Fernando Alcoforado*
O “acordo” entre o governo federal e os “representantes” dos caminhoneiros anunciado ontem fracassou inteiramente porque o movimento deflagrado há vários dias continua. O acordo está com aspas porque na realidade não atendeu a demanda dos caminhoneiros e os representantes estão com aspas porque quem assinou o “acordo” não representa efetivamente os interesses dos caminhoneiros. O denominado “acordo” consistiu, em síntese, no seguinte:
- O preço do diesel será reduzido em 10% e ficará fixo por 30 dias. O valor ficará fixo em R$ 2,10 nas refinarias pelo período.
- Os custos da primeira quinzena com a redução, estimados em R$ 350 milhões, serão arcados pela Petrobras. As despesas dos 15 dias restantes ficarão com a União como compensação para a petrolífera.
- A cada 30 dias, o preço do combustível será ajustado conforme a política de preços da Petrobras e fixado por mais um mês.
- Não haverá reoneração da folha de pagamento do setor de cargas.
- A tabela de frete será reeditada a cada três meses.
- Ações judiciais contrárias ao movimento serão extintas.
- Multas aplicadas aos caminhoneiros em decorrência da paralisação serão negociadas.
- Entidades dos caminhoneiros e governo terão reuniões periódicas.
- A Petrobras irá contratar caminhoneiros autônomos como terceirizados para prestação de serviços
A proposta do “acordo” foi assinada pela Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), Confederação Nacional do Transporte (CNT), Federação dos Caminhoneiros Autônomos de Cargas em Geral do Estado de São Paulo (Fetrabens), Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens do Distrito Federal (Sindicam-DF), Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), Federação Interestadual dos Transportes Rodoviários Autônomos de Cargas e Bens da Região Nordeste (Fecone), Federação dos Transportadores Autônomos de Cargas do Estado de Minas Gerais (Fetramig) e a Federação dos Transportadores Autônomos de Carga do Espírito Santo (Fetac-EC). A única entidade representativa dos caminhoneiros que não assinou foi a União Nacional dos Caminhoneiros.
O denominado “acordo” não atendeu a pauta de reivindicações dos caminhoneiros porque não resolveu dois dos principais problemas que contribuem para a elevação dos preços dos combustíveis derivados de petróleo que são, de um lado, os impostos incidentes (Cide, PIS/Cofins e ICMS) e, de outro, os preços dos combustíveis praticados pela Petrobras que variam em função do mercado internacional do petróleo. Esta é a razão pela qual os caminhoneiros continuam com a paralização iniciada há vários dias. Apesar do acordo, caminhoneiros mantêm protestos em 23 estados e no Distrito Federal porque suas principais reivindicações não foram atendidas.
É preciso observar que é legítima a paralisação dos caminhoneiros que nasceu do descontentamento real de autônomos, que possuem seus veículos e prestam serviços enfrentando os aumentos do diesel com a política de preços da Petrobras que flutua de acordo com o preço internacional dos derivados do petróleo. Isso leva a aumentos, de uma hora para outra, no custo do frete e reduz a margem obtida pelo caminhoneiro. O governo Michel Temer, porém, não pode ser acusado de ter sido surpreendido. Recebeu avisos de entidades representativas sobre a possibilidade da eclosão da paralisação. Mas preferiu ignorar.
Ressalte-se que o governo federal arrecada impostos sobre a Cide e o PIS/Cofins que totaliza 10%, enquanto os governos estaduais arrecadam impostos sobre o ICMS que totalizam 31% no caso da gasolina, 18% no diesel S500 e 17% no diesel S10. O impacto do total de impostos no preço final dos combustíveis é, portanto, alto, chegando a 41% na gasolina, 28% no diesel S500 e 27% no diesel S10. Dificilmente, poderia haver redução dos impostos federais e estaduais em uma conjuntura de gravíssima crise fiscal dos governos federal e estaduais que operam em sua quase totalidade com déficits gigantescos.
Diante da dificuldade de haver redução de impostos federais e estaduais, o governo federal deveria exigir que a Petrobras adotasse uma política de preços que compatibilizasse os interesses do País e de seus acionistas privados nacionais e estrangeiros. É inadmissível que no momento em que o Brasil atravessa uma grave crise que afeta todos os setores de atividades que a Petrobras adote uma política de preços que beneficia apenas a seus acionistas privados que é detentora de mais de 60% do capital da Petrobrás, sendo 30% estrangeiras. É preciso fazer com que a prioridade máxima da Petrobras seja atender os interesses nacionais e não apenas a remuneração de seus acionistas e credores.
A Petrobras é uma empresa de capital misto cujo comando é indicado pelo governo federal. Não deveria, portanto, apenas produzir ganhos para seus acionistas privados nacionais e estrangeiros, mas contribuir para o desenvolvimento da economia brasileira e executar políticas de desenvolvimento social. Faz-se necessário, portanto, um equilíbrio entre o que deseja seus acionistas privados e a qualidade de vida do país. Um fato é evidente: apesar de a privatização da Petrobras não ter sido formalizada, ela já existe na prática. Ela está a serviço de seus acionistas privados.
Ao invés de solucionar o problema fazendo com que a política de preços praticada pela Petrobras corresponda aos interesses do Brasil, o presidente Michel Temer decidiu reprimir o movimento dos caminhoneiros com o uso das Forças Armadas cujas consequências são imprevisíveis. Estamos diante da possibilidade de haver um banho de sangue que pode levar o País ao retrocesso político institucional. O conflito entre caminhoneiros e o governo poderá abrir caminho para a implantação de um regime de exceção no Brasil. A frágil democracia brasileira está ameaçada diante da repressão contra os caminhoneiros posta em prática pelo governo Michel Temer.
*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).