanto a China, ao contrário da União Soviética, mostrou excepcional inovação tecnológica local. Não por acaso, as empresas chinesas já estão liderando o caminho na próxima geração de redes móveis 5G e é elevada sua capacidade para uma guerra cibernética com os Estados Unidos. As realizações da China ainda se originam, em grande parte, da adoção da tecnologia ocidental e, em alguns casos, da apropriação da propriedade intelectual. A China está seguindo seu próprio caminho demonstrando que sistemas políticos centralizados são capazes de impulsionar mais e mais rapidamente o desenvolvimento do que alguém poderia imaginar, muito além de ser simplesmente um país com renda média crescente. A China pode liderar o futuro digital mesmo se os Estados Unidos fizerem a sua parte. A era iminente das máquinas inteligentes pode ser um ponto de virada a favor da China na batalha pela hegemonia global com os Estados Unidos.

*Fernando Alcoforado, 79, detentor da Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).

CHINA AND THE UNITED STATES IN COMMERCIAL WAR AT THE CONFRONTATION FOR WORLD HEGEMONY

Fernando Alcoforado*

Harold Thibault et Simon Leplâtre have published article in Le Monde on 02/01/2019, under the title Chine: avec Huawei, la guerre de la 5G est déclarée  (China: with Huawei, 5G war is declared), available on the website <https://www.lemonde.fr/international/article/2019/02/01/chine-avec-huawei-la-guerre-de-la-5g-est-declaree_5417769_3210.html#xtor=AL-32280270&gt;, which reports that the meteoric rise of Huawei and its ties to Chinese power have put it at the center of the commercial and geopolitical war between China and the United States. Donald Trump accuses Huawei of being a threat to US security and warns his allies.

With its Artificial Intelligence Research lab, Huawei, the Chinese company, ranked second in smartphone sales that before was occupied by Apple, but is still behind the Samsung whom it hopes to surpass in 2020. Its devices are cheaper than competitors Korean or American. Since 2017, it is a world leader in mobile network equipment manufacturer, providing antennas, relays and other infrastructure for mobile operators to connect customers anywhere. That same year, Huawei became the company with the largest number of patents in Europe. Its spending on research and development – US$ 13.8 billion (€$ 12 billion) in 2017 – is at the level of the giants of Silicon Valley.

Huawei develops with the artificial intelligence autonomous car prototypes and is working with Audi in the autonomous direction of connected vehicles. Its rise, in a strategic field, places this new giant at the center of the war for the commercial and technological domination that China and the United States are involved. In late November 2018, the Wall Street Journal revealed that the United States government was carrying out a massive diplomatic offensive to convince governments and telephone operators in allied countries to refrain from installing Huawei equipment. The host countries of bases of the United States are particularly asked to choose between Chinese technology or American protection.

Why do some countries suspect Huawei? Diplomats and intelligence officials from the United States insist with their European, Australian or Japanese partners warning about the dangers inherent in 5G developed by Huawei. This new generation of mobile networks is expected to be deployed by 2020 in France. With the 5G, speeds increase considerably, allowing a “revolution” of mobile Internet uses by instantly transmitting information such as the movement and behavior of a standalone car when previously having a time lapse in data transmission was considered a hazard. The 5G is enabled by the installation of a larger number of antennas, to exchange larger volumes of data, with mobile terminals that multiply: smartphones, vehicles, medical devices, drones. A thickening of the network where everything passes through “intelligent” antennas. In this network are “base stations”, condensed technologies that offer opportunities for espionage and sabotage, according to Le Monde article. According to Le Monde, the transition to 5G involves major technological changes. From now on, sensitive data will also be accessible on relay antennas. Everyone should be aware that the risks of capturing data are real.

The US market has been closed to Huawei since 2012, after the Congressional Intelligence Committee concluded that Huawei poses a threat to national security. The United States is now counterattacking outside its borders. US Justice has ordered the arrest of the group’s financial director and daughter of Huawei founder Meng Wanzhou. In December 2018, the Chinese businesswoman was arrested in Vancouver, Canada, where she owns two homes. She is accused of using a front company to sell equipment from Huawei to Iran, violating US sanctions against that country. An increasing number of countries are turning their backs on Huawei. Huawei has been excluded from the bid for 5G in the United States, Australia, New Zealand and may be excluded in Japan, the United Kingdom and Canada. As for France, without naming the company, it announced, by means of an official, on 25 January that, from then on, all the infrastructure equipment of the 5G networks will be subject to prior administrative authorization.

The Le Monde article informs that the United States is attacking Huawei because it is the most advanced company and one of the largest in China. The Trump government has formulated policies to curb the development of China’s high-tech industry, and its measures are becoming tougher. The attacks on Huawei are the materialization of this strategy, said Shi Yinhong, professor of international relations at Peking University and an advisor to the Chinese government. Security services in other countries fear that Huawei’s telecommunications networks will facilitate spying in China’s service. The particular link between the Chinese government and corporations – public or private – is what worries, in particular, the functioning of the Chinese political system and its very specific capitalism. Companies, even private ones such as Huawei, must follow the official policies of the Chinese government by investing overseas.

In Brussels, Huawei has a large lobby office. The European Union is its first market outside China. The ban on Huawei would delay the deployment of the 5G in Europe within two years, according to an internal evaluation by Deutsche Telekom. But big players like Orange in France have said they will be without Huawei by 5G. On January 11, Poland announced the arrest of Huawei’s Chinese executive Wang Weijing and a former Polish national security official, Piotr Durbajlo, who became a consultant to Orange’s local branch that deploys a Huawei 5G network for testing . Both are accused of espionage “on behalf of the Chinese services to the detriment of Poland”. Among the allies of the United States, Warsaw is very zealous and for good reason: Poland, distrustful of Russian appetites, would like to shelter a permanent United States base on its territory. She has already proposed paying US$ 2 billion for her creation and calling it “Fort Trump.” Warsaw should soon ban Huawei for 5G.

The Le Monde article reports that Huawei employs 11,000 people in Europe and has established numerous partnerships with European universities – a mathematical research center in Boulogne-Billancourt, cooperation with universities such as the Humboldt in Berlin and the Royal Institute of Technology, KTH, in Stockholm. However, the prestigious University of Oxford announced in mid-January that it does not accept funding from Huawei for research projects. Vice President of the European Digital Single Market Commission, Andrus Ansip, believes the time has come for European states to assess the risks. “If Chinese companies have to cooperate with their intelligence agencies, it needs to be taken into account”.

The ability of Western countries to build their mobile networks regardless of China in the future is at stake. In 2008, as carriers prepared to install 4G, Huawei was only the fourth company in the world. Its climb to the top was achieved in just a decade, that is, the average life expectancy of a mobile “generation” network. For the first time, China is taking a strong lead in the most strategic technology area in a context of tensions between Beijing and Washington and their allies. For Europeans, it is not a question of using the word “protectionism”, since it is the practice that they systematically criticize of China. But what will remain of the competition if Huawei keeps the same pace of progression up to the sixth generation? This situation can lead to the parallel development of two distinct and hostile technological ecosystems. Already, because of the censorship that blocks access to US competitors in China, Chinese Internet users mainly use local platforms: the WeChat application instead of Facebook, Weibo instead of Twitter, or Baidu instead of Google.

The Le Monde article reports that Huawei has established itself where major network equipment vendors have not ventured: inland in China, then in poorer countries. Huawei settled in less developed countries, which established players neglected. This did not prevent Huawei from gaining a real technological advantage. In addition to industrial espionage, several corruption cases involving Huawei officials have been unveiled in Algeria and Ghana. When a private company such as Huawei acquires an international dimension in a strategic sector, he is forced to take into account the party-state, said Paul Clifford, author of The China Paradox. Although in its day-to-day management, Huawei has a high degree of independence and is in competition with other Chinese companies, such as the ZTE telecommunications group, the ruling party in China can give orders as needed. And under the chairmanship of Xi Jinping, the party’s influence on large Chinese private enterprises has increased.

When he came to the head of the party and state in China in November 2012, Xi Jinping said that the key to the survival of the single party is to ensure control over all components of society: universities, the press, lawyers, but also companies. In 2017, it passed a law on intelligence, Article 7 states: “Any organization or citizen must, according to law, support, cooperate with national intelligence and maintain secrecy about any intelligence activity of which he is aware.” China’s restrictions, regulations and governance stifle private companies and are a burden on the country’s efforts to develop global business and gain “soft power,” says Duncan Clark, showing the limits to the country’s internationalization.

While China and the United States are waging their trade war, most economists assume that China will achieve global economic supremacy. After all, with a population four times larger than the United States and a program designed to catch up after centuries of technological stagnation, it is not inevitable that China will definitely assume the responsibility of being the hegemonic economic power. Undoubtedly, one can hardly say that China’s rise is a mirage. Its rapid success is not based solely on population size. India, for example, has a similar population (both are about 1.3 billion people), but, at least for the time being, it is far behind. China’s economic leadership must be credited with the miraculous work of taking hundreds of millions of people out of poverty into the middle class.

But China’s rapid growth has been driven mainly by progress and investment in technology. And while China, unlike the Soviet Union, has shown exceptional local technological innovation. Not surprisingly, Chinese companies are already leading the way in the next generation of 5G mobile networks and their capacity for cyber warfare with the United States is high. China’s achievements still stem, in large part, from the adoption of Western technology and, in some cases, the appropriation of intellectual property. China is following its own path by demonstrating that centralized political systems are capable of driving development faster and faster than anyone could imagine, far from being simply a country with a rising average income. China can lead the digital future even if the United States does its part. The impending era of intelligent machines may be a turning point in China’s favor in the battle for global hegemony with the United States.

* Fernando Alcoforado, 79, holder of the CONFEA / CREA System Medal of Engineering Merit, member of the Bahia Academy of Education, engineer and doctor in Territorial Planning and Regional Development by the University of Barcelona, ​​university professor and consultant in the areas of strategic planning, business planning, regional planning and planning of energy systems, is the author of 14 books addressing issues such as Globalization and Development, Brazilian Economy, Global Warming and Climate Change, The Factors that Condition Economic and Social Development,  Energy in the world and The Great Scientific, Economic, and Social Revolutions that Changed the World.

LA CHINE ET LES ÉTATS-UNIS EN GUERRE COMMERCIALE DANS LA CONFRONTATION POUR L’HEGEMONIE MONDIALE

Fernando Alcoforado*

Harold Thibault et Simon Leplâtre ont publié un article dans Le Monde du 02/01/2019, intitulé: Chine: avec Huawei, la guerre de 5G est déclarée, disponible sur le site <https://www.lemonde.fr/international/article/2019/02/01/chine-avec-huawei-la-guerre-de-la-5g-est-declaree_5417769_3210.html#xtor=AL-32280270>, qui rapporte que l’ascension fulgurante de Huawei et ses liens avec le pouvoir chinois l’ont placée au centre de la guerre commerciale et géopolitique entre la Chine et les États-Unis. Donald Trump accuse Huawei d’être une menace pour la sécurité américaine et met en garde ses alliés.

Avec son laboratoire de recherche sur l’intelligence artificielle, la société chinoise Huawei s’est classée au deuxième rang des ventes de smartphones autrefois occupées par Apple, mais reste derrière le Samsung qu’elle espère dépasser en 2020. Ses appareils sont moins chers que leurs concurrents coréens ou américains. Depuis 2017, il est un leader mondial des fabricants d’équipements de réseau mobile, fournissant des antennes, des relais et d’autres infrastructures permettant aux opérateurs de téléphonie mobile de connecter leurs clients n’importe où. La même année, Huawei devint la société qui détenait le plus grand nombre de brevets en Europe. Ses dépenses en recherche et développement – 13,8 milliards de dollars américains (12 milliards de euros) en 2017 – se situent au niveau des géants de la Silicon Valley.

Huawei développe des prototypes de voitures autonomes à intelligence artificielle et collabore avec Audi dans le direçtion autonome des véhicules connectés. Son ascension, dans un domaine stratégique, place ce nouveau géant au centre de la guerre pour la domination commerciale et technologique à laquelle participent la Chine et les États-Unis. Fin novembre 2018, le Wall Street Journal révélait que le gouvernement des États-Unis menait une offensive diplomatique massive pour convaincre les gouvernements et les opérateurs téléphoniques des pays alliés de s’abstenir d’installer du matériel Huawei. Les pays hôtes des bases des États-Unis sont particulièrement priés de choisir entre technologie chinoise ou protection américaine.

Pourquoi certains pays suspectent-ils Huawei? Des diplomates et des responsables des services de renseignement américains insistent auprès de leurs partenaires européens, australiens ou japonais pour les avertir des dangers inhérents à la 5G développée par Huawei. Cette nouvelle génération de réseaux de téléphonie mobile devrait être déployée d’ici 2020 en France. Avec la 5G, les vitesses augmentent considérablement, permettant une “révolution” des utilisations d’Internet mobile en transmettant instantanément des informations telles que le mouvement et le comportement d’une voiture autonome alors qu’un délai de transmission de données auparavant était considéré comme un risque. La 5G est rendue possible par l’installation d’un plus grand nombre d’antennes, permettant d’échanger de plus grands volumes de données, avec des terminaux mobiles qui se multiplient: smartphones, véhicules, appareils médicaux, drones. Un épaississement du réseau où tout passe par des antennes “intelligentes”. Dans ce réseau, on trouve des “stations de base”, des technologies condensées qui offrent des possibilités d’espionnage et de sabotage, selon l’article du Le Monde. Selon Le Monde, le passage à la 5G implique des changements technologiques majeurs. Dorénavant, les données sensibles seront également accessibles sur les antennes relais. Tout le monde devrait savoir que les risques liés à la saisie de données sont réels.

Le marché américain est fermé à Huawei depuis 2012, après que la Commission du renseignement du Congrès eut conclu que Huawei constituait une menace pour la sécurité nationale. Les États-Unis contre-attaquent maintenant hors de leurs frontières. La justice américaine a ordonné l’arrestation du directeur financier du groupe et fille du fondateur de Huawei, Meng Wanzhou. En décembre 2018, la femme d’affaires chinoise a été arrêtée à Vancouver, au Canada, où elle possède deux maisons. Elle est accusée d’avoir utilisé une société écran pour vendre du matériel de Huawei à l’Iran, en violation des sanctions américaines à l’encontre de ce pays. Un nombre croissant de pays tournent le dos à Huawei. Huawei a été exclue de l’offre sur la 5G aux États-Unis, en Australie, en Nouvelle-Zélande et pourrait l’être au Japon, au Royaume-Uni et au Canada. Quant à la France, sans nommer la société, elle a annoncé, par un officiel, le 25 janvier, que désormais, tous les équipements d’infrastructure des réseaux 5G seront soumis à une autorisation administrative préalable.

L’article du Le Monde indique que les États-Unis s’en prennent à Huawei, car c’est la société la plus avancée et l’une des plus grandes en Chine. Le gouvernement Trump a formulé des politiques visant à freiner le développement du secteur chinois des technologies de pointe, et ses mesures se durcissent. Les attaques sur Huawei sont la concrétisation de cette stratégie, a déclaré Shi Yinhong, professeur de relations internationales à l’Université de Pékin et conseiller du gouvernement chinois. Les services de sécurité d’autres pays craignent que les réseaux de télécommunication de Huawei facilitent l’espionnage dans les services de la Chine. Le lien particulier entre le gouvernement chinois et les entreprises – publiques ou privées – est ce qui inquiète en particulier le fonctionnement du système politique chinois et de son capitalisme très spécifique. Les entreprises, même privées, comme Huawei, doivent suivre les politiques officielles du gouvernement chinois en investissant à l’étranger.

À Bruxelles, Huawei dispose d’un grand bureau de lobby. L’Union européenne est son premier marché en dehors de la Chine. L’interdiction de Huawei retarderait le déploiement de la 5G en Europe de deux ans, selon une évaluation interne réalisée par Deutsche Telekom. Mais les grands joueurs comme Orange en France ont dit qu’ils seraient sans Huawei par 5G. Le 11 janvier, la Pologne a annoncé l’arrestation de Wang Weijing, l’exécutif chinois de Huawei, et de Piotr Durbajlo, ancien responsable de la sécurité nationale, qui devenu conseiller de la branche locale d’Orange qui déploie un réseau Huawei 5G à des fins de test. Tous deux sont accusés d’espionnage “au nom des services chinois au détriment de la Pologne”. Parmi les alliés des États-Unis, Varsovie est très zélée et pour une bonne raison: la Pologne, méfiante des appétits russes, voudrait abriter une base permanente des États-Unis sur son territoire. Elle a déjà proposé de payer 2 milliards de dollars américains pour sa création et de l’appeler “Fort Trump”. Varsovie devrait bientôt interdire Huawei pour la 5G.

L’article du Le Monde indique que Huawei emploie 11 000 personnes en Europe et a noué de nombreux partenariats avec des universités européennes: un centre de recherche en mathématiques à Boulogne-Billancourt, une coopération avec des universités telles que le Humboldt à Berlin et le Royal Institute of Technology (KTH) à Stockholm. Cependant, la prestigieuse université d’Oxford a annoncé mi-janvier qu’elle n’accepte pas de financement de Huawei pour des projets de recherche. Le vice-président de la Commission du marché unique numérique européen, Andrus Ansip, estime que le moment est venu pour les États européens d’évaluer les risques. “Si les entreprises chinoises doivent coopérer avec leurs agences de renseignement, il faut en tenir compte”.

La capacité des pays occidentaux à construire leurs réseaux mobiles indépendamment de la Chine à l’avenir est en jeu. En 2008, alors que les opérateurs s’apprêtaient à installer la 4G, Huawei n’était que la quatrième entreprise au monde. Son ascension au sommet a été réalisée en une décennie à peine, soit l’espérance de vie moyenne d’un réseau de “génération” mobile. Pour la première fois, la Chine prend une forte avance dans le domaine de la technologie la plus stratégique dans un contexte de tensions entre Beijing et Washington et leurs alliés. Pour les Européens, il ne s’agit pas d’utiliser le mot “protectionnisme”, car ils critiquent systématiquement la Chine. Mais que restera-t-il de la concurrence si Huawei conserve le même rythme de progression jusqu’à la sixième génération? Cette situation peut conduire au développement parallèle de deux écosystèmes technologiques distincts et hostiles. Déjà, à cause de la censure qui bloque l’accès aux concurrents américains en Chine, les internautes chinois utilisent principalement des plates-formes locales: l’application WeChat au lieu de Facebook, Weibo au lieu de Twitter, ou Baidu au lieu de Google.

L’article du Le Monde indique que Huawei s’est établi là où les principaux fournisseurs d’équipements de réseau ne se sont pas aventurés: à l’intérieur des terres en Chine, puis dans les pays les plus pauvres. Huawei s’installe dans des pays moins développés, où les joueurs établis ont négligés. Cela n’empêche pas Huawei d’obtenir un réel avantage technologique. Outre l’espionnage industriel, plusieurs affaires de corruption impliquant des responsables de Huawei ont été dévoilées en Algérie et au Ghana. Quand une entreprise privée telle que Huawei acquiert une dimension internationale dans un secteur stratégique, il est obligé de prendre en compte o partido-estado, a déclaré Paul Clifford, auteur de The China Paradox. Bien que Huawei, dans sa gestion quotidienne, jouisse d’un haut degré d’indépendance et soit en concurrence avec d’autres sociétés chinoises, telles que le groupe de télécommunications ZTE, le parti au pouvoir en Chine peut donner des ordres en fonction des besoins. Et sous la présidence de Xi Jinping, l’influence du parti sur les grandes entreprises privées chinoises s’est accrue.

Lorsqu’il est arrivé à la tête du parti et de l’Etat chinois en novembre 2012, Xi Jinping a déclaré que la clé de la survie du parti unique était de garantir le contrôle de toutes les composantes de la société: universités, presse, avocats, mais aussi des entreprises. . En 2017, il a adopté une loi sur le renseignement, dont l’article 7 dispose: “Toute organisation ou citoyen doit, conformément à la loi, soutenir les services de renseignement nationaux, coopérer avec eux et garder secret le secret de toute activité de renseignement dont il a connaissance.” Les restrictions, réglementations et gouvernance de la Chine étouffent les entreprises privées et pèsent lourdement sur les efforts du pays pour développer son activité mondiale et obtenir un “pouvoir d’influence”, a déclaré Duncan Clark, montrant les limites de l’internationalisation du pays.

Alors que la Chine et les États-Unis réalisaient leur guerre commerciale, le présument des économistes que la Chine atteindra la suprématie économique mondiale. Après tout, avec une population quatre fois supérieure à celle des États-Unis et un programme conçu pour rattraper sont retardés après des siècles de stagnation technologique, il n’est pas inévitable que la Chine assume définitivement la responsabilité d’être la puissance économique hégémonique . Sans aucun doute, on peut difficilement dire que la montée de la Chine est un mirage. Ils sont un succès rapide ne sont pas uniquement sur la taille de la population. L’Inde, par exemple, avec une population similaire (environ 1,3 milliard d’habitants), mais, du moins pour le moment, c’est beaucoup plus en retard. Le leadership économique de la Chine doit être crédité du travail miraculeux à sortir des centaines de millions de personnes de la pauvreté dans la classe moyenne.

Mais la croissance rapide de la Chine est principalement due aux progrès réalisés et aux investissements dans les technologies. Et tandis que la Chine, contrairement à l’Union soviétique, a fait preuve d’une innovation technologique locale exceptionnelle. Sans surprise, les entreprises chinoises sont déjà à l’avant-garde de la prochaine génération de réseaux de téléphonie mobile 5G et leur capacité de cyber-guerre avec les États-Unis est élevée. Les réalisations de la Chine résultent encore en grande partie de l’adoption de la technologie occidentale et, dans certains cas, de l’appropriation de la propriété intellectuelle. La Chine suit son propre chemin en démontrant que les systèmes politiques centralisés sont capables de conduire le développement plus rapidement et plus rapidement que tout le monde pourrait l’imaginer, loin d’être simplement un pays dont le revenu moyen augmente. La Chine peut diriger l’avenir numérique même si les États-Unis font leur part. L’ère imminente des machines intelligentes pourrait être un tournant décisif pour la Chine dans la bataille pour l’hégémonie mondiale avec les États-Unis.

* Fernando Alcoforado, 79 ans, titulaire de la Médaille du Mérite du Génie du Système CONFEA / CREA, membre de l’Académie de l’Education de Bahia, ingénieur et docteur en planification territoriale et développement régional pour l’Université de Barcelone, professeur universitaire et consultant dans les domaines de la planification stratégique, planification d’entreprise, planification régionale et planification énergétique, il est l’auteur de 14 ouvrages traitant de questions comme la mondialisation et le développement, l’économie brésilienne, le réchauffement climatique et les changements climatiques, les facteurs qui conditionnent le développement économique et social, l’énergie dans le monde et les grandes révolutions scientifiques, économiques et sociales.

O CARÁTER NEFASTO DO GOVERNO BOLSONARO

Fernando Alcoforado*

Em 45 dias de governo, é possível identificar o caráter nefasto da administração Bolsonaro para o Brasil. Este caráter nefasto é identificável, não apenas no despreparo de Jair Bolsonaro para exercer a presidência da República, mas também, nas ações deploráveis iniciais de alguns dos seus ministros como Sérgio Moro, Damares Alves, Ricardo Vélez Rodríguez, Ricardo Salles e Paulo Guedes.

Inúmeros juristas, políticos e acadêmicos comprometidos com normas civilizatórias classificam como grotesco o projeto do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, de combate à corrupção e ao crime. A prisão do réu após condenação em segunda instância, antes do trânsito em julgado e, portanto, em afronta à Constituição, e a quase permissão para matar que se pretende dar a policiais têm sido combatidas até por parte da imprensa que há pouco tempo idolatrava o juiz símbolo da Lava Jato. O projeto de Moro dá autonomia à Polícia Federal e ao Ministério Público para firmar acordos internacionais diretamente, sem o crivo do Congresso Nacional ou do Presidente da República em flagrante atentado à soberania nacional.

O projeto de Moro demonstra desapreço pelas audiências de custódia, ignorando decisão do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) que atesta a necessidade do procedimento que é o instrumento processual que determina que todo preso em flagrante deve ser levado à presença da autoridade judicial, no prazo de 24 horas, para que esta avalie a legalidade e necessidade de manutenção da prisão. O que está norteando o projeto de Sérgio Moro é um ideal punitivista que não vai resolver os problemas do país, inclusive vai piorar muitos deles. O ex-juiz símbolo da Operação Lava Jato peca pelo primarismo penal, segundo inúmeros juristas. Boa parte do que ele propõe já está sendo tratada em projetos de lei. Outra parte do que ele propõe não poderia ser tratada em projetos de lei. E outra parte do que ele propõe são retrocessos que já foram derrotados no Supremo Tribunal Federal ou no próprio Congresso Nacional. Moro pode ter sido um bom juiz de 1ª instância, mas demonstra não ter a qualificação necessária para exercer o ministério da Justiça e da Segurança Pública.

A nova ministra do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, a pastora evangélica Damares Alves, afirmou em série de vídeos no YouTube, que o Brasil vive ditadura gay e nega que “milhões de mulheres” morram com abortos, é contra o aborto e diz que o principal papel da mulher na sociedade é ser mãe. No início do novo governo, a frase “Meninos vestem azul, e meninas vestem rosa”, dita por ela no mesmo dia em que tomou posse no cargo e registrada em vídeo por apoiadores, demonstra sua visão retrógrada do desenvolvimento da sociedade. Gravações antigas suas também se espalharam pela internet, causando indignação. Uma delas, de 2013, mostra a atual ministra lamentando o fato de a igreja evangélica ter perdido espaço “quando deixou a Teoria da Evolução entrar nas escolas”, teoria esta comprovada cientificamente. Tudo isto mostra o caráter retrógrado da ministra Damares Alves e sua incapacidade para exercer o cargo.

Para o novo ministro da Educação, o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, educação moral e cívica deve ser base do ensino brasileiro. Segundo Rodriguez, “o brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba assentos salva-vidas do avião, ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”. Esta declaração fez com que a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, mandasse notificar Ricardo Vélez Rodríguez, para apresentar explicações sobre uma entrevista em que disse que o brasileiro se transforma em um canibal ao viajar. Ricardo Vélez Rodríguez afirmou que o aluno irá aprender o que é ser brasileiro e quais são os heróis nacionais. Vélez Rodríguez disse ainda que doutrinas ideológicas devem ser reservadas apenas ao ensino superior e que neste nível, o dever do professor universitário é ensinar aos alunos todas as posições ideológicas e colocar entre parênteses o seu ponto de vista, para não induzir o aluno a adotar o ponto de vista do mestre.

Ao anunciar o combate ao “marxismo cultural” que caracterizou como “uma ideologia materialista, alheia aos nossos mais caros valores de patriotismo e de visão religiosa do mundo”, o ministro Rodriguez não reconhece que o Brasil é um Estado democrático de direito, laico e pluralista, que acolhe sem discriminação as mais diversas visões do mundo, inclusive visões niilistas, ateístas, agnósticas, etc. consolidado pela Constituição de 1988. Promessas de atuar como guardião dos costumes legítimos do Brasil e carrasco da ideologia marxista-materialista dizem pouco se nada é proposto sobre o árduo e imperioso caminho rumo à virada qualitativa que nossa educação tanto precisa. Ricardo Vélez Rodríguez traduz com efetividade o caráter retrógrado do governo Bolsonaro e sua incapacidade de gerir a educação do Brasil.

É esta visão retrógrada da educação do governo Bolsonaro que está levando à militarização das escolas no Distrito Federal adotada pelo novo governo do Distrito Federal (DF) que, em paralelo ao corte do passe livre aos estudantes, ele faz uma portaria para uma intervenção militar em quatro escolas da rede pública. A militarização das escolas não é nova. Há uma clara diferença entre colégio militar e uma intervenção militar. Colégio militar é uma estrutura que tem como critério uma prova de seleção que reproduz privilégios. É como um funil, onde só passam aqueles que já dominam os principais conteúdos. Além disso, os colégios militares têm quase três vezes mais recursos do que os do ensino regular. Tudo isso dificulta a comparação com os colégios em geral e põe em dúvida sua efetividade, uma vez que dispõem de uma estrutura que não é a realidade da educação pública brasileira.

O que se apresenta no DF é uma intervenção autoritária e antidemocrática, ferindo leis já existentes sem diálogo amplo com a comunidade. A educação pública é de responsabilidade das secretarias de educação, e não da PM. Ter policiais na gestão da educação é um desvio de função, uma vez que muitos sequer têm formação pedagógica. Apresentam-se como gestão compartilhada e jogam no lixo a gestão democrática, os conselhos escolares e os grêmios estudantis. Ferem, por que impõem um único estilo de comportamento, com corte de cabelos e vestimentas que inibem a individualidade de cada um, a pluralidade dos indivíduos. Não se pode negar que há um desafio na educação brasileira. Contudo, não é com polícia que se resolve. Uma escola que pune o pensamento crítico, em que não pode se expressar o que é e como é, é um espaço repressor visto talvez, só em espaços prisionais.

O discurso de posse do novo ministro de relações exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, aponta no sentido de o Brasil deve romper com o histórico de sua política externa reconhecida mundialmente por pautar suas ações por alguns princípios dos quais nunca abriu mão como os de não intervenção, de autodeterminação dos povos e de solução pacífica de controvérsias. A política externa brasileira proposta por Araújo vai em direção ao alinhamento ainda maior aos interesses dos Estados Unidos deixando de lado as iniciativas de inserção autônoma para um mundo multipolar no qual o Brasil teria uma margem de barganha muito maior. A fala do novo ministro deixa explícito que os mesmos objetivos da política externa do governo Trump serão almejados pelo Brasil, a partir de agora. É por isso que Araújo intensifica o discurso contra a Venezuela, exalta Israel, e aplaude governos conservadores que flertam com o fascismo como o da Itália (Nova Itália na fala do ministro), Hungria (campeã da xenofobia) e Polônia (novo bastião da OTAN), de maneira fática disse: “os aliados dos Estados Unidos serão nossos aliados, e os seus inimigos serão os nossos inimigos”. Este discurso de Araújo vai contra o lema do governo Bolsonaro “Brasil acima de tudo” ao tornar o Brasil subalterno dos Estados Unidos.

Araújo promete que o Itamaraty vai buscar o interesse do povo brasileiro por meio de decisões “técnicas”. Como justificar tecnicamente a proteção do setor estratégico desnacionalizando uma das maiores empresas nacionais e com alto grau de tecnologia que é a Embraer? Além disso, como justifica o alinhamento a Israel e a mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, colocando em risco a exportação de carne Halal – considerado o Brasil maior produtor e exportador mundial de carne bovina, o segundo maior de frangos e líder nas vendas de carne Halal – para os países árabes? Ou, como promete proteger o interesse do povo brasileiro ao não denunciar a venda do Pré-Sal para potências estrangeiras e o sucateamento da Petrobras? Ernesto Araújo mostra o caráter subalterno e entreguista do governo Bolsonaro em relação aos Estados Unidos.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, admitiu no programa Roda viva, da TV Cultura, recentemente, que nunca tinha visitado a Amazônia nem conhecia Chico Mendes, mas ouvira de gente “do agronegócio” que o maior herói ambiental amazônico era um aproveitador que “usava os seringueiros”. Tentando se livrar da polêmica causada pela resposta, disse que diferença faz quem é Chico Mendes neste momento? Último ministro a ser nomeado no gabinete de Jair Bolsonaro, Salles tem se notabilizado por posições francamente contrárias à agenda do Ministério do Meio Ambiente e por exibir ignorância total da questão ambiental. Como uma das primeiras medidas, editou um ofício determinando a suspensão por 90 dias de todos os convênios com ONGs, medida ilegal da qual teve de recuar no dia seguinte. Cometeu um equívoco ao prometer para a imprensa comprar “um satélite” de R$ 100 milhões para produzir dados que orientassem a fiscalização do desmatamento. O INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) explicou que faz isso em parceria com o Ibama desde 2004.

Em um mês e meio à frente do ministério, ele também já declarou que mudanças climáticas são um tema “acadêmico” e uma preocupação “para daqui a 500 anos”, defendeu plantações de soja transgênica em terras indígenas e a redução dos controles sobre agrotóxicos, disse que a culpa pelo aumento do desmatamento na Amazônia é da “pirotecnia” da fiscalização ambiental, insinuou que conferências do clima só servem para bancar férias de luxo de funcionários públicos na Europa e que ONGs fazem “terrorismo para vender palestra”. Em resumo, lamentavelmente, Salles é o ministro do Meio Ambiente perfeito para Bolsonaro para desgraça do Brasil.

O ministro da Economia Paulo Guedes, cérebro econômico de Jair Bolsonaro, é fundamentalista neoliberal defendendo a abertura do mercado brasileiro sem restrições e privatizações irrestritas para quitar parte da dívida pública brasileira, é a favor da manutenção do tripé macroeconômico, com regime de meta fiscal e de inflação, com câmbio flutuante, além de defender uma simplificação tributária “brutal”, rumo a um imposto único federal. Guedes afirma que tem que vender todo o patrimônio público. Sobre as companhias que poderiam passar ao capital privado, que significa em última instância entregar ao capital estrangeiro, ele indicou que, em princípio, todas seriam elegíveis. Ou seja, Petrobras e Banco do Brasil estariam na fila. O lema do governo Bolsonaro “Brasil acima de tudo” está sendo substituído pelo lema “Mercado e capital estrangeiro acima de tudo”. Guedes também defende a necessidade de reformar a Previdência social, ressaltando que pensa na criação de um novo regime, baseado em sistema de capitalização, diferente do regime de contribuição hoje vigente que significa, em última instância, levar os servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada à miséria no fim de suas vidas. Com a nova Previdência, as empresas não teriam que arcar com encargos e os trabalhadores teriam ativos e capitalização em seus nomes. Paulo Guedes defende, portanto, a adoção de uma política econômica neoliberal antinacional e antissocial.

O caráter nefasto do governo Bolsonaro resulta, portanto, do fato de ter um despreparado no comando da nação, de ter ministros incompetentes e retrógrados e adotar políticas antidemocráticas, antinacionais e antissociais.

*Fernando Alcoforado, 79, detentor da Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).

THE NEFARIOUS CHARACTER OF BOLSONARO GOVERNMENT

Fernando Alcoforado*

In 45 days of government, it is possible to identify the nefarious character of the Bolsonaro administration for Brazil. This nefarious character is identifiable, not only in Jair Bolsonaro’s lack of preparation for the presidency of the Republic, but also in the initial deplorable actions of some of its ministers like Sérgio Moro, Damares Alves, Ricardo Vélez Rodríguez, Ricardo Salles e Paulo Guedes.

Numerous jurists, politicians and academics committed to civilizational norms classify as grotesque the project of the Minister of Justice and Public Security, Sergio Moro, to combat against corruption and crime. The arrest of the defendant after a conviction in the second instance, before a final decision, and therefore in violation of the Constitution, and the almost permission to kill that is intended to be given to police officers have been questioned come by the press that recently idolized the judge symbol of Lava Jato. The Moro project gives autonomy to the Federal Police and the Public Prosecutor’s Office to sign international agreements directly, without the scrutiny of the National Congress or the President of the Republic in evident attack on national sovereignty.

Moro’s project demonstrates disapproval of custody hearings, ignoring the decision of the CNJ (National Council of Justice) that testifies to the necessity of the procedure that is the procedural instrument that determines that every prisoner in flagrante must be taken to the presence of the judicial authority, within 24 hours, in order for it to assess the legality and necessity of maintaining the prison. What is guiding the project of Sergio Moro is a punitive ideology that will not solve the problems of the country, and will worsen many of them. The former judge of Operation Lava Jato pleads for criminal primary, according to numerous jurists. Much of what he proposes is already being addressed in bills. Another part of what he proposes could not be dealt with in bills. And another part of what he proposes are setbacks that have already been defeated in the Federal Supreme Court or in the National Congress itself.  Moro may have been a good judge of first instance, but he does not have the necessary qualification to carry out the Ministry of Justice and Public Security.

The new minister of the Ministry of Women, Family and Human Rights, evangelical pastor Damares Alves, said in a series of videos on YouTube, that Brazil lives a gay dictatorship and denies that “millions of women” die with abortions, it is against abortion and says that the main role of women in society is to be a mother. At the beginning of the new government, the phrase “Boys in blue dress, and girls in pink dress”, said by her the same day she took office and videotaped by supporters, demonstrates her retrograde view of the development of society. Old recordings of yours have also spread over the internet, causing outrage. One of them, from 2013, shows the current minister bemoaning the fact that the evangelical church has lost ground “when it let the Theory of Evolution into schools,” the theory that is scientifically proven. All this shows the retrograde character of Minister Damares Alves and his inability to hold in office.

For the new minister of Education, Colombian Ricardo Vélez Rodríguez, moral and civic education should be the basis of Brazilian education. According to Rodriguez, “the Brazilian traveling is a cannibal. Steal things from hotels, steal airplane life-saving seats; he thinks he leaves the house and can carry everything. That’s the kind of thing that has to be reversed in school. This statement caused Minister Rosa Weber of the Federal Supreme Court to notify Ricardo Vélez Rodríguez to explain an interview in which he said that the Brazilian becomes a cannibal when traveling. Ricardo Vélez Rodríguez said that the student will learn what it is to be Brazilian and what the national heroes are. Vélez Rodríguez also said that ideological doctrines should be reserved only for higher education and that at this level, the duty of the university professor is to teach students all ideological positions and put in parentheses their point of view, not to induce the student to adopt the master’s point of view.

In announcing the fight against “cultural Marxism” that he characterized as “a materialistic ideology, alien to our most valued values of patriotism and religious view of the world”, Minister Rodriguez does not recognize that Brazil is a democratic state of law, secular and pluralistic, which embraces without distinction the most diverse views of the world, including nihilistic, atheistic, agnostic visions, etc. consolidated by the Constitution of 1988. Promises to act as guardian of the legitimate customs of Brazil and executioner of the Marxist-materialist ideology say little if nothing is proposed on the arduous and imperious path towards the qualitative turn that our education needs so much. Ricardo Vélez Rodríguez effectively translates the retrograde character of the Bolsonaro government and its inability to manage Brazil’s education.

It is this retrograde vision of the education of the Bolsonaro government that is leading to the militarization of schools in the Federal District adopted by the new government of the Federal District that, in parallel to the cut of the students’ free pass, makes a portaria for a military intervention in four public schools. The militarization of schools is not new. There is a clear difference between military college and a military intervention, Military college is a structure that has as criterion a proof of selection that reproduces privileges. It is like a funnel, where only those who already dominate the main contents pass. In addition, military colleges have almost three times more resources than regular colleges. All this makes it difficult to compare them with the colleges in general and doubts their effectiveness, since they have a structure that is not the reality of Brazilian public education.

What is presented in the Federal District is an authoritarian and undemocratic intervention, hurting existing laws without broad dialogue with the community. Public education is the responsibility of the education secretariats, not of the military police. Having police officers in the management of education is a deviation from function, since they have no pedagogical training. They present themselves as shared management and throw away democratic management, school boards, and student councils. They hurt, because they impose a single style of behavior, with cut of hair and clothing that inhibit the individuality of each, the plurality of individuals. There is no denying that there is a challenge in Brazilian education. However, it is not with the police that it is resolved. A school that punishes critical thinking, in which it cannot express what it is and how it is, is a repressive space seen perhaps, only in prison spaces.

The inaugural address of the new foreign minister of Brazil, Ernesto Araújo, points out that Brazil must break with the history of its foreign policy recognized worldwide for guiding its actions by some principles that it never gave up like those of nonintervention, self-determination of peoples and peaceful settlement of disputes. Araújo’s proposed Brazilian foreign policy moves toward an even greater alignment with the interests of the United States, leaving aside the initiatives of autonomous insertion into a multipolar world in which Brazil would have a much greater margin of bargaining. The new minister’s statement makes explicit that the same objectives of the foreign policy of the Trump government will be sought by Brazil, from now on. That is why Araújo intensifies the discourse against Venezuela, exalts Israel, and applauds conservative governments flirting with fascism like Italy (New Italy in the speech of the minister), Hungary (champion of xenophobia) and Poland (new NATO bastion ), in a factual way, said: “the allies of the United States will be our allies, and their enemies will be our enemies”. This speech by Araújo goes against the motto of the Bolsonaro government “Brazil above all else” by making Brazil subaltern of the United States.

Araújo promises that the Itamaraty will seek the interest of the Brazilian people through “technical” decisions. How to technically justify the protection of the strategic sector by denationalising one of the largest national companies with a high degree of technology that is Embraer? In addition, how does it justify alignment with Israel and the relocation of the Tel Aviv embassy to Jerusalem, putting at risk the export of Halal meat – considered the world’s largest producer and exporter of beef, the world’s second largest chicken and sales leader of Halal meat – for the Arab countries? Or, how to promise to protect the interest of the Brazilian people by not denouncing the sale of the Pre-Salt to foreign powers and the scrapping of Petrobras? Ernesto Araújo shows the subordinate character of the Bolsonaro government in relation to the United States.

Environment Minister Ricardo Salles admitted in TV Cultura’s recent show, Roda Viva, that he had never visited the Amazon and did not know Chico Mendes, but he had heard from “agribusiness” people that the greatest environmental hero in the Amazon was a profiteer who “Used the rubber tappers”. Trying to get rid of the controversy caused by the response, said what difference does it make who is Chico Mendes at this time? The last minister to be named in Jair Bolsonaro’s cabinet, Salles has been noted for positions that are openly contrary to the agenda of the Ministry of the Environment and for showing total ignorance of the environmental issue. As one of the first measures, it issued a letter stating the 90-day suspension of all agreements with NGOs, an illegal measure from which it had to withdraw the next day. He made a mistake by promising the press to buy a “satellite” of R$ 100 million to produce data that would guide the monitoring of deforestation. INPE (National Institute of Space Research) explained that it has done this in partnership with IBAMA since 2004.

In a month and a half ahead of the ministry, he has also declared that climate change is an “academic” theme and a concern “for the next 500 years,” defended transgenic soybean plantations in indigenous lands and reduced controls on pesticides, said that the blame for increased deforestation in the Amazon is from the “pyrotechnics” of environmental monitoring, he hinted that climate conferences only serve to luxury vacations of public officials in Europe and that NGOs do “terrorism to sell a lecture”. In summary, sadly, Salles is the perfect environment minister for Bolsonaro to Brazil’s disgrace.

Economy Minister Paulo Guedes, Jair Bolsonaro’s economic brain, is a neoliberal fundamentalist defending the opening of the Brazilian market without restrictions and unrestricted privatizations to pay part of the Brazilian public debt, is in favor of maintaining the macroeconomic tripod, with a fiscal meta of inflation, with floating exchange rate, in addition to defending a “brutal” tax simplification, towards a single federal tax. Guedes says he has to sell all the public assets. On companies that could move to private capital, which ultimately means surrendering to foreign capital, he indicated that, in principle, all would be eligible. That is, Petrobras and Banco do Brasil would be in line. The motto of the Bolsonaro government “Brazil above all else” is being replaced by the motto “Market and foreign capital above all else.” Guedes also defends the need to reform Social Security, emphasizing that he thinks of the creation of a new regime, based on a capitalization system, different from the current tax regime that means, ultimately, to take public servants and workers from the private sector to misery at the end of their lives. With the new Social Security Plan, companies would not have to pay for the charges and workers would have assets and capitalization in their names. Paulo Guedes therefore advocates the adoption of an anti-national and anti-social neoliberal economic policy.

The nefarious character of the Bolsonaro government results, therefore, from having one unprepared at the helm of the nation, from having incompetent and retrograde ministers, and from adopting antidemocratic, anti-national, and anti-social policies.

* Fernando Alcoforado, 79, holder of the CONFEA / CREA System Medal of Engineering Merit, member of the Bahia Academy of Education, engineer and doctor in Territorial Planning and Regional Development by the University of Barcelona, ​​university professor and consultant in the areas of strategic planning, business planning, regional planning and planning of energy systems, is the author of 14 books addressing issues such as Globalization and Development, Brazilian Economy, Global Warming and Climate Change, The Factors that Condition Economic and Social Development,  Energy in the world and The Great Scientific, Economic, and Social Revolutions that Changed the World.

LE CARACTERE NÉFASTE DU GOUVERNEMENT BOLSONARO

Fernando Alcoforado*

En 45 jours de gouvernement, il est possible d’identifier le caractère néfaste de l’administration Bolsonaro pour le Brésil. Ce caractère néfaste est identifiable, non seulement par le manque de préparation de Jair Bolsonaro pour la présidence de la République, mais également dans les actions initiales déplorables de certains de ses ministres comme Sérgio Moro, Damares Alves, Ricardo Vélez Rodríguez, Ricardo Salles et Paulo Guedes.

De nombreux juristes, politiciens et universitaires attachés aux normes de la civilisation qualifient de grotesque le projet du ministre de la Justice et de la Sécurité publique, Sergio Moro, de lutter contre la corruption et le crime. L’arrestation de l’accusé après une condamnation en deuxième instance, avant une décision finale, et donc en violation de la Constitution, et la quasi-autorisation de tuer qui doit être accordée aux policiers ont été mises en cause par la presse qui récemment idolâtré  le symbole du juge de Lava Jato. Le projet Moro donne l’autonomie à la police fédérale et au parquet pour la signature directe d’accords internationaux, sans le contrôle du Congrès national ni du Président de la République dans une attaque manifeste contre la souveraineté nationale.

Le projet de Moro témoigne de la désapprobation des audiences de garde à vue, ignorant la décision du CNJ (Conseil national de la justice) qui témoigne de la nécessité de la procédure qui est l’instrument de procédure qui détermine que tout prisonnier flagrant doit être placé devant l’autorité judiciaire. , dans les 24 heures, afin d’évaluer la légalité et la nécessité de maintenir la prison. Le projet de Sergio Moro est guidé par une idéologie punitive qui ne résoudra pas les problèmes du pays et en aggravera un grand nombre. L’ancien juge de l’opération Lava Jato péchés pour le primairisme criminel,  selon de nombreux juristes. Une grande partie de ce qu’il propose est déjà abordée dans les projets de loi. Une autre partie de ce qu’il propose ne pourrait pas être traitée dans les projets de loi. Et une autre partie de sa proposition concerne les échecs qui ont déjà été rejetés par la Cour suprême fédérale ou par le Congrès national même. Moro a peut-être été un bon juge de première instance, mais il n’a pas les qualifications nécessaires pour exercer les fonctions de ministre de la Justice et de la Sécurité publique.

Le nouveau ministre du ministère de la Femme, de la Famille et des Droits de l’homme, le pasteur évangélique Damares Alves, a déclaré dans une série de vidéos sur YouTube que le Brésil vivait sous une dictature gay et nie que “des millions de femmes” meurent des suites d’un avortement, c’est contre l’avortement et dit que le rôle principal des femmes dans la société est d’être une mère. Au début du nouveau gouvernement, la phrase “Les garçons vêtus de bleu et les filles vêtues de rose”, qu’elle a dite le même jour où elle a pris ses fonctions et enregistrée sur vidéo par ses partisans, témoigne de sa vision rétrograde du développement de la société. Anciens enregistrements de videos se sont également répandus sur Internet, provoquant l’indignation. L’un d’entre eux, à partir de 2013, montre au ministre actuel en déplorant le fait que l’église évangélique a perdu du terrain “lorsqu’elle a laissé la théorie de l’évolution entrer dans les écoles”, théorie qui a été prouvée scientifiquement. Tout cela montre le caractère rétrograde du ministre Damares Alves et son incapacité à exercer ses fonctions.

Pour le nouveau ministre de l’Education, le Colombien Ricardo Vélez Rodríguez, l’éducation civique et morale devrait être la base de l’éducation brésilienne. Selon Rodriguez, “le voyageur brésilien est un cannibale. Voler des objets dans des hôtels, voler des sièges qui sauvent des vies; il pense qu’il quitte la maison et peut tout transporter. C’est le genre de chose qui doit être inversé à l’école. ” En raison de cette déclaration, la ministre Rosa Weber de la Cour suprême fédérale a demandé à Ricardo Vélez Rodríguez d’expliquer un entretien dans lequel il avait déclaré que le Brésilien devenait un cannibale lors de ses voyages. Ricardo Vélez Rodríguez a déclaré que l’étudiant apprendra ce que c’est que d’être brésilien et quels sont les héros nationaux. Vélez Rodríguez a également déclaré que les doctrines idéologiques devraient être réservées à l’enseignement supérieur et qu’à ce niveau, le professeur d’université a pour tâche d’enseigner aux étudiants toutes les positions idéologiques et de mettre entre parenthèses leur point de vue, afin de ne pas amener l’étudiant à adopter le même principe le point de vue du maître.

En annonçant la lutte contre le “marxisme culturel” qu’il a qualifié “d’idéologie matérialiste, étrangère à nos valeurs les plus importantes du patriotisme et de la vision religieuse du monde”, le ministre Rodriguez ne reconnaît pas que le Brésil est un État de droit démocratique, laïque et démocratique. pluraliste, qui embrasse sans distinction les vues les plus diverses du monde, y compris les visions nihiliste, athée, agnostique, etc. consolidées par la Constitution de 1988. Promesses d’agir en tant que gardien des coutumes légitimes du Brésil et bourreau de l’idéologie marxiste-matérialiste dire peu si rien n’est proposé sur le chemin ardu et impérieux vers le virage qualitatif dont notre éducation a tant besoin. Ricardo Vélez Rodríguez traduit efficacement le caractère rétrograde du gouvernement Bolsonaro et son incapacité à gérer l’éducation du Brésil.

C’est cette vision rétrograde de l’éducation du gouvernement Bolsonaro qui a conduit à la militarisation des écoles du district fédéral, adoptée par le nouveau gouvernement du district fédéral, qui, parallèlement à la réduction du laissez-passer gratuit des étudiants, permet pour une intervention militaire dans quatre écoles publiques. La militarisation des écoles n’est pas nouvelle. Il existe une nette différence entre un collège militaire et une intervention militaire. Le collège militaire est une structure qui a pour critère une preuve de sélection reproduisant les privilèges. C’est comme un entonnoir, où seuls passent ceux qui dominent déjà le contenu principal. En outre, les collèges militaires disposent de presque trois fois plus de ressources que les collèges ordinaires. Tout cela rend difficile leur comparaison avec les collèges en général et doute de leur efficacité, car ils ont une structure qui n’est pas la réalité de l’éducation publique brésilienne.

Ce qui est présenté dans le district fédéral est une intervention autoritaire et antidémocratique, qui porte atteinte aux lois existantes sans dialogue approfondi avec la communauté. L’éducation du public relève de la responsabilité des secrétariats de l’éducation, et non de la police militaire. Avoir des policiers dans la gestion de l’éducation est une déviation par rapport à leur fonction, puisqu’ils n’ont aucune formation pédagogique. Ils se présentent comme une gestion partagée et rejettent la gestion démocratique, les conseils scolaires et les conseils d’élèves. Ils font mal, car ils imposent un seul style de comportement, avec une coupe de cheveux et un vêtement qui inhibent l’individualité de chacun, la pluralité des individus. On ne peut nier qu’il y a un défi dans l’éducation brésilienne. Cependant, ce n’est pas avec la police que le problème sera résolu. Une école qui punit la pensée critique, dans laquelle elle ne peut pas exprimer ce qu’elle est et comment elle est, est un espace répressif vu peut-être, uniquement dans les espaces de prison.

Le discours inaugural du nouveau ministre des Affaires étrangères du Brésil, Ernesto Araújo, souligne que le Brésil doit rompre avec l’histoire de sa politique étrangère reconnue dans le monde pour avoir guidé ses actions par des principes qu’il n’a jamais abandonnés, comme ceux de la non-intervention, l’autodétermination des peuples et le règlement pacifique des différends. La politique étrangère brésilienne proposée par Araújo tend à s’aligner davantage avec les intérêts des États-Unis, laissant de côté les initiatives d’insertion autonome dans un monde multipolaire dans lequel le Brésil aurait une marge de négociation beaucoup plus grande. La déclaration du nouveau ministre indique clairement que le Brésil poursuivra désormais les mêmes objectifs de la politique étrangère du gouvernement Trump. C’est la raison pour laquelle Araújo intensifie le discours contre le Venezuela, exalte Israël et applaudit les gouvernements conservateurs flirtant avec le fascisme, comme celui de l’Italie (Nouvelle Italie dans le discours du ministre), La Hongrie (championne de la xénophobie) et la Pologne (le nouveau bastion de l’OTAN) ont déclaré d’une manière phatique: “Les alliés des États-Unis seront nos alliés et leurs ennemis seront nos ennemis.” Ce discours d’Araújo va à l’encontre de la devise du gouvernement de Bolsonaro “Le Brésil avant tout” en faisant du Brésil le subordonné des États-Unis.

Araújo a promis que l’Itamaraty rechercherait l’intérêt du peuple brésilien par le biais de décisions “techniques”. Comment justifier techniquement la protection du secteur stratégique en dénationalisant l’une des plus grandes entreprises nationales dotées d’un haut degré de technologie comme Embraer? En outre, comment justifier l’alignement sur Israël et le transfert de l’ambassade de Tel-Aviv à Jérusalem, mettant en péril l’exportation de viande halal – considéré comme le plus grand producteur et exportateur mondial de viande de bœuf, la deuxième  de poulet et leader dans la vente de la viande halal – pour les pays arabes? Ou bien, comment prometter de protéger les intérêts du peuple brésilien en ne dénonçant pas la vente du Pre-Salt à des puissances étrangères et le démantèlement de Petrobras? Ernesto Araújo montre le caractère subordonné et capitulant du gouvernement Bolsonaro vis-à-vis des États-Unis.

Le ministre de l’Environnement, Ricardo Salles, a reconnu dans la récente émission de TV Cultura, Roda Viva, qu’il n’avait jamais visité l’Amazonie et ne connaissait pas Chico Mendes, mais qu’il avait entendu dire par des “professionnels de l’agroalimentaire “que le plus grand héros de l’environnement de l’Amazonie était un profiteur qui utilisé les récupérateurs de “caoutchouc”. Essayer de se débarrasser de la controverse causée par la réponse, a déclaré quelle différence cela fait-il qui est Chico Mendes en ce moment? Dernier ministre à être nommé dans le cabinet de Jair Bolsonaro, Salles a été reconnu pour ses postes ouvertement contraires à l’ordre du jour du ministère de l’Environnement et pour sa méconnaissance totale de la question environnementale. Parmi les premières mesures, il a publié une lettre indiquant la suspension de tous les accords avec les ONG pendant 90 jours, une mesure illégale dont il a dû se retirer le lendemain. Il a commis une erreur en promettant à la presse d’acheter un “satellite” de R$100 millions afin de produire des données qui guideraient la surveillance de la déforestation. L’INPE (Institut national de recherche spatiale) a expliqué qu’il le faisait en partenariat avec IBAMA depuis 2004.

Après Un mois et demi dans le direction du ministère, il a également déclaré que le changement climatique était un thème “académique” et une préoccupation “pour les 500 prochaines années”, a défendu les plantations de soja transgénique sur les terres indigènes et réduit les contrôles sur les pesticides, a déclaré que le développement de la déforestation dans la région amazonienne est imputé aux “actes pyrotechniques” de la surveillance de l’environnement, il a laissé entendre que les conférences sur le climat ne servent qu’aux vacances de luxe des fonctionnaires en Europe et que les ONG font du “terrorisme pour vendre une conférence”. En résumé, Malheureusement, Salles est le ministre de l’environnement idéal pour Bolsonaro, au déshonneur du Brésil.

Le ministre de l’Economie, Paulo Guedes, cerveau économique de Jair Bolsonaro, est un fondamentaliste néolibéral défendant l’ouverture du marché brésilien sans restrictions et les privatisations illimitées pour payer une partie de la dette publique brésilienne, est favorable au maintien du trépied macroéconomique, avec un régime de ciblage fiscal et de l’inflation avec des taux de change flottants, en plus de préconiser une simplification fiscale “brutale”, en faveur d’un impôt fédéral unique. Guedes dit qu’il doit vendre tous les biens publics. En ce qui concerne les entreprises susceptibles de passer à des capitaux privés, ce qui signifie en définitive une cession à des capitaux étrangers, il a indiqué que, en principe, toutes seraient éligibles. C’est-à-dire que Petrobras et la Banco do Brasil seraient en ligne. La devise du gouvernement de Bolsonaro “Le Brésil avant tout” est remplacée par la devise “Le marché et le capital étranger avant tout”. Guedes défend également la nécessité de réformer la sécurité sociale, soulignant qu’il pense à la création d’un nouveau régime, basé sur un système de capitalisation, différent du régime fiscal actuel, qui consiste à amener les fonctionnaires et les travailleurs du secteur privé à la misère à la fin de leur vie. Avec le nouveau plan de sécurité sociale, les entreprises n’auraient pas à payer pour les charges et les travailleurs auraient des actifs et une capitalisation à leur nom. Paulo Guedes préconise donc l’adoption d’une politique économique antinationale et antisociale néolibérale.

Le caractère néfaste du gouvernement Bolsonaro découle donc du fait d’avoir un président non préparé  pour diriger la nation, d’avoir des ministres incompétents et rétrogrades et d’adopter des politiques antidémocratiques, anti-nationales et anti-sociales.

* Fernando Alcoforado, 79 ans, titulaire de la Médaille du Mérite du Génie du Système CONFEA / CREA, membre de l’Académie de l’Education de Bahia, ingénieur et docteur en planification territoriale et développement régional pour l’Université de Barcelone, professeur universitaire et consultant dans les domaines de la planification stratégique, planification d’entreprise, planification régionale et planification énergétique, il est l’auteur de 14 ouvrages traitant de questions comme la mondialisation et le développement, l’économie brésilienne, le réchauffement climatique et les changements climatiques, les facteurs qui conditionnent le développement économique et social, l’énergie dans le monde et les grandes révolutions scientifiques, économiques et sociales.

DEFENDER A DEMOCRACIA PARA BARRAR O FASCISMO NO BRASIL

Fernando Alcoforado

Em sua escalada rumo ao poder no Brasil, os fascistas se reuniram a partir da grande mobilização social de junho de 2013, que começou com uma onda de protestos em São Paulo e se espalhou por várias cidades brasileiras, mobilizando milhares de pessoas para lutar pela construção de uma nova ordem política, econômica e social em substituição à falida ordem política, econômica e social atual. Os adeptos do fascismo consideram que a causa dos males atuais do Brasil está relacionada com a corrupção e o uso do Estado por partidos de tendência socialista ou comunista.  Os fascistas buscam a purificação da sociedade brasileira das influências tóxicas de partidos e lideranças políticas, sobretudo aquelas ligadas ao PT e seus aliados, os quais seriam culpados pela situação lamentável em que vivia a nação brasileira.

O avanço do fascismo no Brasil resulta do fato de sua organização econômica, social e política se encontrar em completa desintegração. A incapacidade do governo brasileiro e das instituições políticas em geral de oferecer respostas eficazes para superação da crise econômica recessiva em que se debate a nação brasileira desde 2014 e debelar a corrupção desenfreada em todos os poderes da República contribuiu para o avanço do fascismo como solução para os problemas do Brasil. Na escalada do fascismo no Brasil, foi realizada uma aliança entre a elite conservadora e os fascistas que foi consumada com o apoio da elite conservadora ao candidato Jair Bolsonaro à Presidência da República que tem uma proposta de governo tipicamente fascista porque seu discurso é baseado no culto explícito da ordem, na violência de Estado, em práticas autoritárias de governo, no desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados e no anticomunismo. A elite conservadora e os fascistas assumiram o controle do país com a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de outubro de 2018.

A elite conservadora é constituída pela elite econômica e financeira que é um grupo privilegiado, minoritário, composto por aqueles que possuem poder económico e/ou domínio social. Ela é composta pela elite tradicional, pela elite empresarial e dos grandes escritórios, pela elite dos novos ricos e pela elite rural. A elite tradicional é composta pelos descendentes da aristocracia do passado que tem ainda hoje um denso papel social e intelectual na construção de padrões conservadores no Brasil. A elite empresarial e dos grandes escritórios é composta por advogados e executivos de grandes empresas especialmente multinacionais anglo-americanas e europeias. A elite dos novos ricos são os novos empresários bem sucedidos que usam símbolos de riqueza como casas modernas, lanchas, aviões, grandes carros importados, relógios e canetas de grife. A elite rural, do interior do País, é uma grande classe de empreendedores agrícolas que se enriqueceu e tem grande força econômica e eleitoral.

Da mesma forma que Hitler e Mussolini, Bolsonaro ascendeu ao poder no Brasil pelo voto popular com o apoio da elite conservadora e de amplos segmentos da população.  Ao assumir o poder, Hitler e Mussolini se mantiveram nos limites da legalidade, mas permitiram ilegalidades fora dela. Ambos foram capazes de obter o apoio estratégico da elite conservadora e de amplos segmentos da população temerosos das forças de esquerda como é o caso da classe média que representa 53% da população do Brasil. A elite conservadora pensava que Hitler e Mussolini seriam capazes de manter sob seu controle os mais exaltados extremistas de direita ao seu redor.  As velhas oligarquias alemãs e italianas pensaram que seria possível usar Hitler e Mussolini para controlar os radicais vermelhos, transformá-los em figuras decorativas e o antigo establishment governaria na sombra, como sempre havia feito. Não contaram com a possibilidade de o dono da popularidade (Hitler e Mussolini) resolver assumir o controle do poder por conta própria. Os poucos jornais independentes que restavam foram amordaçados por uma série de restrições à imprensa. O caminho estava livre para a ditadura nazista na Alemanha e fascista na Itália. O mesmo pode se repetir durante o governo Bolsonaro.

A História nos diz que uma vez que essa aliança entre a elite conservadora e os fascistas é formada e tem sucesso em busca do poder, não há mais como pará-la. A aliança entre a elite conservadora e os fascistas pode destruir os últimos vestígios de um governo democrático no Brasil. Do confronto entre as forças defensoras e as oponentes do sistema democrático atual pode resultar a manutenção da democracia representativa no Brasil ou o seu fim. Apesar da afirmativa de Bolsonaro de que respeitará a Constituição e as Leis do País, a ameaça à ordem democrática atual no Brasil está explícita em seu discurso de campanha de caráter antidemocrático. As forças oponentes do sistema democrático atual são o governo Bolsonaro, os partidos de direita e centro direita, 39,2%  do eleitorado que votou em Bolsonaro, as organizações de direita da Sociedade Civil e parte dos integrantes do Parlamento e do Poder Judiciário. Essas forças oponentes do sistema democrático atual lutarão para que o governo Bolsonaro adote uma política econômica que atenda os interesses das classes sociais dominantes, pela obtenção de maioria no Parlamento para, através de emendas à Constituição e projetos de Lei, colocar em prática os objetivos fascistas do governo, pela conquista de maioria entre os integrantes do Poder Judiciário para assegurar os interesses do governo e para promover o desmantelamento dos movimentos sociais contrários ao governo.

As forças defensoras do sistema democrático atual são os partidos de esquerda, de centro esquerda e liberais democráticos, as organizações democráticas da Sociedade Civil, 60,8% do eleitorado que não votou em Jair Bolsonaro e parte dos integrantes do Parlamento e do Poder Judiciário. Essas forças defensoras do sistema democrático atual devem lutar pela obtenção de maioria no Parlamento para evitar que o governo Bolsonaro aprove projetos de lei e promova emendas à Constituição contrárias aos interesses da população e que ele conquiste a maioria entre os integrantes do Poder Judiciário para mudar a Constituição de 1988 atentando contra os direitos democráticos, humanos e sociais da população.  Essas forças defensoras do sistema democrático atual devem lutar, também, pelo fortalecimento dos movimentos sociais contra os atos do governo e em defesa da democracia no âmbito da Sociedade Civil.

O objetivo do governo Bolsonaro seria, portanto, a conquista do poder total englobando o Executivo, o Legislativo e o Judiciário para colocar em prática seu projeto fascista de governo. A escalada do fascismo já é um fato concreto no Brasil, disseminado, enraizado e poderá se tornar irreversível no Brasil no momento atual se não houver resistência. Para evitar o fim do sistema democrático atual no Brasil, não basta, portanto, confiar nas instituições republicanas que podem sofrer mudanças contrárias aos interesses da grande maioria da população através de projetos de Lei e emendas à Constituição por parte do governo Bolsonaro. A única forma de evitar a escalada do fascismo e a implantação de uma ditadura de direita no Brasil é a formação de uma frente democrática antifascista no Parlamento e na Sociedade Civil para defender a Constituição de 1988 e lutar contra os atos do governo que sejam contrários aos interesses da grande maioria da população e do Brasil.

*Fernando Alcoforado, 79, detentor da Medalha do Mérito do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017) e Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Bahiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria).